A história da proibição da maconha

A maioria das pessoas pensa que a maconha foi ilegalizada por alguma comprovação científica advertindo os males dela, concluindo que era uma droga perigosa e que os cidadãos estariam protegidos se ela não continuasse no mercado. Porém, a história verdadeira é bem diferente.

Em 1916, o departamento de agricultura dos EUA anunciou um comunicado dizendo que a Cannabis sativa era uma planta muito eficiente para diversos propósitos e que estavam desenvolvendo tecnologias para o cultivo desta em grande escala. Posteriormente, declararam que um acre de plantação de cânhamo era mais de quatro acres de árvores desmatadas para a produção de papel.

Na maior parte do Ocidente, o uso da maconha para fumo era desprezado às classes marginalizadas e visto com asco pela classe média branca. Algo que poucos sabem, é que a planta possuía uma grande relevância econômica. Quase toda a produção de papel tinha como matéria-prima a fibra do cânhamo. Diversos remédios continham cannabis. A Ford estava desenvolvendo combustíveis feitos a partir da semente da planta, sem prejudicar o meio ambiente e muito mais duradouro. A indústria de tecidos também dependia da cannabis. Ou seja, a planta era realmente muito importante para o país e seu cultivo ocupava cerca de 2000 hectares (aproximadamente 5000 acres) do território estadunidense.

Em 1920, os Estados Unidos decretaram a Lei Seca, onde a venda, fabricação e transporte de bebidas alcoólicas para consumo foram proibidas. Este é um fator muito importante para a ilegalização da erva. “A proibição do álcool foi o estopim para o ‘boom’ da maconha”, afirma o historiador inglês, Richard Davenport-Hines. “Na medida em que ficou mais difícil de obter bebidas alcoólicas e elas ficaram mais caras e piores, pequenos cafés que vendiam maconha começaram a proliferar”, escreveu em seu livro, The Pursuit of Oblivion (sem versão para português brasileiro).

Havia um clima de discordância contra a maconha que controlava a nação. No sul do país, havia boatos dizendo que a droga dava um poder aos mexicanos (os maiores consumidores) tornando injusto à população local na disputa pelos escassos empregos gerados pela Grande Depressão. Henry Jacob Aslinger percebeu esses aspectos e apegou-se brutalmente à bandeira proibicionista, contribuindo pelas divulgações dos mitos da maconha.

Quando as novas tecnologias para o plantio de cânhamo em grande escala começaram a ser utilizadas a um custo financeiro razoável, diversas gigantes companhias americanas perderiam bilhões de dólares caso não agissem em favor da criminalização da planta. “A DuPont foi uma das maiores responsáveis por orquestras a destruição das indústria do cânhamo”, afirma o escritor Jack Herer.

Em 1930, o governo, preocupado com certas drogas, decidiu criar o FBN (Federal Bureau of Narcotics) e Aslinger passou a ser o responsável pela política de drogas no país.

Aslinger tinha um grande aliado nessa guerra contra maconha: a pessoa mais influente dos EUA na época, William Randolph Hearst. Dono de uma cadeia imensa de jornais estadunidenses, também havia grandes interesses pela proibição da maconha. E um dos fatores deve-se ao seu ódio por mexicanos, quando durante a Revolução Mexicana, em 1910, as tropas de Pacho Villa desapropriaram uma enorme propriedade sua, a qual Hearst usava para plantar eucaliptos e outras árvores a fim de produzir papel.

Outro importante motivo foi que Hearst havia investido fortemente na indústria da madeira para suportar sua cadeia de jornais. Entretanto, ele não queria competir com o papel de cânhamo, que era muito mais barato e cultivado com maior facilidade.

Então, nos anos 30, Hearst iniciou uma intensa campanha contra a maconha. Publicou em seus jornais diversas histórias inventadas criminalizando a droga. Afirmando que 60% dos crimes eram causados pelo efeito da droga; que a maconha transforma meninos em demônios em trinta dias; que  a maconha é um atalho para o hospício, fumar a erva por um mês deixará seu cérebro nada mais além de um depósito de espectros horríveis; que faz os mexicanos estuprarem mulheres brancas e entre muitas outras histórias mal contadas. Também surgiram os boatos de que a maconha mata os neurônios, um mito existente atualmente. E um grande colaborador, contando suas histórias fictícias de terror, era Aslinger. Como conseqüência, a opinião pública ficou apavorada.

Em 1937, depois de dois anos de planejamento secreto, Aslinger foi ao Congresso e apresentou seu álbum cheio de reportagens criminalizando a maconha. Seu único opositor era o Dr. William Creighton Woodward, do Conselho Legislativo da Associação Médica Americana (AMA).

