Saturno Devora Seus Filhos

Saturno teve quatro filhos com Réia. Quando suas crias nasciam, o deus as engolia, sentenciando-as a viverem para sempre em seu estômago. A primeira que nascera foi Juno, e Saturno a engoliu sem ao menos ter limpado seu corpo, banhado pela placenta de Réia. A deusa deu à luz a Netuno, que logo fora devorado por seu pai. Em seguida veio Plutão, que também não tardou em conhecer as entranhas do deus.

Réia, a cada gestação, tentava aos poucos fazer com que Saturno mudasse de ideia, que libertasse os filhos. Ela havia deixado de lado seus estudos sobre os homens ao engravidar, por força do marido, e quando Saturno acreditava que ela estava reclamando demais, ameaçava a abandonar, dizia que ela não era nada sem ele, que era ingrata. Saturno era intransigente, e não dava ouvidos à sua mulher. Réia pensava em abandonar o deus do tempo, mas a ideia de deixar seus filhos para trás, trancafiados na barriga de Saturno, a impedia de tomar alguma atitude. Seu sogro, Urano, fora no passado tão intransigente quanto seu marido hoje é. Sua sogra, Gaia, mesmo que tardiamente, apoiou Saturno em sua rebelião contra o pai, ainda jovem.

Começaram os enjoos divinos, que são ainda piores que os de mortais. Ela levava em seu ventre mais um bebê, e a felicidade que a contagiava ao sentir os pés de seu filho chutando sua barriga logo eram substituídas por tristeza, imaginando que ele passaria a vida toda chutando outra barriga, a de Saturno.

Réia não suportava a ideia de ver mais um filho sendo engolido pelo deus do tempo, desejava que ele tivesse oportunidades na vida, que fosse livre, mas sabia que, naquela condição, o mais provável era ele acabar preso, como os outros. Ela ouvira falar de ninfas que poderiam acabar com sua gravidez, mas essa ideia, para Réia, era distante. Ela não conseguiria descer do Olimpo para procurar essas curandeiras clandestinas, e fora criada acreditando que seria uma assassina se isso fizesse. Então ela planejava fazer outra coisa.

Sem desconfiar que sua mulher tramava algo, Saturno continuava com o estômago cheio. Ele decidiu pintar o “quarto” das crianças, então engoliu dois frascos de tintas estelares. Uma era rosa, cintilante, como se tivesse sido extraído das próprias nebulosas, e bem, foi. E a outra, da cor azul que cobria os céus do Olimpo no verão. Engoliu as tintas, mas deixou bem claro aos filhos: Seria o quarto de Juno, e só de Juno, onde as paredes de seu estomago eram rosas, afinal, ela era uma menina, e seus filhos ficariam com as paredes azuis.

Saturno disse as crianças que havia lhes trazido presentes. Os desembrulhou e os almoçou. Primeiro, o de Netuno, uma armadura. Logo veio o de Plutão, uma espada cravada em gravuras douradas. E para Juno, um kit completo pia, louça e forno. Mesmo relutante, ela resolveu brincar com seu presente, afinal ela estava cansada de sua boneca-bebê, a qual havia ganhado um ano antes.

Estourou a bolsa de Réia. Ela havia previsto o dia em que isso iria acontecer, então despistou Saturno com a desculpa que sairia com sua sogra. Não era mentira, ela e Gaia foram para uma caverna distante dos olhos de deus, para o parto da criança. Nasceu Júpiter, e pela primeira vez Réia pode segurar um filho seu no colo, amamentar, sem que Saturno o devorasse instantaneamente. Réia entregou o filho à Gaia, que prometeu cuidar dele e mantê-lo longe dos olhos de seu pai.

Quando voltou para casa, Réia entregou uma pedra enrolada num pequeno cobertor, e Saturno logo a engoliu, sem perceber que não se tratava de mais um de seus filhos. E Júpiter foi cuidado pela avó, num monte no Olimpo, afastado do olhar de deus. Ele crescia livre, mas continuava preso, não a um estômago, como seus irmãos, mas sim ao abandono de seu pai, que se soubesse que o que havia engolido era na verdade uma pedra, e não Júpiter, iria mastiga-lo junto à mãe.

