Sobre Cuba, ilusões de óptica e pescaria

Quando eu era menor, fascinava-me em ver imagens dúbias, daquelas que temos duas figuras conjugadas em uma só: a velha e a moça, o pato e o coelho, etc. Tais representações mostram como nossa percepção é muitas vezes condicionada e falha. E isso porque somos animais visuais: ”ver” é algo que somos bons em fazer! Se em nossa competência máxima, naquilo que a evolução natural por dezenas de milhares de anos nos moldou para fazer, nós temos deficiências notáveis, o que dizer daquelas habilidades demandadas pelo mundo moderno que, para todos os fins, não fomos projetados para fazer? A análise econômica de dados, a pesquisa por informações verossímeis e fundamentadas, as projeções futuras de desenvolvimentos estatísticos… Deve haver muitas ”imagens dúbias” por esses cabalísticos meios.

Julgo Cuba como um desses casos, uma gigantesca ilusão de óptica: se você observa mais da esquerda, ergue-se uma utopia moreniana, o suprassumo do desenvolvimento socialista e, pois, manifestação plena do potencial humano; se a direita é tomada como referencial, vê-se então um reino de facínoras sem moral, opressores de uma população impotente que vive em condições tão ou mais reles que os mais mal-fadados porcos.
Misturado a mar de subjetividades, sempre há, se for usada uma vara intelectual rigorosa e honesta, algo objetivo e verdadeiro para se içar. Posto-me então a analisar um dos aspectos cubanos e a comentar sobre o mesmo: a educação.

É difundido pela esquerda que a educação em Cuba é ótima. Realmente, há dados embasar tais afirmações [1][2]. Causas recorrentes citadas para os indicadores altos são a valorização do docente, o investimento prioritário em educação (mais de 10% do PIB), poucas crianças na sala (18, no máximo) e atenção especial para cada criança.
O argumento espontâneo dos críticos é a falta de indicativos internacionais para tais números: os dados são emitidos pelo próprio governo cubano. Em exemplo de porque isso é problemático, é possível derivar que a educação brasileira é tão ruim por nossa colocação no PISA (teste internacional de leitura e matemática): 38° entre 44° países. Cuba, com tais números elevados, deveria estar em uma colocação ótima, né? O problema é que o país não faz esse teste [3] e, em fato, nenhum outro, afirmam os críticos.

Isto é parcialmente verdade, no entanto: de fato, Cuba não participa do Pisa, todavia não é honesto dizer que ela nunca participou de um indicativo internacional. Segundo o artigo do professor de Economia de Stanford, Martin Carnoy, a ilha socialista participou, em 1997, de um estudo patrocinado pela UNESCO, o qual visava avaliar a educação da América Latina: o ”SERCE”, realizado em duas partes, uma em 1997 e outra em 2006, apontou que a nota média dos estudantes cubanos foram ótimas, estando ”muito acima do segundo país colocado, Argentina”. Ademais, no mesmo artigo há um projeção curiosa: em 2006, os países latinos americanos que participaram do SERCE também o fizeram no PISA, de forma que é possível projetar, por comparação, os desempenhos que Cuba teria no PISA. Segundo Martin, de acordo com os cálculos feitos por ele, é mesmo possível que ”a educação cubana possa ser melhor que nos Estados Unidos”. No entanto, ele também é categórico em afirmar que ”tudo pode ser um erro estatístico”, porquanto os dados sobre o Pisa real são hipotéticos.

Afastando-se um pouco dos frígidos dados, levanta-se uma questão: a educação em Cuba segue a cartilha do Partido Comunista, que vê cada aluno como futuro soldado da revolução. [4] É, pois, no mínimo, direcionada. Eleva-se a possibilidade de a educação cubana, apesar de boa, falhar em dar importantes e notáveis bens imateriais: a liberdade de expressão, o pensamento crítico e a dialética de ideias. Repare que não afirmo isso, contudo é algo a se considerar (e, naturalmente, pesquisar com profundidade), antes de defender o regime apenas com base em dados. Em exemplo, Saddan Hussein recebeu um prêmio da Unesco [5] por erradicar o analfabetismo no Iraque, no entanto fazia isso por meios coercivos e suprimindo liberdades individuais básicas.

De qualquer forma, ao que parece, há uma real preocupação do governo cubano com Educação, uma filosofia que, aliada com o respeito pelos direitos humanos universalmente aceitos, pode servir, independente da ideologia do leitor, como um exemplo para o relapso Estado brasileiro, fazendo-nos evoluir e cavalgar algumas posições nos rankings internacionais, melhorando a vida da população e a projeção internacional do país.
Espero que minha pescaria tenha obtido sucesso e que tenha conseguido convergir em uma imagem plena as figuras dúbias.

[3] Eu, pessoalmente, aconselho vocês lerem o artigo do Wikipédia sobre. Está cheio de fontes mais inclusivas do que esta aqui, que abrange a comparação entre os países entre 2000 – 2012

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