A FBN e o Aslinger foram denunciados pelo Woodward por alterarem as declarações do AMA, as quais não eram relacionadas com a maconha e foram distorcidos com o intuito de demonstrarem que assegurava o ponto de vista de Asliger.

Woodward também defendeu que a maconha (ou marijuana) era uma palavra sensacionalista usada para se referir aos mexicanos fumando a droga e não era associada à cannabis ou ao cânhamo. Além disso, ele passou a afirmar que a AMA se opunha a legislação e questionou o curto espaço de tempo entre as audiências, chegando perto de uma acusação de má conduta de Aslinger e sua equipe.

Os membros do Comitê passaram a atacar o Dr. Woodward, questionando os seus motivos para se opor à lei. Até mesmo o presidente do comitê tomou partido na discussão: “Se você quer dar conselhos a respeito da legislação, você deveria vir aqui com algumas propostas construtivas, ao invés de críticas, ao invés de tentar jogar obstáculos no caminho de que o Governo Federal vem tentando fazer. O Governo não tem somente um motivo altruísta nisto, eles tem uma série de responsabilidades”. Woodward retrucou e continuou lutando contra a proposta de lei. Porém, no Senado, um membro do comitê aproveitou a ausência de Woodward, e disse em nome do Dr. que ele apoiava esse projeto 100%.

Com base nessa mentira, em 2 de agosto de 1937, a maconha se tornou ilegal a nível federal. Proibiu-se não apenas a droga, mas a planta também. O homem simplesmente cassou o direito da espécie Cannabis sativa de existir.

Após sua conquista, Aslinger atuou internacionalmente. Criou uma rede de espiões e passou a frequentar as reuniões da Liga das Nações (antecessora da ONU), propondo tratados cada vez mais duros para reprimir o tráfico internacional. Procurou líderes de diversas nações e divulgou a eles os mesmos argumentos aterrorizantes que funcionaram os americanos. Não foi difícil de convencê-los. A Europa também havia embarcado na onda proibicionista.

A ilegalização virou uma forma de controle internacional dos Estados Unidos, principalmente depois de 1961, quando uma convenção da ONU determinou que as drogas são ruins para a saúde e o bem-estar da humanidade, e portanto, eram necessárias ações coordenadas e universais para reprimir seu uso. “Isso abriu espaço para intervenções militares americanas”, afirma Walter Maierovitch. “Virou um pretexto oportuno para que os americanos possam entrar em outros países e exercer os seus interesses econômicos”.

Em 1962, o presidente John Kennedy demitiu Aslinger. Um grupo formado para analisar os efeitos da droga concluiu que os riscos da maconha estavam sendo exagerados e que a tese de que ela leva a drogas mais pesadas era mentira. Porém não ocorreu a descriminalização. Muito pelo contrário! O presidente Richard Nixon endureceu mais a lei e criou o DEA (Departamento Anti-drogas Americano), um órgão ainda mais poderoso que o FBN.

Em setembro de 1988, o chefe administrativo do DEA afirmou que a maconha, em sua forma natural, é a mais segura substância terapêutica que o homem conhece, e pediu para que o DEA a reclassificasse. O departamento recusou, mantendo a maconha na classe das drogas que não possuem possibilidades de uso medicinal. Essa classificação contradiz uma série de estudos realizados no mundo que documentam o uso da maconha, concluindo que ninguém nunca morreu por uso de maconha durante seus 7000 anos de utilização.

Hoje proibida na maior parte do mundo, a maconha foi criminalizada devido a interesses econômicos de multinacionais, como a DuPont, e de magnatas americanos, como o William Randolph Hearst. Tal acontecimento demonstra algo comum na história: todo e qualquer interesse pessoal de um homem poderoso predomina.

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um comentário

  1. Sabiao Sabia · · Responder

    Verdades…Incrível como ainda não percebeu-se o grande potencial capitalizdor dessa e de outras drogas consideradas ilícitas. Será que a vontade dos “poderosos” se sobrepõe à ambição dos corruptos?
    Psicodélicos, como a canábis, os cogumelos, os pós, e os outros quais forem, tem essa estranha capacidade inibir os limites da imaginação, da criação…..imaginou se pensadores e criadores os usassem? Será que não usaram?
    Bom texto, embora com óbiva carga racista que insiste em empregar e impregnar. Liberte-se disso e serás um grande formador de opiniões verdadeiras, e não mais um produto de uma opinião midiática. Ainda me questiona se és também autor do Wikipédia…
    Ademais, salve sua “consciência livre”. Parabéns!

    Curtir

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