Retóricas de um homem sobre o feminismo

É, eu sei o que Você está pensando. Sei da sua careta, dos seus julgamentos e, quiçá, até do seu riso irônico. Sei dos seus jargões, sei que sou iuzomista e omi, que vou ouvir seus ”ZzZz”, que Você me julga como opressor em tudo que falo, que Você acha que eu não conheço o tamanho do sofrimento imposto no seu gênero, que Você crê que só ”falo merda” e que tudo isto é um ”grande desserviço”. Pronto. Poupada está de digitar tudo isto. Use este tempo adicional de tua vida para ler o resto do meu texto, então.

Desde o começo da humanidade até meados do século XX, as mulheres eram oprimidas legalmente, possuindo um abismo de diferença quando se analisava suas possibilidades e direitos civis. Isto é claramente uma perfídia: não há defesa moral para esta sorte de desigualdades legais. O feminismo, ao conseguir expurgar, ao menos do mundo ocidental, por meio da luta e efetivação de direitos civis, grande parte dessas injustiças e imoralidades, prestou um serviço valiosíssimo ao mundo, porquanto o ajudou a se tornar mais harmonioso e igual.

Com exceção de algumas infelizes leis – por exemplo, considerar o topless e o aborto crimes -, creio ser ponto pacífico que, comparado com nosso passado obscuro, as legislações ocidentais não são opressivas ao gênero feminino: não o proíbem de votar, transitar em locais públicos, frequentar escolas e universidades, expressar-se, etc.

Tiram disto os críticos mais radicais ao feminismo que, então, toda reclamação feminista atual é”mimimi”.  Mas eu não sou destes, sérião. Este pessoal, geralmente, não analisou alguns conceitos sociais mais sutis: a opressão pode ser invisível, tão enraizada na nossa cultura e em nós mesmos que muitos já deixaram de questioná-la e encará-la, aceitando-a como algo comum, uma lei natural como a gravidade, imutável e universal, que frustra com sua inexpugnabilidade todos aqueles que tentam confrontá-la. Mas não adianta ignorá-la, pois ela se mantêm encarando todos nós, dificultando nossa vivência com grilhões indecorosos. As feministas chamam tal opressão  de ”machismo”, um resquício moderno daquelas leis segregatórias e, pois, algo nocivo por excelência. Não me apetece discutir semântica, então concordo com tal definição.

De quem é a culpa por ele existir? De ninguém em específico, na verdade: é um sujeito coletivo, no máximo. Os homens e mulheres que propagam a ideologia não fazem isso, na maioria das vezes, por real ponderação; em fato, apenas reproduzem um comportamento ancestral, hereditário e normatizado. E quem são as vítimas? O machismo gera consequências perversas para ambos os gêneros, já que delega obrigações se baseando unicamente em nossa aparência externa, em nossos apêndices, excluindo da equação o aspecto humano e a liberdade individual.

Veio de mim e de você. Atinge a mim e a você. Então por que Você exclui o homem do cenário?  Por que Você me trata como alguém alheio e inócuo ou, pior, como um opressor inveterado? Por que ri da minha cara quando cito que o homem também sofre e o feminismo, supostamente um movimento de igualdade, também deveria se preocupar com isso? Por que faz questão de mencionar gênero quando é um problema de todos? Sim, de homens e de mulheres! Com suas convergências e suas particularidades.

A virilidade. A surpresa ao declarar que ama. A iniciativa. O tamanho do pênis. A objetificação da alma. A perda da virgindade. . O cárcere. A culpa pelo cárcere. A resignação. O sucesso financeiro. O azul. [1] [2] [3]

A cantada vulgar. A surpresa ao declarar que não quer se casar ou ser mãe. O Revenge-Porn.  A sacralização do corpo. A objetificação da alma. A manutenção virgindade. O estupro. A culpa pelo estupro. A resignação. A Padronização estética. O rosa.

O que dói mais? Não sei. Não sou mulher. E Você não é homem. Mas será mesmo necessário medir, quantificar em números frios, o sofrimento?  Esta é uma competição própria, moral? Qual o prêmio, afinal? Reduzir o mundo e a sociedade a maniqueísmos? Não é conspícuo que, se possível, mais produtivo e desejável é eliminar as agruras humanas, sem ver o gênero? Não é esta a verdadeira igualdade? Eu não acho necessário responder essas perguntas retóricas. Posso deixar a redação em aberto, pois tenho grande certeza que Você, ainda que com algumas ressalvas notáveis, deve concordar com a essência do meu texto.

Eu não sou seu adversário. Sou seu igual. É isso que o movimento prega, não? Se vê isso, dê-me a mão e vamos. O mundo tem problemas demais para ficarmos gastando vigor em debates.

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