Dânae e a Chuva de Ouro

Isolada em torre de bronze no intuito de continuar virgem e intocada, Dânae não poderia gerar o filho que futuramente, segundo o Oráculo, mataria Acrísio, o próprio avô. Mas eis que, tomado de volúpia, o rei dos deuses Zeus transfigura-se em uma chuva de ouro, que penetra por entre as frestas da torre e cai no colo de Dânae, engravidando-a. Nasce o semideus Perseu, que anos depois mataria Acrísio acidentalmente. Esta pode parecer apenas uma tola lenda da mitologia grega, mas se reverteu em poderosa previsão relativa ao destino da arte, como se a tivesse feito o próprio oráculo. Bem, as práticas artísticas só foram realmente “puras” e livres de condição na pré história, onde os desígnios do autor eram o único fator condizente com sua criação. Sustentou-se de forma autônoma e individual, sem função social definida,  por um curto período da Idade Antiga, até o surgimento do mecenato. Os mecenas, patrocinadores da arte, foram seus anjos e demônios, já que o mesmo incentivo financeiro que permitia sua ramificação e expansão causava também seu direcionamento e esquematização, “engessando” as práticas e limitando-as a dados estilos, estéticas, métodos, significados. Coisa que não existia, porém, era a separação da arte em exclusivamente estética ou exclusivamente socializada/individualizada, por assim dizer, e só foi surgir em meio a uma conjuntura política e social no fim do século XVIII. A existência dos “patronos” artísticos foi o início de um imane processo de geração de interesses no âmbito da estética e do conteúdo, configurando o Mercado da Arte. Nietzsche disse, em contexto totalmente separado da fundamentação do mecenato e com um intento totalmente diferente do usado a seguir, que “Temos a arte para não morrer da verdade”. Na realidade, quando o interesse econômico está em jogo, morre a verdade da arte!

O mercado não é uma identidade. É um fenômeno. Ele está incutido em cada segundo de nossas vidas, desde o toque do despertador chinês até no modo como andamos. É impossível falar de vida em sociedade sem aludir ao capitalismo, fator de determinação comportamental, e esse é um juízo deveras dedutível. Diante disso, a alienação a respeito configura-se em passividade, posto que quem não enxerga o fato social em que está inserido passa a aceitá-lo sem objeções e sofrer seu efeito coercitivo como um porco que vai ao abate. Na função de agente ativo da organização em sociedade, o mercado se utiliza de ferramentas como a propaganda, a condução, a pesquisa, etc visando sempre ao lucro e não levando em conta qualquer valor moral ou efeito positivo social decorrente da venda do produto por ele ofertado, conduzindo através de tais ferramentas seu consumidor. Por exemplo, quando “escolhemos” assistir a determinado canal de tevê ao invés de outro, estamos na verdade  tomando uma das rotas que levam a um mesmo fim, já que nós não queríamos exatamente ver um ou outro programa, só os aceitamos como parte do roteiro da televisão baseado no que a maioria quer ver. Nossa interação com os produtos que nos são oferecidos constitui prova irrefutável de nossa total falta de liberdade para com os bens e serviços que usamos, visto que esses bens e serviços são uma simples consequência do efeito manada gerado pela sugestão e propaganda promovidos pelo próprio mercado, constituindo um ciclo vicioso em que não passamos de cabeças de gado. É vero que outra forma de atitude em relações de cunho comercial é inviável e que a vontade individual não poderá ser realmente efetivada na organização coletiva humana, mas a coerção a que estamos submetidos pelo interesse do lucro constitui a inferioridade hierárquica humana em fato consumado.

Com a arte não foi e não é nada diferente. Nossas escolhas artísticas são meramente virtuais e teóricas. Ninguém, por exemplo, vê uma ópera passando em rede nacional, por se constituir esta componente da música erudita em um evento voltado para uma elite musical e intelectual, que obviamente não forma maioria populacional e de opinião, e é portanto deixada completamente de fora pelo mercado. Ora, não será veiculada uma coisa a qual só um restrito grupo de pessoas apreciará, porque o fluxo de capital gerado por este grupo será tão pequeno como sua própria composição. A interferência do mercado na arte se deu, portanto, de forma negativa, porquanto julga determinadas formas como “superiores e inferiores” e “vinculáveis ou não vinculáveis” baseado apenas no conceito de opinião geral. É ainda mais maquiavélico, pois seleciona a forma artística levando em conta também seu custo, levando-nos a refletir até que ponto somos manipulados; Voltando ao exemplo da ópera, qual seria o interesse de pagar uma orquestra completa, seu maestro, músicos profissionais que geralmente estudaram a vida toda para aquilo, funcionários responsáveis pela iluminação, direção, roteiro… Para realizar apenas uma apresentação e lucrar com. No máximo, um teatro repleto de idosos e idosas que dispuseram parte de sua já pequena aposentadoria para se deliciar com os vibratos. Não, é muito melhor gravar um CD de batidas cansativamente repetitivas e técnica vocal no mínimo questionável e vender milhões de cópias desta produção barata para a maior parte da população que, com os gostos musicais já previamente delimitados e direcionados pelos recursos já citados de coerção, delira com a “música” e segue achando que tem liberdade de escolha artistica. O interesse essencialmente capitalista configura-se, nesta conjuntura, como um assassino de certas expressões e como um bondoso patrocinador para outras, isto é, até o momento em que elas não deem mais lucros.

A casta Arte, antes pura e protegida por uma elite cultural interessada em sua manutenção, acaba cedendo à chuva de ouro lançada pelos interesses comerciais, que escorre sorrateiramente pelas frestas da torre em que está isolada a Arte. Esta dá a luz a supostos heróis que, embora gozem do júbilo das multidões, acabam por trair e assassinar seus idealizadores. A subversão da arte se dá em um crescimento exponencial em função do mercado que, assim como Zeus, não pode ser impedido ou combatido.

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