O senhor é meu pastor e nada te faltará

Mãos retorcidas, barba desgrenhada, unhas longas, a medonha figura do bispo taranteava pelos arredores do templo de Salomão. Quando não dentro de seu carro com motorista particular, o bispo gostava de andar a pé. Ele podia se dar a este luxo, porquanto os negócios iam muito bem; Sua emissora faturava, suas igrejas transbordavam dinheiro. Com fortuna avaliada em  US$ 1,1 bilhão, ele tinha, efetivamente, obtido sucesso financeiro. Talvez o mais influente de um grupo de homens que, como ele, foram pastores de igrejas protestantes e conquistaram grandes patrimônios. Muitos destes, entretanto, cometeram os erros que mais condenaram, insistiram nos mais heréticos comportamentos, pecaram utilizando-se do nome que deveriam adorar.

O próprio nome “pastor” supõe um guia especial e destinado a conduzir ovelhas. Simbolicamente, a ovelha é um ser que efetivamente não toma decisões, cabendo ao pastor determinar-lhes o rumo. Uma designação pejorativa, não? Existem paralelos a semelhante guia em outras religiões (padre – pai, aiatolá – sinal de Alá…) mas o pastor supera-se na habilidade da oratória coercitiva. O mais célebre exemplo de tal coerção é a monetária; pessoas que participam de determinados cultos evangélicos são extorquidas (há ameaça maior do que o fogo do inferno?) em troca de seus suados vinténs. Como no islamismo radical, simples cidadãos são transformados em guerreiros religiosos, prontos a levar os debates até as últimas consequências, caso sua fé seja contestada. Habilmente manipulados por seus pastores, estes guerreiros não hesitarão em incitar o fundamentalismo, apoiar suas teses em falácias religiosas, até inventar passagens bíblicas que não existem. Como peões, seus comportamentos são padronizados e determinados pela vontade da Igreja, e os extremismos por eles praticados fazem lembrar os princípios do Ofício da Santa Inquisição.

Os fundamentalistas evangélicos são cada vez mais numerosos, e tratam de abafar as questões levantadas por membros de sua própria religião, os protestantes conscientes e questionadores (sim, eles existem!), ameaçando-os com absurdos extremos em uma “excomunhão evangélica”. Outro ponto alarmante é a crescente influência da bancada evangélica nas decisões políticas. Somos um Estado laico, e não uma teocracia, como os guerreiros religiosos querem. Estas atitudes só contribuem para a gradual despolitização, reacionarização, limitação da liberdade de expressão… Consequências sociais adversas, que contribuem para uma total regressão nas relações humanas. Ponto curioso e notável de menção é: Se a classe de fundamentalistas protestantes se baseia única e exclusivamente na palavra do Senhor, porquê alguns trechos bíblicos são convenientemente omitidos? Para citar alguns:

  • “O Deus que criou o Universo e tudo o que nele existe é o Senhor dos céus e da terra, E NÃO HABITA EM SANTUÁRIOS PRODUZIDOS POR MÃOS HUMANAS” (Atos 17:24). Ora, há contradição maior entre esta passagem e a construção de enormes monumentos, com destaque para o mais recente Templo de Salomão?
  • “E lhes digo mais: É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos céus”(Mateus 19:24). O acúmulo de capital por parte dos pastores é inegável; A maior parte do dinheiro doado pelos fiéis dificilmente se limita à manutenção do templo.
  • “NÃO TERÁS OUTROS DEUSES DIANTE DE MIM”
    (Êxodo 20:3). Se o dinheiro é cultuado e almejado, ele se torna objeto de adoração, um outro Deus.
  • “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão”
    (Êxodo 20:7). Este é, talvez, o mandamento mais incisivo e ao mesmo tempo mais mal compreendido da Bíblia. Note que Deus nega o perdão àqueles que tomarem Seu nome em vão, mas o que seria isto exatamente? Simples: Utilizar-se de desculpa religiosa para praticar maus atos. É o caso dos homens bomba muçulmanos ou dos cruzados; É também o caso dos padres e pastores que, visando ao enriquecimento ou à manutenção do poder da igreja, recorrem ao nome de Deus e à justificativa da religião para pressionarem o fundamentalismo e a fé cega. Estes, segundo o mandamento, serão os ÚNICOS pecadores que terão o perdão NEGADO.

Como se vê, a Bíblia só é citada em passagens desconexas ou curiosamente coniventes com a causa pela qual os fundamentalistas lutam. A Idade das Trevas já passou, e esperava-se que a mentalidade desta houvesse passado também. As “feses” modernas parecem escapar a qualquer embasamento lógico ou no mínimo teológico, sendo apenas manobra de manipulação de massas. Espera-se que o fiel desenvolva um mínimo de pensamento crítico e passe a questionar o que lhe é passado por seus supostos superiores.

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