Dinheiro, meu pai, minha mãe e a morte.

As profissões dos meus pais são bem interessantes: meu pai é agente funerário e minha mãe é enfermeira geriátrica. Respectivamente, eles ganham a vida ao cuidar do indivíduo imediatamente antes e imediatamente depois da morte. Dado isso, conviver com ela sempre foi imensamente comum em minha casa. Morte, para a maioria das pessoas, é um evento esporádico, enquanto para mim, bem ou mal, é algo rotineiro.

Feriados são dias para a sua família se reunir? Na minha, é dia de meu pai não ficar em casa, porque, bom, você sabe: as estradas são muito esburacadas, o bom-senso dos jovens não é alto, a tristeza afeta os corações solitários com mais intensidade… Enfim, muito trabalho. Na sua, uma pessoa idosa adoecer é motivo para lamúrias? Na minha, de certa forma, é um alívio: minha mãe poderá angariar alguns tostões. Nós sobrevivemos porque alguns outros morrem.

Espera-se que este meio tão pragmático e prático de lidar com o fim leve a certa abstração e indiferença com o assunto. E, de fato, por questões de sanidade, faz-se necessário um grau de afastamento e de envolvimento velado com a questão, tal qual o psicólogo que não se aproxima emocionalmente com seus pacientes. Contudo, também por questões de sanidade, a reflexão periódica sobre a morte é imprescindível para não se perder a sensibilidade.

E foi essa postura que tentei cultivar durante a minha vida. A fim de buscar fontes para reflexões, um dia perguntei algo extremamente simples para o meu pai: ”Pai, por que morrer é ruim?”, questionamento o qual ele, de forma inesperada, respondeu com um provocador ”E quem disse para você que morrer é ruim?”

Observando meu espanto inicial, ele explicou seu ponto de forma didática: contou que, nos milhares de enterros que fez, nunca viu o defunto chorar. Ademais, também nunca o viu rir, sorrir, desesperar-se, questionar-se, indagar-se… Sempre permaneceu plácido, inexpugnável e estático como, bom, um morto. Se a morte é a não-existência, como se pode atribuir atributos para ela? Aquele que não existe não sofre ou sente prazer, já que, em fato, nada sente.

Boa conclusão esta que meu pai me auxiliou, mas as reflexões estariam incompletas sem ver outra opinião: a da minha mãe. Ela, quando questionada com a mesma pergunta, respondeu com a mesma segurança e de forma diametralmente oposta a papai: ”Porque nos limita”.

Conformado com o que meu pai havia dito, também fiquei espantado com a resposta de mamãe. Ela, confortando-me, também foi clara em sua explicação: contou-me a história de Seu Micheloni, homem que, após ser diagnosticado com câncer no intestino, tornou-se extremamente melancólico, porquanto não conseguiria assistir a formatura da filha mais nova, que terminaria o Ensino Médio dali a dois anos. Pelos meios naturais, seus desejos e intenções foram negados.

Cruzando estas duas filosofias, passei a acreditar que ambos tinham razão parcial. O segredo reside em perceber que a morte não é apenas um momento, mas um processo. Olhando-se imediatamente depois, realmente não há nenhum sofrimento. Ele, em fato, está no imediatamente antes, consolidado nas oportunidades retiradas e na frustração ao tentar olhar para o amanhã e não mais vê-lo, concentrado na sensação de que toda a vida é um despropósito e de que se perdeu muito tempo com baboseiras, repousando no conhecimento que seremos esquecidos e de que nossas obras inutilizadas. Mas, depois disso tudo, enfim, a tranquilidade.

Findada a reflexão periódica, sejamos práticos: qual o sentido de indagar se morrer é bom ou ruim? Não podemos esperar que a resposta, qualquer que seja, possa levar àlguma mudança. No tribunal da vida, a Morte destila suas sentenças de forma indiferente e arbitrária às nossas reflexões, sentimentos ou intenções.

É duro. Cada um deve achar (ou não achar) o próprio meio de lidar com esse absurdo. No caso da minha família, nós ganhamos dinheiro. Viva a praticidade!

Não?

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