Negócios de Proust

Reunião de negócios em um restaurante. Uma tentativa pífia de transformar um momento essencialmente chato em algo agradável; em fato, tudo o que se consegue, quanta ironia, é transformar o essencialmente agradável jantar em algo chato. Refletindo um pouco, nos últimos anos, minha presença em qualquer estabelecimento voltado para gastronomia existiu em função dessas reuniões (afinal, quando estou só, apenas tenho tempo para fast-foods, por motivos explícitos no nome). Que coisa. Talvez seja por isso que vejo tais locais com desprezo profundo, agora: tenho ojeriza de ver garçons e seus falsos sorrisos que escondem a incontrolável vontade de cuspir na sua sopa, pessoas gordas abastecendo o já abastecido ventre e retirando a oportunidade de algumas crianças africanas de encher os seus, vazios) ,mendigos pedindo comida na porta e sendo enxotados… Enfim, tudo é um horror. Mas o pior de tudo sou eu, mesmo. A consciência de que não pude realizar meus sonhos idealistas de hippie/filósofo de quinze anos e me tornei um engravatado (coisa que gritava à quatro ventos que nunca aconteceria). O fato esmagador de Descartes ter errado e, pois, eu ser apenas uma máquina biológica, um agregado de neurônios a disparar rajadas elétricas. A sempre presente verdade de que, desde os meus dezesseis anos, não tenho um relacionamento erótico com mais profundidade do que um pires. Em síntese, a realidade do fracasso que sou profissional, amorosa e biologicamente. Tempos difíceis.

Para colaborar, o garçom, criatura odiosa, dá-me um sorriso ”garçones” e o menu. Começo a fingir que o analiso. Na verdade, passo os olhos procurando pelo mais barato e não pelo mais apetitoso. Hum, lasanha por apenas 8,00. Até que algo me chama atenção: ”Carne de Panela”. Nossa, quanto tempo fazia que eu não via isso? Lembrei-me de uma discussão sem sentido que tive com alguém, em algum tempo imemoriável, que o nome não era ”carne de panela” mas sim ”carne cozida”. Sorri ao lembrar isso, além de ser motivado a pedir a tal carne (de panela/cozida), ainda que custasse mais.

A dúbia refeição chegou. Senti uma estranha ansiedade, como aquela de um casal adolescente no cinema, cheios de más intenções. Peguei os talheres, posicionei-os conforme o protocolo e finquei o garfo. Que som, que textura! Uma lembrança começou a se formar em meus neurônios, mas ainda não conseguia a distinguir das outras tantas. Cortei a carne, juntei as memórias. Encarei aquele pedaço… Meu coração batia forte, era algo novo, finalmente! Mordi.

No mesmo momento, explorei meu próprio universo. Não o de neurônios, mas sim o da alma. O gosto daquela refeição me invadiu por completo, fez-me lembrar das delícias da aurora da minha vida, de como, em certo momento, fui feliz sem nem saber. Carne de panela era a refeição que minha vó fazia toda semana para mim, preenchendo-me de uma felicidade pueril e inocente, que se satisfazia com o mero estar saciado. Essa época, antes esquecida, agora retornou. Eis a fonte de todos meus desesperos: eu me desliguei do meu passado, do meu eu. Como pude esquecer minha segunda mãe? A sensação de liberdade ao sair da escola e de felicidade ao abraçar minha querida vó? Comi rapidamente a carne, buscando desesperadamente mais desse jubilo divino, mais da minha própria vida. Mas, poxa! Que idiotice é essa de buscar a si próprio na carne?! Ela foi apenas um catalisador, o que verdadeiramente importa sou eu! Repentinamente, não me sentia mais um fracassado, profissional, amorosa e biologicamente. Eu ainda tinha sonhos, eu tenho uma alma e eu posso amar. Senti-me infinito. Eu sou infinito.

Qual o perfume que te marcou? Há algum momento de sua vida indissociável de certa música? Um gosto impossível de separar da lembrança de uma pessoa? Um toque que te querer eternizar o momento? Sei que sim.

Texto para todos aqueles que, para além das verbalizações e imagens, exploram a sinestesia na hora de guardar e resgatar, das profundezas da alma, as próprias lembranças.

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