Eia, sus, oh, sus!

Você conhece essa frase do título? É da introdução excluída do Hino Nacional. Pessoalmente, eu a acho muito bonita, bem como todo o Hino. E nunca vi ninguém que o julgasse , em toda sua garrida poesia, com seu impávido simbolismo e seus retumbantes versos, como algo feio – no máximo, enjoativo, dado que o ouvimos exaustivamente. Mas o nacionalismo de muitos para por aí, acho. Só admiram o hino mesmo, não possuem nenhum amor grandioso pela pátria.

quaresma

Policarpo Quaresma, apoteótica personagem nacionalista criada por Lima Barreto.

Isto é algo bom? Há bons motivos para ser nacionalista? Esta pergunta é um pouco capciosa: geralmente, os argumentos apresentados para suportar o ”sim” acabam sendo incompletos ou imprecisos, o que pode dar a impressão que todo o nacionalismo é descabido, algo que, deveras, não se prova factual, como tentarei demonstrar aqui.

Primeiramente, deixo claro que o nacionalismo defendido não é algo extremamente específico, como ”deve-se defender ‘x’ país” ou ”devemos prezar a economia nacional”. O argumento aqui é sobre discernia entre ”nós” e ”eles”, a afirmação que eu devo tratar o meu conjunto de seres humanos de forma prioritária, o que é toda a base de qualquer pensamento nacionalista mais particular. Então, por exemplo, com essa definição que dei, é nacionalismo impedir que um americano vote na eleição brasileira, assim como também o é tender a concordar com alguém apenas porque tal pessoa é seu amigo.

A oposição a isso seria o ”cosmopolitismo”, o qual prega justamente a destruição de conceito de ”nós” e ”eles”, avaliando o mundo como uma só nação e, pois, não diferenciando pessoas com conceitos como pátria, ou mesmo reconhecendo termos como ”interesses nacionais”. Afinal, dizem eles, qual o sentido de ter orgulho e lutar por algo que você não pode associar algum mérito? Os socialistas podem afirmar que lutaram pela construção da ideologia, bem como os liberais. Você pode dizer que tem orgulho das notas, as quais foram conquistadas com muito esforço. Mas… E o nacionalismo? Não foi nada mais que uma obra do acaso você ter nascido no Brasil e não em qualquer outro país, ou mesmo pertencer a esta ou aquela etnia, falar português e não aramaico, etc.

O cosmopolitismo é realmente bonito e seus argumentos que alfinetam a base lógica do nacionalismo são interessantes, mas ele falha em termos práticos. Isto, termos práticos! Não é errado falar que é nonsense ter orgulho da nação ou mesmo que tudo com ela relacionado é acaso. Está muito correto, em fato. O nacionalismo apenas diz que o mundo efetivo em que estamos é mais bem gerido quando se coloca na balança os fatores nacionais. Como assim? Vamos lá.

O primeiro argumento que apresento versa sobre a ”ética minimalista”. Ser uma pessoa boa é algo um pouco complicado. Tipo, boa mesmo. Se você for analisar a situação do mundo, verá que há muitas coisas ruins: fome, miséria, opressão de todos os tipos, homicídios, etc. Para englobar tudo isso e ter algum efeito significativo, necessário seria que você empregasse muito tempo e, pois, abdicasse de muitos dos seus objetivos – quiçá, todos. É, eu sei que isso é demais. Algumas pessoas, sumidades morais, podem escolher fazer, mas parece um pouco demais impor isso em todos. Não é sua obrigação ser a Madre Teresa de Calcutá.

Mas ser moral é algo necessário, não é? Com certeza! Se todo mundo se tornar amoral, a sociedade certamente entrará em colapso. Para salvaguardar tanto os interesses pessoais quanto a moralidade, a ética minimalista proprões que cada indivíduo deve focar e priorizar suas ações locais, fazendo o bem para aqueles que estamos em contato direto. Isto está intimamente relacionado com a filosofia nacionalista: se preocupar mais com aqueles que conhecemos, com nossos compatriotas. Ainda que eu possa ajudar pessoas distantes, a minha maior preocupação sempre é maior com os meus. Talvez seja mesquinho, mas é a melhor forma de guiar nossas ações.

E este é o segundo argumento: os meus. Ainda que não tenha sido uma escolha própria, fato é que compartilho com meus conterrâneos traços notáveis: a etnia, a história nacional, a linguagem, os costumes, etc. Ainda que tão diferentes, há certa homogeneidade entre nós. E por que isso é relevante? Por outro motivo simples: confiança. Faz-se necessário, em nossa vida, muitas vezes, depender de outrem. Esta situação se torna muito menos complicada se há certo conhecimento sobre a pessoa, uma forma de criar um laço com ela e inspirar cooperação, esta que é base da convivência sólida.

Talvez você ache tais dissertações demasiadamente distantes e teóricas, então me permita alguns outros exemplos: se você já saiu do Brasil, entende a felicidade de ouvir alguém falando Português ou, mesmo que esteja rodeado da culinária francesa, de sentir o cheiro de arroz com feijão; paradoxalmente, o país se torna mais presente quanto estamos longe dele. Também sei que entende como sempre priorizar sua família quando há algum perigo iminente, afinal, ela é o que há de mais próximo e simétrico contigo; o nacionalismo é apenas o amor à família generalizado.

Exposto esses dois pontos, faz-se necessário frisar a limitação deles: o justificável é apenas um ‘’nacionalismo brando’’, aquele que, frente à necessidade da escolha, opta por auxiliar e cooperar com os da própria nacionalidade. Tal forma de ideologia contrasta com ideias ultranacionalistas, cuja retórica culmina no etnocentrismo imperialista, na total indiferença com os seres humanos de outros países ou mesmo no ódio contra o estrangeiro, como na conhecida xenofobia europeia e o colonialismo do século XIX.  Eleva-se como verdade, não obstante, que em um número considerável de vezes não é mutuamente excludente ajudar ‘’nós’’ e também auxiliar ‘’eles’’. Neste caso, é injustificável prover apenas a própria nação: é um dever moral promover o bem-estar geral. Em exemplo, é certamente condenável, caso a própria população já esteja abastecida, um governante não ajudar a expurgar a miséria de outras nações.

Com esses pormenores elucidados, creio ser sólido avaliar, em última análise, a ideologia nacionalista como válida e necessária para uma melhor convivência entre os indivíduos. Que com ele como guia possamos construir ativamente um país melhor e justificar todas as belas frases do hino. Sus, brasileiros!

 

 

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