A Sé, a fé e o fardo

Deixe a esquerda livre. Me mantenho a direita na escada rolante, dou passagem a quem precisa correr. Há quem precise correr até mesmo nas escadas rolantes. O degrau atinge o nível do chão e eu caminho, tomando cuidado para não tropeçar. Procuro nos bolsos o isqueiro, eu sempre coloco num bolso diferente. Dessa vez eu vou colocar no bolso da esquerda, é sempre o primeiro onde procuro, vai me poupar tempo. Encontro o isqueiro, o cigarro já está na boca, mas venta muito. Acomodo minhas mãos envolta do cigarro, e vou alterando o ângulo da cabeça até que a chama se mantenha durante tempo suficiente para queimar o tabaco.

“Sé”, escrito na enorme viga metálica erguida entre ladrilhos velhos. O marco zero de São Paulo. Não é necessária placa nenhuma para descobrir que se está na Sé. Meu cigarro ainda está na metade, e já procuro onde joga-lo. Tem algo estranho por aqui. Não encontro outras bitucas no chão, não encontro chão nenhum, nenhum chão que seja da Sé. Está tudo muito limpo. Preciso encontrar uma lixeira, não irei jogar o cigarro no chão. Eu sempre jogo o cigarro no chão, nos cantos, mas a bituca costuma estar acompanhada de outras. Se ninguém jogou, eu não serei o primeiro. Não levarei esse fardo comigo.

Encontro uma lixeira verde, mas ela está logo atrás de umas faixas da CET, que está logo atrás de mais outras faixas. Uma moça está fumando logo do outro lado. Chego próximo e pergunto se ela pode jogar o cigarro fora por mim. Ela tem alguns cabos enrolados ao corpo, e um fone de ouvido pavorosamente grande nos ombros. Aproveito e pergunto o que está acontecendo. “Joga o cigarro aí no chão mesmo” Eu o faço, o fardo agora é dela. Antes de acabar seu cigarro, me diz que estão acabando de gravar um comercial, ela se enrola entre alguns nomes de operadoras telefônicas em sua explicação seca.

Desce as escadarias da igreja uma noiva, seguida por câmeras. A claquete bate pela segunda vez, os holofotes se apagam e os grupos de curiosos que se agrupavam em volta das faixas começam a dissipar. O set improvisado some entre o tempo de acender o cigarro e de jogá-lo no chão, e ultimamente eu só o fumo até a metade. Dessa vez, sem fardo para carregar, jogo o cigarro no chão, e aos poucos a Sé volta a ser a Sé, as pessoas circulam, os fanáticos gritam, as bitucas se agrupam nos cantos e os pecadores continuam procurando o perdão.

O sino bate de hora em hora, e bate agora, devem ser sete horas. O sol alaranja o céu e as escadas da igreja. Eu as subo em meio a homens e mulheres que ocupam os degraus. Eu gosto dessa igreja. As colunas sobem metros e metros, imponentes. As paredes parecem impenetráveis e os vitrais pintam o ambiente como um filtro que escolhe quais cores passam, quais cores morrem no exterior. O ambiente se assume superior honestamente. Aqui se é esmagado, o ar que se respira te diz o quão indigno és.

Nos cantos da igreja estão posicionadas velas eletrônicas, urnas com algumas dezenas delas. É cobrado um real para acender a vela pequena por uma hora, e três para acender a vela grande. Eu coloco duas moedas de cinquenta centavos na máquina. Durante sessenta minutos terei um cilindro plástico com uma lâmpada alaranjada na ponta só para mim. É uma ilusão tão confortável. Sento-me pela próxima hora no banco em frente a urna. Se algum anjo vier checar quem abençoar por ter pago um real pela vela, ao menos serei o primeiro com quem ele vai se cruzar.

Existem o pecado e o perdão, e a ilusão do pecado e a ilusão do perdão. Quem acredita na primeira, gasta três reais na vela. Quem acredita na segunda, paga um. Tem também quem não pague nada, e para esses não existe nada. O mundo é cheio de mitos, existe uma variedade tão grande para se escolher, tantos deuses e demônios para acreditar. Alguns monopolizam as sociedades por um tempo, mas o deus de um acaba virando o demônio do outro. Numa espécie de darwinismo religioso, as crenças vão multando e sobrevive a que se encaixa melhor no ambiente. O ambiente… A vela apagou, e eu preciso fumar.

A Sé tem cheiros peculiares e, diria, familiares, mas esse aqui é diferente. Sigo-o até a porta, e conforme vou saindo da igreja o cheiro fica mais forte. É sopa, ou melhor, são sopas. Várias bandejas de sopa. Faz sentido, eu vi uma movimentação dentro da igreja de padres (ou bispos ou até mesmo o papa, nunca sei diferenciar quem é quem) com bandejas, mas eu estava muito ocupado com a minha vela. Uma multidão começa a se formar nos entornos da igreja, obedecendo antes os estômagos vazios do que a fila. Eu contei cinquenta, capturei mentalmente qual espaço essas cinquenta ocupam e fui multiplicando até encher a imagem que eu via. Cem, cento e cinquenta, duzentos. Eu não completei a imagem, mas eu já cheguei em duzentos, na verdade, duzentas. Duzentas crianças. Eu não quero um número maior.

Merda. Cadê meu isqueiro? Eu deveria ter colocado no bolso esquerdo, está no direito de trás. Da próxima vez eu coloco no esquerdo, eu sempre procuro primeiro no esquerdo. Acendo meu cigarro, caminho pelo contorno da multidão em direção ao metrô, e uma criança me para. O menino me pede um cigarro. Ele não deve ter 12 anos. Não respondo no começo, uma criança dessa idade não deveria fumar. Penso se não seria roubar-lhe a inocência lhe dar um cigarro. Uma inocência órfã de pais, de teto e de alimento. Dou o cigarro ao menino, pego o isqueiro no bolso esquerdo, ele acende o cigarro e me devolve, para então voltar para a fila após ter me agradecido. Se alguém roubou a inocência dessa criança, não carrego esse fardo sozinho. O mundo o divide comigo.

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