A educação de governos retrógrados

O Dia Mundial da Educação de 2015 foi uma data marcante no cenário político brasileiro. Profissionais da rede pública de ensino do Paraná e outras pessoas se reuniram em frente à Assembleia Legislativa para protestarem contra a votação de um projeto de lei que altera o custeamento da ParanaPrevidência, responsável pelos pagamentos de Previdência Social aos servidores do estado, “porque o governador quer usar esses recursos dos trabalhadores para cobrir o rombo das contas públicas que sua má gestão provocou”, segundo Jean Wyllys, deputado federal do PSOL-RJ.

A manifestação, legítima, foi reprimida brutalmente pela Polícia Militar sob a ordem de Beto Richa (PSDB), governador do Paraná, que determinou que os 2 mil policiais ao redor dos edifícios “garantissem a segurança dos prédios públicos”, culpando, posteriormente, os manifestantes e supostos black blocs, alegando que tal repressão foi uma “ação de defesa” da PM.

Balas de borracha, bombas de gás lacrimogêneo, jatos d’água, spray de pimenta, bombas de efeito moral e cachorros da raça pitbull. O governo do Paraná extrapolou os limites da civilidade, moralidade e humanidade, expondo características de um governo totalitário pelo seu uso desmedido da força, reprimindo os opositores, resultando no número de mais de 200 pessoas feridas, entre as quais cerca de 50 necessitaram de atendimento médico.

Diante desse lamentável caso e das greves dos professores em cinco estados (São Paulo, Santa Catarina, Pará, Pernambuco e Paraná) é plausível a análise dos motivos que incentivaram tal paralisação. Portanto, será tomado como base de tal análise o texto de Renata Hummel, professora de sociologia na rede estadual paulista.

Pertencente à “categoria O”, a qual encontra-se a maioria dos contratados, Renata explica que essa categoria “é o que há de mais precário na rede: só pode ter duas faltas por ano, não tem direito a usar a assistência médica do estado (Iamspe), não tem direito à aposentadoria profissional (SPPrev), após um ano de contrato deve cumprir “geladeira” por 40 dias, e após dois anos de contrato deve cumprir a “duzentena” (200 dias sem poder pegar aula, ou seja, quase um ano forçadamente desempregado).” Cerca de 50 mil profissionais estão enquadrados nessa categoria.

O desinteresse de aprender dos alunos, a imaturidade dos mesmos, a falta de verba e a precária situação das escolas, o baixo salário dos professores, são tantos fatores que tornam a profissão de lecionar em rede estadual uma tarefa praticamente impossível. Em seu texto, Renata ainda comenta sobre medidas governamentais, como por exemplo, a atitude de Geraldo Alckmin que “fechou cerca de 3.000 salas de aula (qualquer sala com menos de 30 alunos inscritos no começo do ano foi fechada e seus alunos redistribuídos em outras), extinguiu cargos de coordenação, remanejou funcionários que tinham mais de 20 anos de escola (…), cortou verbas (…), forçou a duzentena na “categoria O” e decretou “reajuste zero” para os professores, sem cobrir sequer a inflação do período.”

“Entrar em greve significa ter desconto de salário, ter faltas no prontuário, ter que repor as aulas em sábados, contraturnos ou recesso, ouvir de pais e alunos que “professor ganha bem, tem férias de 30 dias e reclama de barriga cheia”, ouvir de colegas de trabalho que “professor grevista gosta é de ficar dormindo em casa enquanto os outros trabalham”, …, aguardando horas na chuva para ver o que o governo ofereceu e sair de lá chateado porque não querem nem conversar, ir a todas as Assembleias na sexta, com mais de 60 mil professores, e nenhuma TV ou jornal dar sequer uma linha (e quando dá, não escuta nenhum professor, apenas reproduz a pauta do governo).”, afirma Renata, explicando a situação dos grevistas.

A situação de Renata Hummel é semelhante a de outros milhares de educadores da rede pública de todo o Brasil. Nas atuais salas de aula são raros os alunos que querem seguir uma carreira de licenciatura, refletindo a falta de incentivos a profissão. O esclarecimento da situação das escolas públicas, a repressão policial no pacífico protesto no Paraná, as medidas governamentais acerca do ensino, demonstra que a educação no Brasil é algo extremamente desvalorizado.

Assim como dizia Paulo Freire, “seria uma atitude muito ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitissem às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de forma crítica”.

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