Muros da mente

“E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão”
(Daniel na Cova dos Leōes, Legião Urbana)

A cada esquina, um perigo. Ouvimos desde pequenos: “não saia de casa à noite”, “evite andar sozinha(o)”. Conversava com meu pai sobre um programa cultural que ele fez no Parque do Ibirapuera durante semana. Ficou surpreso com o número de pessoas que frequentavam a área verde paulistana em plenas nove horas da noite… patinando na marquise, correndo, enfim. E eu ouvindo tudo aquilo e contrapondo à educação que recebi dele para nunca dar chance para o azar, afinal, noites são sempre perigosas. Cresci. Pisquei os olhos de um jovem. Bebi da sanidade. Perguntei a mim mesmo como a criança inocente e pura, que não consegue entender a razão das coisas…

De onde veio esse estigma? Por que nos enclausuramos em nossas casas com receio do perigo? Cheguei ao ponto de pensar que esse temor seria análogo aquele de falar em público, de assumir-se diferente, essas arestas falhas que cada um de nós cultiva e carrega por anos. Não. Nada disso. Certamente, seria um medo de outra estirpe, patológica, pior do que as fobias que secam as gargantas. Chamem um psiquiatra! Acho que a sociedade está sofrendo de transtornos…

Escrevo agora do meu quarto, que, antes, poderia ser a sala mais alta da torre mais alta de um castelo de fincado em temor e de incertezas… Antes muralhas, hoje muros; antes guardas, hoje câmeras de “segurança” de uma herança feudal marcante. Para que arder no inferno, se posso morrer na esquina de casa caso saia no horário do crime que vejo todas as noites nos noticiários? Não sei o que é isso que chamo de liberdade…

Doutor, quando é a próxima sessão?

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