O Maior Fracasso Da Minha Vida (E porque foi bom)

Mais ou menos na metade de 2014, eu mudei de colégio. Saí de uma das piores escolas particulares (tão ruim que era comumente avaliada como ”uma pública com mensalidade”) e, realizando uma inversão em minha vida acadêmica, fui estudar em uma das melhores de toda a cidade.

Lá, tive contato com uma série de elementos distintos: acostumado a ser o melhor aluno disparado, tive que me confrontar com outros tão bons ou melhores que eu; confortável com a posição de querido do professor, fui obrigado a enfrentar o anonimato; acomodado com minhas conquistas, disseram-me que havia muitos outros horizontes em que mal sonhava chegar.

Horizontes. Foi isso que pensei quando ouvi sobre Olimpíadas científicas. Eram formas de ir além daquele superficial e parco que era estudado em sala de aula: permitiam-nos realmente entender a ciência e suas aplicações. Naturalmente, a maioria delas era terrivelmente difícil, em comparação com o material do ensino médio.
Embora não ruim, eu não sou exepcional em matérias exatas, de modo que a Olimpíada de Matemática ou Física demandariam tempo absurdo de preparo (alguns medalhistas da OBM estudaram por 6 anos!), a qual eu não estava determinado a investir sem um vislumbre de resultado.

Acabei por optar por Biologia, porquanto já tinha certo conhecimento da matéria e é um assunto que sempre me interessei. Peguei a prova da segunda fase para ver o que me aguardava e tomei um susto: eu nunca tinha OUVIDO FALAR de mais da metade dos termos que usavam ali! Não, sério: eu não errava as questões por erros de atenção, interpretação ou mesmo matemática, mas porque eu NÃO SABIA DO QUE ELES FALAVAM. Serious shit.
A prova possuía 120 questões e eu acertei, da primeira vez que fiz em casa para treinar, umas, sei lá, 40. Fiquei alarmado: como diabos eles podem cobrar isso do Ensino Médio? Eu poderia estudar mil anos e nunca iria entender. Tinha  certeza que ninguém conseguiria ir bem naquela coisa.

Opa, mais um erro meu, afinal: quando fui ver a classificação daquele ano, haviam pessoas que tinham acertado 112 de 120! WTF, que demônios! Neste momento, senti pela primeira vez na minha vida uma real sensação de ser sobreposto. Você sabe, não? Ficar na sombra das conquistas alheias, pensar que todo o seu potencial não é nada perto do que eles, seus adversários, podem fazer. É ver um abismo inexpugnável separando a sua mediocridade da grandeza deles. Coisa ruim, bem ruim!

Aproveitando a letargia comum àqueles que começam a viver na sombra, fui me deitar. Procurei, ali, enquanto procrastinava, algumas justificativas para abandonar aquele projeto: você vai precisar estudar muito, as provas da escola vão ficar de lado, vai demorar muito tempo para ter progresso, etc. No meio do processo, refleti de outras epopeias que eu já havia abandonado e notei um denominador comum: eu adorava, sobre elas, destilar os ”e se…” e me projetar como grandioso.

Em exemplo, eu jogava futebol muito bem e, um dia, um olheiro da Portuguesa me chamou para fazer uma peneira.Acabei, por algum motivo aleatório, não indo. Desde então, sempre gosto de comentar com quem fala sobre o tema que ”se eu tivesse ido, com certeza hoje estaria jogando em algum grande clube”. Algo que, claro, é completamente inútil: realmente não dá para saber o que aconteceria se eu tivesse aceitado, estando as possibilidades flutuando entre o sucesso e o fracasso total na peneira. Mas eu, para o bem do meu ego, sempre gosto de excluir as potências ruins. A perniciosidade disto é que eu me insiro, bem como a Alice, em um mundo de maravilhosas fantasias, as quais, embora bonitas e agradáveis, não se traduzem em nenhum resultado concreto. Vivia no país do pirulito. E gostaria de sair dele: aceitar o desafio da olimpíada e me colocar à prova seria a forma de eliminar qualquer ”e se…” maledeto!

Meu passaporte seriam os livros que a Olimpíada de Brasileira recomendava para o estudo. Eles eram grandes, grossos e, pior, bem caros. Consegui, em uma sorte danada, achar a maioria deles no sebo por preços bem camaradas. Acabei gastando algo em torno de 90 reais em três livros de biologia.