Juno já era adolescente, segundo a idade dos deuses, e seu pai engoliu um batom, dizendo que ela deveria aprender a ser bonita, se um dia quisesse que um homem a desejasse. Mas o batom caiu do lado azul do estômago divino, e Netuno o encontrou. Ele o passou em seus lábios, e o pouco de seu reflexo que conseguia enxergar nos viscosos líquidos na parede digestória de seu pai, achava bonito. Mas Plutão o dedurou ao pai, acreditando que assim seria o filho favorito. Saturno então contraiu seu corpo por dentro e Netuno foi sugado pelo intestino delgado, e passou horas lá, como castigo.

Júpiter não podia ser Júpiter, seu pai não poderia descobri-lo. Mas ele poderia ser quem quisesse. Ele descia escondido os montes do Olimpo e passeava pelos campos da terra. Observou os camponeses até aprender a plantar e colher seus próprios frutos, conheceu de perto a fome e a miséria, jamais vistos na rica cidade onde nascera. Se aventurou por corpos femininos e masculinos, dançou e deitou com eles na terra, amou e foi amado, sofreu e causou sofrimento. Ele enxergava coisas que foram escondidas de seus irmãos pelo próprio pai. Ele conhecia um mundo fora do estômago, que era prisão aos seus olhos e aos olhos de Réia, mas que era seguro e calmo aos olhos de Juno, Netuno e Plutão.

Afinal, como eles poderiam almejar algo a mais, se o máximo que conheciam do mundo exterior eram vislumbres das luzes que atingiam o começo da garganta de Saturno? Então Júpiter decidiu se arriscar: Toda noite quando Saturno adormecia, ele chegava perto da barriga do pai, e contava para seus irmãos como realmente era o mundo. Ele contou sobre as frutas e quantos variados sabores existiam, falou sobre a luz do sol e o jeito com que ela aquecia seu corpo, disse até que há dias em que o céu chora lágrimas suficientes para inundar a terra e a transformar em barro. Seus irmãos ficaram relutantes no começo, eles nem mesmo sabiam se ele era de fato filho de Réia. Mas enxergar o mundo pelos olhos de Júpiter fez crescer curiosidade ao longo das noites em que foram visitados pelo irmão.

Eles prometerem manter em segredo a existência e as visitas de Júpiter, que eram cada vez mais frequentes. Num desses dias, Juno pediu para que o irmão descrevesse como era o lugar em que ele estava: “As colunas sobem tão alto que o teto daqui poderia facilmente ser as nuvens, o chão é feito duma pedra cinza esfumaçada, não existem paredes entre as colunas, então é possível ver daqui mesmo a lua se erguendo por entre as montanhas, o céu pintando com luz fraca todas as bordas, e o mundo dos homens, suas casas, seus barcos, se transformarem em sombra. E na coluna, bem aqui na frente, tem um retrato da nossa mãe, ela tem os olhos tão bonitos, verdes feito grama”

Juno e Netuno desejavam conhecer o mundo, sentir todo esse sol, molhar em toda essa chuva, mas Plutão era relutante a ideia, ele não conseguia acreditar que o pai os havia privado de tudo isso. Eles então precisavam de uma prova para acreditar no mundo de Júpiter. Saturno estava sentado, e então Juno perguntou: “Pai, de que cor são seus olhos? “, e ele respondeu castanhos. Ela então o perguntou sobre os olhos de Réia, e Saturno indagou: “Por que quer saber disso? “. Juno respondeu: “Eu só queria saber qual dos dois eu puxei”. Saturno disse que os olhos de sua mulher são verdes. Verdes, como disse Júpiter.

Os três então pegaram a pedra que fora engolida há muito tempo por Saturno, a pedra que quase foi Júpiter, e rasgaram as entranhas do pai de dentro para fora. O sangue jorrou feito cachoeira, e eles foram levados pela correnteza. Entram no mundo novamente banhados de sangue, como ao nascer, e questionam Saturno sobre o porquê de tê-los trancafiado, ao qual ele responde: “Eu só queria proteger vocês”.

Plutão decide voltar para dentro das entranhas de seu pai, que mesmo ferido, é imortal. Juno e Netuno abraçam Réia, e Júpiter assiste tudo enquanto se aproxima. Ele se ajoelha próximo ao pai, caído, que de uma forma repentina entende quem é Júpiter, que lhe diz: ”Sempre serei teu filho, mas jamais tua cria”.

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