Os ventrílocos do sistema

Democracia, termo que deriva do grego, significa “governo do povo”. Nosso país está há poucas décadas de distância da redemocratização de 1985, depois de passar por assombrosos anos de uma ditadura. Esse ano, tomaram posse no congresso os eleitos nas eleições de 2014, na festa da democracia. 48% dos representantes do povo tem patrimônio superior a 1 milhão de reais. Que povo eles representam?

Estimativas apontam que o número de milionários no Brasil é de 200 mil pessoas. Considerando que passamos há poucos anos da marca de 200 milhões de habitantes, esse número representa 0,1% da população. Metade do congresso compõe essa fina camada. Calcula-se que o custo de uma campanha para deputado federal gire em torno de 10 milhões de reais. Uma campanha com chances de vencer, ao menos. De onde esse dinheiro vem?

Descartando a opção de bancar sua própria campanha, o candidato tem duas opções: receber pouco dinheiro através de doações físicas dos eleitores, ou se curvar diante de empresas, construtoras, bancos e multinacionais, as quais irão lhe bancar. Mas o candidato tem que ter uma coisa em mente: empresa não doa, empresa investe. Como o povo pode eleger seus representantes se os eleitos não fazem parte do povo?

Mesmo num sistema político falido e corrompido, o povo ainda tem voz. Nas eleições de 2014 no Rio de Janeiro, o PSOL elegeu 8 candidatos, entre deputados federais e estaduais, com apenas 547 mil reais, e obtiveram 801 mil votos juntos, uma média de 68 centavos gastos por voto. Em contrapartida, o PMDB gastou 32 vezes mais para eleger 18 deputados, atingindo somente o dobro dos votos do PSOL, com cada voto custando em média 10 reais. O estatuto do PSOL permite somente doações de pessoas físicas, enquanto o PMDB é financiado por grandes conglomerados econômicos que investem milhões nas campanhas, e cobram de volta durante os mandatos.

É perigoso acreditar que só existem vilões no congresso, do mesmo jeito que não se pode acreditar em heróis. Cada um está representando os interesses de seus eleitores. A questão é exatamente essa: alguns são eleitos pelo povo, enquanto outros são eleitos pelo capital.

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