O Bom Monarca

Esta noite tive um sonho esquisito. Sonhei que estava em um país mudado, diferente, e o sonho tinha ares de pesadelo. Minha respiração estava pesada, enquanto eu andava por vielas estreitas e sujas. Uma bandeira rasgada e desbotada exibia os dizeres “Ossergorp e Medro”, sugerindo, de uma certa forma, as palavras “golpe” e “medo”. Um habitante inculto e incauto esbarrou em mim, depois de escarrar no chão, e praguejou. Perguntei-lhe onde estava, e ele me respondeu que não tinha tempo para aquilo, que o time do coração ia jogar. Antenas de tevê amontoavam-se em cima dos casebres, os habitantes com olhos vidrados assistindo a suas transmissões. Uma trupe de vendedores ambulantes se aproximou e, gritando ferozmente o preço de seus vis produtos, atordoaram-me. Tive vontade de cuspir na cara deles, esses cães vagabundos. Tão breve tive este impeto, um fardado aproximou-se e lhes desceu o cassetete. Que barbárie! Tive desejo de pegar eu o cassetete e matá-lo, no mesmo instante. Dei mais alguns passos e, sentando-me na calçada, vomitei enojado. O pouco tempo que passara ali já me transmutara em cruel animal, como os que me cercavam. Era o efeito do amargo arsênico gasoso e inodoro que pairava no lugar mas que, diferentemente do arsênico propriamente dito, não matava instantaneamente, torturava. Avistei, ao fim da ruela, a casa mais humilde da região. Tinha nas telhas que revestiam seu telhado e em suas paredes rachadas as únicas sobreviventes de um imaginário furacão que por ali passara. Que coisa doida! Dentro do único cômodo estava um idoso, nu, sentado de cócoras e tamborilando os digitos nos dígitos de uma maquina de escrever verde musgo, como faria uma criança com síndrome de Down. A barba espessa, branca e suja fazia companhia aos traços finos e aos olhos azuis, indo terminar na proeminente barriga do velho. Ele levantou o olhar subitamente e me indicou uma cadeira de três pernas. Sentei-me e ele começou, com uma voz aguda como em falsete:

-Um país não se pode desenvolver com o domínio de uma oligarquia não aristocrática. Quem os botou lá?! Mecanismos fraudulentos de voto, alienação e coerção através da propaganda, manipulação de dados, neopopulismo, reacionarização gradativa, um absurdo! Um governo corrupto e impopular que se mantém à base de negociatas com políticos de interesses análogos e empresas monopolizadoras, um governo que renega a reforma agrária e tem como representantes os grandes nomes do agronegócio; Governo este que se diz agente de um Estado laico mas que sucumbe às pressões de uma classe religiosa também corrupta  e dominadora, a aliança perfeita! Com o poder tão dividido e a máquina estatal tão gorda e inchada, não me impressiona o déficit, nessa joça quem manda são sempre os grandes, enquanto os pequenos tem a ilusão do pequeno poder. – A saliva espirrava de sua boca abundantemente, enquanto ele alteava a voz – Uma burocracia tão bem articulada que não permite a criação para seus habitantes de condição de cidadão, apenas os torna cada vez mais atrelados à manutenção do poder vigente e à incorporação de valores abusivamente consumistas. Esta é uma ditadura real, mas maquiada e vestida como uma democracia. Há, por exemplo, liberdade de expressão irrestrita, MAS SÓ EM ALGUNS CASOS! Em outros, o preço para a livre oratória é a prisão. Este é o pior sistema político que existe.Isso para falar pouco!

O idoso parou, levantou-se e, usando um punhal, abriu seu ventre de cima a baixo. Um sangue negro jorrou e inundou o casebre. Levantei-me da cadeira e corri, assustado. Acordei suando em meu quarto, o desespero corroía meu coração enquanto eu lentamente percebia que a realidade era bem diferente de meu pesadelo.

Não, não tínhamos na realidade um modelo governamental autocrático disfarçado. Tínhamos um pai, em quem podíamos confiar e atribular responsabilidades. Embora esta figura paternal não tenha sido escolhida por votos, ela encarnava tudo que há de mais virtuoso em nossa sociedade, um símbolo do comportamento correto a se adotar. Melhor do que isso, sabíamos a quem culpar pelas eventuais falhas do governo, e ele tomava a responsabilidade para si, corajosamente. Gastamos muito menos em propaganda política, cabendo-nos só a escolha de nossos representantes legislativos. A liberdade de expressão é amplamente difundida e, nessa virtuosa monarquia, nosso imperador permite até que o critiquemos! Nossa identidade nacional é fortalecida, assim como a politização, e a cultura e a educação são tidas como as principais preocupações do Estado. As ruas são arborizadas e largas, e a distribuição de renda se dá forma eficiente, nos moldes da social-democracia. Nosso bipartidarismo é eficaz e evita a corrupção de nossos representantes legislativos, cabendo ao partido que não foi escolhido a vigilância em relação a suspeitas de corrupção do partido que foi. O próprio rei, imparcialmente, cassa mandatos e afasta corruptos, mantendo sempre um compromisso com os interesses da nação. A fome e a miséria foram erradicadas, com iniciativas sociais que visam ao longo prazo; A reforma agrária é continuamente realizada, e as pessoas espelham-se na família real, sendo cidadãos cultos e educados. As ciências e as artes florescem! Não corremos o risco de golpes de Estado, pois apesar de tudo o governo não é muito centralizado; Toma moldes federalistas, adequando-se às demandas de cada região. Nosso moderno sistema tem influências de um império gravado nos livros de história, já ultrapassado, que utilizava ferramentas antiquadas de estabilidade (como a escravocracia), mas cuja glória e eficiência não serão facilmente esquecidas.  Todos se preocupam com os rumos do Império. A tradição baseia-se na eficiência, e outros países desenvolvidos do globo também tem na Monarquia sua fonte de júbilo e esperança. Olhando para o imperador, os cabelos louros e os olhos claros, a barba crescendo, percebo que já vira aquela mesma força interior em meu sonho. Seria ele o idoso? Não sei, mas tenho certeza de que utilizarei o imperador como referência para meus estudos acadêmicos e minha busca em direção à erudição. Que exemplo a ser seguido! Prosperemos!

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