A morte de Bach

Não sei o que escrever, olho para os lados e vejo no banco do trem um homem, de óculos em forma de bicicleta que pedala a visão pelo vagão, ele para e encara meu livro, “É BACH!” ele exclama, “É BACH, É BACH, BACH!” e era realmente, a figura conseguiu minha atenção. Bach desce na estação Santa Cruz, sigo seus passos, e apressado como quem tem roda nos pés, acende um cigarro e entra em uma ruela. Na parede seguindo à esquerda Bach pensa o quanto hoje é um dia bom para se estar vivo, e entra no seu boteco favorito, nunca entendi o fascínio por botecos, eu queria entender Bach, então ele se senta e pede duas, três, quatro doses, 2 3 4 doses, 234 doses. Seus pés enormemente cômicos chutam o balcão pedindo mais, mais cinco, seis, sete doses, 5 6 7 doses, 567 doses. Sua cabeça minúscula o deixa tonto, e Bach cai de bunda no chão, mas para ele aquele não é o chão do boteco, para ele, aquele é a grama de sua infância, e totalmente envolto em seu delírio, rola e lembra de tudo sobre sua paz descontrolada, o balconista pega Bach e o joga na rua.

Desolado, Bach anda ziguezagueando pelas pessoas, e para em uma loja de vinil, entra e escuta coisas que fazem seus ouvidos chorarem, lembra daquele som punk juvenil e logo inunda a loja. O recinto distorce se, o balconista é barbudo,a mulher ao lado gosta de boca de sino, e a erva é negócio, a erva é negócio, a erva é nEgÓCio, Bach dança ao som, derrete lentamente em direção ao chão, e renasce voando pelo salão, e no momento do orgasmo astral, o balconista segura Bach, e o joga na rua.

Indignado e menos ziguezagueante, Bach andava pela cidade noturna quando uma bela moça passa ao seu lado, sente que seu coração acelera e seu membro se expressa, mas ela nem o olha, o que quebra o em sete pedaços capitais. Em cada pedaço afoga se na rejeição, a cada pedaço se chega a quase quebra completa, quando então aquela, aquela aparece, seus olhos doces e gentis, a mão suave como tem que ser passa lhe no corpo robusto, na voz a excitação, Bach, está apaixonado, mas Bach não consegue dizer! Ele não sabe dizer, e a moça, afetada ao saber, bate lhe no ombro e diz “não da mais, a gente se vê”, se distancia da calçada, e ele, corre e a agarra, joga a no beco, e a estupra. Quando olha se depara com uma menina, perto da puberdade, não é sua amada, e o choque é tamanho que dessa vez, é Bach quem se joga na rua, um carro o atropela, e Bach morre.

Seguro seu corpo contra o meu, “Bach! Bach! Bach!”. Está morto, eu matei Bach, você matou Bach, todos os dias matamos Bach.

Acordo no vagão do trem, ouso a próxima parada, “Estação Santa Cruz”, me levanto e pedalo meus olhos pelo vagão, saio com meus pés enormes para a minha aula de piano pensando “finalmente entendi Bach”.

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