Cara, não era pouca coisa não: eu simplesmente não entendia nada do que alguns capítulos falavam – óperon lac? Oi?. Passava o marca-texto apenas para não perder o costume e dar a ilusão de alguma ação ativa. Meus professores de Biologia do colégio também não sabiam sobre o assunto, de modo que fui obrigado a procurar sobre em vídeos na internet e artigos (estes aí todos em inglês, já que a produção científica do Brasil é fraca). Fiquei uns 5 meses nessa rotina.

A prova era em Abril de 2015 e já era novembro. Resolvi fazer mais uma prova da segunda fase como teste: acertei 66. Mas eu não muito fiquei feliz: no ano passado, 2013, a nota de corte para medalha havia sido 90 questões de 120! Eu estava terrivelmente distante. Senti-me extremamente desmotivado: estudei forte por um tempo considerável e nem perto estou. Alguns grandes amigos meus e minha família me consolaram, mas não me passou em branco que, apesar das palavras de apoio e motivações, aquele era um problema que só poderia ser resolvido POR MIM. Sim! Foi naquele momento que eu tive a real dimensão do que é responsabilidade por si próprio: existem mazelas que afetam SÓ VOCÊ e SÓ VOCÊ pode retirá-las do caminho. Terceirizar suas obrigações para com si próprio, culpando ele, ela ou as circunstâncias, é extremamente estéril e, muito provavelmente, acomodar-te-á.

Então, aplicando este aprendizado, voltei a estudar, dessa vez focando nos vídeos e resumos. As linhas estavam ficando bem mais claras e eu conseguia fazer associações entre uma matéria e outra. Quanto mais eu aprendia sobre qualquer assunto de biologia, mais os os outros ficavam inteligíveis. Nada é uma ilha: há um grande sistema reticular entre as várias competências acadêmicas. Trabalhei duro durante as férias de verão, também, preenchendo dias que poderia sair e me exercitar com o estudo da zoologia dos rotíferos (!).

Eu passei facilmente na primeira fase da prova, que rolou, como dito, em Abril de 2015. Faltando uma semana para a segunda fase, intensifiquei meus estudos e fiz mais uma prova treino. Felicidade: 95/120! A nota de corte naquele ano havia sido 93, então, caso eu a tivesse feito, ganharia medalha! Foi uma felicidade sem igual ! Havia, para além do mundo do pirulito, chances reais!

Fui para a prova da segunda fase, no dia 17 de Maio, com sentimentos jano. Jano, manja? O Deus romano de duas faces. Sentia que o sucesso, que lutei durante um fucking ano, estava mais próximo, mas também o fracasso batia a porta. As batidas se intensificaram quando a prova foi entregue e reparei que estava muito mais difícil do que nos anos passados.

Não obstante, os meus olhares de ponto de interrogação se intercalaram com sorrisos grandes, dado que sabia, sem nem pensar muito, qual era a resposta de algumas questões. Saí de lá sem saber o que esperar. Não conseguia dormir direito nos dias anteriores ao resultado.

Dia 27 – os dez dias que mais duraram na minha vida -, a porta se abriu e vi entrar por ela o fracasso. Fracasso que entrou apenas por três questões do último medalhista: sendo que apenas os quinze primeiros ganham medalha, o décimo quinto ficou com 85 pontos, enquanto eu consegui 82. Três questões.

Foi o melhor resultado da história da minha escola e, até onde eu sei, de toda a cidade de Santo André: fiquei entre os trinta melhores entre sessenta mil concorrentes. Mas era inviável não pensar que, para além de tudo, era um fracasso objetivo: a medalha não veio. Não haverá meu nome no jornal, na frente da escola ou sendo comentado por todos. Muito menos eu vou poder ostentar a mais seletiva medalha olímpica do país no meu quarto.

Sim, eu, apesar de tudo aqui escrito, fracassei. Mas, se você quer saber, não me sinto tão mal. Ainda que haja um moscardo me incomodando, o meu ”maior fracasso de todos os tempos” não parece grande coisa, pois, para amenizá-lo, acompanhou-o uma gama absurda de aprendizados que, independente de qualquer medalha, são passíveis de serem aplicados em todas as áreas da minha vida. Não foi tempo perdido. Passar de 40 para 82 tem um simbolismo muito maior do que os números podem captar.

Contrariando o senso comum, sinto-me mais confiante em mim mesmo e na minha capacidade de superar adversidades, de me mudar, de me esforçar e de evoluir. Se você, leitor, está se esforçando duro para algo e possui medo de fracassar, relaxe. Quando este sofrimento chega, ele nunca é tão ruim. Consigo dormir, agora.

Que venha a próxima olimpíada!

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