Não existe título bom ou ruim

Tem uns autores no Maturitatis que creio escreverem bem. Mas é só o que eu acho. Pode ter pessoas que possuem uma visão diferente. Afinal, tudo é muito subjetivo, né? Não, não é. E eu acho que esse pensamento é a praga do século XXI.

”Esse pensamento” seria o relativismo. Ele impregnou TODOS os campos intelectuais, desde a arte até a moral, passando pelas habilidades individuais e, como um câncer, minou grande parte das discussões, transformando-as em campos estéreis.

A premissa principal do relativismo é que todo e qualquer julgamento depende do indivíduo que o faz e, pois, não tem valor objetivo. Então, em exemplo, não se pode fazer um juízo moral sobre uma sociedade africana que pratica o canibalismo, pois é o sistema moral deles, afinal. Também não se pode dizer que certa arte é ”melhor” ou ”pior” que outra, porque tudo depende dos olhos de quem vê.

O grau falacioso disso é gritante: pluralidade de visões sobre um objeto não acarreta em relativismo. É simples: o fato de haver muitas opiniões sobre a mesma coisa não leva a conclusão necessária de que todas elas estão corretas; em fato, uma pode estar certa e todas as outras erradas. Se você perguntasse para Aristóteles, ele te afirmaria que o Sol gira em torno da Terra, enquanto hoje consideramos justamente o contrário. Os dois estão certos? É claro que não.
Eu imagino o seu pensamento agora: ”Mas o seu exemplo é inadequado! Questões como moral, arte e felicidade não são como o sol! No caso dele, há uma forma objetiva de determinar o que é correto ou não, algo que não ocorre com os outros três”. E isto é mais uma falácia: quem disse que não há forma objetiva de determinar tais questões?

Atente-se que um julgamento moral, estético ou sobre felicidade não é necessariamente a expressão de uma crença (”Ah, eu acho que…”), mas sim pode estar embasado em argumentos. E estes, por sua vez, tem em sua essência a lógica. A LÓGICA, MEU DEUS! Comum a todos os seres humanos! Objetiva e inquestionável!
Sabendo disso, podemos julgar argumentos como bons ou ruins, a partir das leis lógicas intuitivas e convencionadas. E foi justamente isso que os filósofos, ao longo de mais dois mil anos, realizaram. Enquanto eles se debruçaram sobre debates e estudos, nós, de forma cômoda, simplesmente falamos ”depende de cada um”.

Em questões morais, por exemplo, temos o utilitarismo de Jeremy Bentham e John Stuart Mill, o qual afirma que uma ação moral é aquela que causa consequências positivas; também há o deontologismo kantiano, que foca mais na intenção da pessoa. Para decidir qual é o correto, não se abdica da reflexão, mas sim a fazemos de forma mais intensa, analisando as premissas e a conclusão de cada sistema. Fazer o contrário é um retrocesso.

Aliás, a falta de embasamento de tal ideia é tão forte que constantemente se ouve contradições nos discursos daqueles que a defendem: ”A moral é relativa de sociedade para sociedade, então não devemos impor nossos sistemas nelas.” Ah, sim! Impor nossos sistemas seria… Errado, né? Ah, mas NA MINHA SOCIEDADE é considerado correto colonizar as outras, ué. Quem é VOCÊ para dizer que eu não posso fazer isso? Logo se nota as incoerências.
Também há as idiossincrasias ridículas de um mundo tomado pelo relativismo são evidentes: a crítica da arte se tornou inócua [1], somos convalescentes com claros absurdos morais [2] e a completa leviandade dos debates sobre felicidade, beleza, amor expressa nos milhões de livros de auto-ajuda expressadores de clichês.

Essas questões certamente são complexas e, quiçá, não há uma resposta 100% correta, ao contrário de equações matemáticas ou fatos empíricos, mas, no entanto, a importância delas exige a tentativa de respondê-las com certo grau de precisão e com objetividade, com base na lógica e com bons argumentos. E seguindo este norte que as ciências humanas provam o seu valor, deixando de ser uma ”ovelha negra” frente os feitos práticos das ciências exatas.

Se você achou meu texto ruim, lembre-se que ”bom” e ”ruim” são apenas conceitos contemporâneos criados pelo capitalismo líquido pós-moderno e sua necessidade de rotular a produção intelectual alheia conforme os interesses obscuros e inescrupulosos dos empresários e seus desejos inelutáveis por lucro. Não seja etnocêntrico, por favor!

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