O super-homem na Marvel

Hoje farei algo estritamente proibido pela Convenção Universal de Bloggers Intelectuais. Ainda bem que este blog tem um pensamento progressista e inovador, ou eu estaria em maus lençóis. Farei uma análise de filme.

“Mas intelectuais discutem sobre filmes, não?” Discutem, sobre produções independentes, de cunho político e social, geralmente opondo-se a uma ditadura norte americana, não a propagando. São filmes gravados no porão das casas das mães dos diretores, com orçamentos baixíssimos, nunca produções multimilionárias hollywoodianas. Monologarei sobre Vingadores: Era de Ultron.

***ALERTA DE SPOILERS! PROSSIGA POR SUA CONTA E RISCO!***

Não, eu não estou aqui para discutir sobre a ação medíocre, baseada em no típico “socos, tiros, explosões, uau!”, nem sobre o romance leite aguado, nem as ingênuas e repetitivas tentativas humorísticas (<– assonância ilustrativa). Explicarei alguns temas subjacentes do filme, como psicanálise e filosofia.

A participação de ideologias Freudianas é demonstrada no enredo de maneira extremamente sutil, mas antes de discursar tão eloquentemente sobre as mesmas, introduzirei os conceitos básicos: A psicanálise conta com a bipartição psíquica em id, segmento repleto de instintos e vazio de valores morais e éticos, e seu inverso, o superego; juntos, eles orientam e definem as ações do ser (ego). Este tema é, geralmente, bem superficialmente adotado pelas produções da Marvel como cerne do dilema das personagens Hulk e Bruce Banner (No estilo Dr. Jekyll e Mr. Hyde). Neste filme, no entanto, também se aborda o assunto através das recém-introduzidas personagens Ultron e Visão. A existência dinâmica das mesmas ao longo do longa é justamente o que trabalha tão habilmente os conceitos. Hulk desenvolve-se intelectual e socialmente, humaniza-se, conforme é exercitado; ao passo que Banner torna-se irascível e antissocial. Ultron, nascido de medo, orgulho, ódio, em uma palavra, mortido, também se desenvolve, mas no sentido oposto, até alcançar o auge de seu terror; posteriormente degradando-se com o advento de Visão, personagem racional, afetuosa, moral.

Nietzsche também contribui para o conjunto. Seus conceitos de “Übermensch” (Além-Homem, Super-Homem, Homem do Amanhã, tanto faz) e seu contraposto, o “último homem”, estão expressos, novamente, na relação entre Visão e Ultron. Este se utiliza do método “Gott ist tott” (Deus Morto), para evoluir de sua condição de último homem e alcançar o estado de Além-Homem. A Morte de Deus não é simplesmente um ateísmo radical, é uma filosofia para a aquisição da Verdade. Ultron a emprega o método de uma maneira semelhante à que pode ser observada no filme Clube da Luta, em que o protagonista tem que eliminar seu pai, seu professor e seu deus. No caso de Vingadores, estas ideias estão representadas, respectivamente, nas imagens de Tony Stark, criador de Ultron e principal fonte dos traços psicológicos desta inteligência artificial, os corpos obsoletos de Ultron, que o aproximam da perfeição e são posteriormente descartados e destruídos, e o “nosso belo planetinha azul”, que deveria ser protegido, de acordo com as diretrizes primárias de Ultron, mas que, em sua interpretação das mesmas, deve ser destruído.

Os debates sobre Vida e Inteligência Artificial marcam presença na trama, mas não de maneira tão ululante e clichê como estamos acostumados. A A.I. de Ultron, bem como a dos androides de Blade Runner, possui traços caracteristicamente humanos, como instabilidade, irritabilidade, humor, ódio e a habitual capacidade de questionamento levada a um novo patamar, o auto questionamento. Tal semelhança com um humano, em diversos trechos do filme, borra a linha demarcatória da distinção entre máquinas e homens, a personalidade. Esta mistura entre “orgânico” e “mecânico”, geralmente nomeada “sintético”, é um grande exemplo do termo “Clockwork Orange” (Laranja Mecânica), mas no contrassenso deste, sendo orgânico no interior e mecânico no exterior.

Há muitos temas mais, como etnocentrismo e re-humanização, porém o texto já está deveras longo, e o leitor tem mais o que fazer da vida. Gostaria, no entanto, de encerrar com uma nota de rodapé: embora a franquia Vingadores esteja longe da minha estante de filmes prediletos, mas o preconceito contra a fonte de um argumento pode ter desfecho destrutivo, ou ao menos estagnador, em relação ao emissor do ódio. Esse cenário de repúdio ao desconhecido, digo até, ignofobia, é também um obstáculo ao desenvolvimento tecnológico humano. Talvez as elites devessem descender de seus ebúrneos pedestais e procurar alguma aplicação social e politicamente prática para seu tesouro moral, filosófico e cognitivo.

Este texto tem por objetivo demonstrar a onipresença da ética, sua universalidade, em detrimento do pensamento de ética unicamente como um debate sobre temas profundos, como a definição de justiça, de amor, liberdade, entre outros. Lembrando que não necessariamente o emissor de uma mensagem planeja transmitir em seu texto tudo aquilo que transmite, portanto é possível que os próprios idealizadores do filme não tenham tido a intenção de trabalhar os temas apontados.

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