Às luzes distantes

Tenho o costume de usar o transporte coletivo para transitar. Mais do que mera opção, ter contato com diversas pessoas, mesmo que restringido ao olhar, rende sempre boas reflexōes.

Parado no ponto, naquele mesmo ponto de costume, agora o céu já escurecido pelas noites de inverno precoces, eis que vem mais a condução daquele dia. As portas abrem. Entro junto com outros três. A máquina recomeça sua cavalgada fulminante, sem tempo a perder. Uma rua, uma avenida. Agora é a vez do viaduto. As luzes amareladas penetram pelos vidros dianteiros, fortes o bastante para se sobreporem à iluminação do próprio ônibus. O motorista estressado vira um homem. As figuras femininas nos bancos da frente, de repente, ganham tom primitivo. Os rostos tornam-se resolutos e transparecem a pureza do ser. Seria mesmo uma lâmpada o motivo de tudo aquilo?

Passados aqueles segundos de completa transformação, voltamos ao progresso. Voltamos ao mundo repleto de tarefas e deveres (sempre essenciais!), que depois nem lembramos a razāo. Voltamos para a vida eficiente e cercada de instrumentos para otimizar rendimento. “Rendimento”. A palavra invasora das nossas consciências. Cada ação deve preencher, sem excessos, sua demanda. Em que lugar da história aqueles seres iluminados ficaram? Quanto espaço essas pessoas do passado (ou do futuro) deixariam que preocupações tomassem de sua atenção ou energia?

Viver, e apenas viver, às vezes, parece difícil. Não sei se mudamos algo, de fato, da essência que nos faz homem, mesmo com o advento das transformações dos modos de produçāo e pensamento. “Motivar-se e realizar-se como pessoa requer objetivos bem traçados”, ou não. Prefiro lembrar que apenas sou uma pessoa com sonhos, sejam grandes ou pequenos, individuais ou coletivos, definidos ou ainda escondidos. Basta dessa síndrome de megalomania. Liberte-se do toque da boiada. Afinal, qual será o ritmo da trilha sonora da sua vida?

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