Cultura e Dialética

Na primeira semana de Abril de 2015 foi divulgada pela Fecomércio RJ dados sobre os hábitos culturais dos brasileiros. Indignada com os números, decidi escrever esse texto me baseando na filosofia de Adorno e Horkheimer sobre a Dialética do esclarecimento, e em minha observação, relacionando-as com o possível “desinteresse” do brasileiro em relação a arte e literatura de uma forma geral.

• 70% dos brasileiros entrevistados não leram nenhum livro no ano passado;
• 26,3% foram ao cinema no ano de 2014;
• 89% não assistiram nenhuma peça no ano de 2014.

Como grande fator de influência pesquisadores apontam a instabilidade econômica. R$ 15 reais, preço normalmente gasto em uma ida ao cinema, corresponde a quase 3% de um salario mínimo, o que limita o acesso a esse tipo de entretenimento a grande parcela dos brasileiros.

Outro fator, principalmente para os jovens, é a conexão cada vez maior com a internet. Acostumados com leituras rápidas, muita informação e pouco aprofundamento, perde-se um pouco o interesse por uma literatura digressiva e pouco dinâmica rapidamente.

Mas como um argumento mais aprofundado, proponho uma reflexão a seguinte filosofia de Adorno e Horkheimer:

“A regressão das massas, de que hoje se fala, nada mais é senão a incapacidade de poder ouvir o imediato com os próprios ouvidos, de poder tocar o intocado com as próprias mãos: a nova forma de ofuscamento que vem substituir as formas míticas superadas (…) Os remadores que não podem se falar estão atrelados a um compasso, assim como o trabalhador moderno na fábrica, no cinema e no coletivo.” (Adorno e Horkheimer 1985, p.13)

Com essa filosofia, Adorno faz uma alegoria com o mito Homérico do Canto das Sereias (em que Ulisses em seu retorno a Ítaca pediu aos remadores de seu barco que vedassem os ouvidos para não ouvirem o canto letal das sereias ou conversarem entre si , mas amarrou a si próprio a um maestro, para poder ouvir ao canto mas não o atendesse) e o trabalho nas fábricas que, pode ser aplicado ao trabalho em geral.

Aqui ele classifica os trabalhadores como alienados através de sua condição, ou seja, por trabalharem em longas e exaustivas jornadas de trabalho, esses se entregam a um lazer pouco intelectual e que tragam uma satisfação mais rápida. Essa teoria explicaria uma parte do desinteresse do brasileiro pela arte e literatura.

De qualquer forma, é importante levar em conta as diferentes noções de o que é cultura para o brasileiro e o que ele é capaz de construir com ela.

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