Cus e currículos

“Você não tem direito a nada” disse alguém em algum lugar. Essa pessoa nunca esteve tão certa. A única coisa que temos é o nosso cu. Os cus já nascem com um valor embutido, por exemplo, o cu de um homem vale 30% a mais que o de uma mulher. Um cu branco, 50% a mais que um negro.

Levamos nossos cus para serem avaliados pelos patrões. Na verdade, por alguém que o patrão contrata, por que ele não quer gastar seu tempo cheirando cus. Entre os cus concorrendo a uma vaga de emprego, tem um com um diploma da USP entalado no orifício. Foi contratado esse cu. Outro, com um diploma da Anhembi, enrolado discretamente, como com vergonha, mas um cu precisa mostrar tudo que oferece. Outro, pelado, com quase nada, a não ser o ensino médio concluído. Nem inglês fluente esse cu tinha. Como um cu que não é bilíngue quer ser contratado?

O empregado do patrão disse pra esse último cu: “Tá precisando de mais experiência, seu cu não tem nada ”. Desolado, o cu foi embora pra casa. Não conseguia nenhum emprego, nenhum que pagasse um salário suficiente para cobrir o aluguel e as despesas. Afinal, todo cu precisa de um teto e nenhum se alimenta de ar. Acordou de manhã decidido: vai entrar na faculdade. Ele precisava enfiar um diploma em si mesmo se quisesse chegar em algum lugar.

Ele não tinha estudado em uma dessas escolas caras com nomes bonitos, mas sim na estadual, na esquina de casa. Ou ele pagava um cursinho pra ficar com o cru treinado pro vestibular, ou iria parar numa dessas particulares cujos comerciais passam toda hora na TV. De um jeito ou de outro, se ele quisesse se tornar um cu mais qualificado, um desses cus almejados, ele teria que desembolsar uma grana.

O mercado quer um cu de ponta, um cu estudado, um cu culto. Então o mercado vende os meios para que os cus assim se tornem. Em outras palavras: você tem que pagar pro mercado de trabalho te transformar numa ferramenta melhor pro mercado de trabalho.

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