CECI N’EST PAS UN BOUT DE SEIN

Ombro, braço, mão. Virilha, perna, pé. Pescoço, cabeça, nariz. Tronco, seio, mamilo. Se não foi possível compreender a mensagem ainda, tente apontar o objeto estranho ao conjunto a seguir: orelha, dedos, pênis, cérebro, clitóris, pé, mamilo, tesoura, vagina, saco escrotal. (Resposta: tesoura).

Afinal, porque o mamilo parece tão deslocado em uma sociedade que o adora? A linha entre culto e controle não é muito bem definida. Adoramos o mamilo como um marido abusivo venera sua vítima. Temos fotos e estátuas de mamilos em nossa sala de estar, temos livros sobre mamilos, temos porões com todo tipo de taras secretas sobre mamilos. Quando as visitas se vão, espancamos, torturamos, agredimos, degradamos, coagimos os mamilos a uma condição de subsistência.

mamilo(…) mamilo (…) mamilo (.) Mamilo (.) Mamilo(.) MAMILO (.) MAMILO (!). Eu poderia mencionar o mamilo em uma frase tantas vezes quanto possível e ainda não seria suficiente para competir com a censura. Parem de negar existência ao mamilo, ele é um cidadão, como qualquer outro, e tem o direito de expressão.

Como um homem, não valorizo da maneira devida esse direito, atualmente exclusivo, que temos, o direito de circulação sem impreterível presença de peças que cubram o mamilo. Uma vez pensei ter a solução para esta reivindicação feminista: distribuir panfletos anunciando “Doa-se direito de topless, seminovo, tratar com o dono.” No entanto, analisar a situação, não com a habitual visão de imposição de uma norma de vestimenta, sim, como um veto à própria existência de uma parte do corpo adiciona certa massa ao problema. A nova questão seria “o que é machismo?” Quando o ciúme transforma adoração em dominação, amor em ódio? E, veja só, essa questão é tudo, exceto nova.

Consideramos que nós, ocidentais, somos mais evoluídos do que os países do Oriente Médio. Consideramos-lhes brutos, e sexistas, e maus, e feios. Inventamos o “aqui”, onde a igualdade de gênero é plena, e o “lá”, onde mulheres são vistas como submissas, inferiores, pertencentes, ao homem. Qual a diferença entre cobrirem seus corpos quase inteiramente e escondermos seus mamilos? Não estamos todos tentando comandar suas ações e mentes, suas emoções e seus pensamentos, seus gostos, todo movimento? Até que um ser seja completamente independente, faz diferença que lhe concedam praticamente todas as liberdades? É possível ser plenamente livre em uma gaiola? Até que elas possam andar nuas na rua, sem medo, faz alguma diferença que possam usar bermudas curtas? E digo mais: buceta!

Dizem, os moralistas, que é errado expor o mamilo feminino. Dizem que, assim como o ânus (cientificamente denominado “cu”) e a vagina, os mamilos femininos são parte da vergonha das mulheres… da vergonha, da VERGONHA?! Ora, se eu fosse uma mulher e tivesse seios, sem dúvida não me envergonharia deles. Cínico! hedonista! libertino! é o que eles dizem, malditos falsos moralistas, sei que sim. E eu respondo suas não perguntas com: cético, epicurista, libertário, sou, sim. Mas se vivesse como um cão e quisesse todos os prazeres, bem também.

Pseudo-protetores dos frascos e comprimidos, como sois benfeitores da reles classe ornamental feminina; um gênero vazio de convicções e potenciais, carente de expressão própria e defensores intelectuais; resignaram-se com o que vos foi pedido, ou concederam o que vos foi tomado?

Se podem, os mamilos, usar calças e biquínis, seria isto uma liberdade ou uma prisão? Um direito de escolha ou um compromisso de exibicionismo? Reconhece-se uma conquista ou se considera uma autorização?

Finalmente o direito é adquirido, iremos utilizá-lo? Não. Apenas o queremos como queremos poder respirar, poder correr, poder falar e falar quanto quisermos, simplesmente por falar. Porque há uma moral vigente anterior à conquista, anterior a nós. Porém, caso necessitemos, lá está nosso direito. A suposta diferença aparente entre respirar e tirar a camisa é que aquela é uma necessidade fisiológica, mas não sabíamos disso até que alguém morreu asfixiado.

Pelo que lutamos, aceitação ou reconhecimento do mamilo? Como é o machismo e quem pode dizê-lo? Há realmente alguma validade na lógica difusa que não sirva a fins estritamente filosóficos? Quais conquistas foram permitidas e quais permissões foram conquistadas? Como iremos utilizar um poder como esse?

Texto inspirado na campanha Free The Nipple.

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