Vivemos na utopia

Meus avós dizem que a segunda metade do Século XX era uma época muito melhor que esta. Meu bisavô, nascido em 1920, afirma que a primeira metade era o suprassumo da felicidade! Não conheci meu tataravô – Pedro Sales Rodrigues das Chagas -mas nutro alguma certeza que ele comentaria do final do século XIX com o mesmo brilho nos olhos que meus outros ascendentes o fizeram de suas épocas de apogeu. E, assim persiste, ad infinitum.

Parece haver em cada humano uma espécie de nostalgia cega, que julga o passado, simplesmente por ser passado, como imensamente melhor que o momento presente ou mesmo superior a qualquer desenrolar futuro. No entanto, contrariando as crenças dos meus bons familiares, parece haver bons motivos para julgar esta época, o início do século XXI, como um bom momento para estar vivo.

”Como?! Nesta época marcada pela violência?” poderá dizer você! Realmente, há violência atualmente. Mas também a houve durante toda a história da humanidade. E, por mais estranho que pareça, ele é significativamente MENOR agora! Dados relevantes sobre esta afirmação se encontram na palestra de Steven Pinker, psicólogo renomado, no TED [1]. Entre exemplos dessa tendência, cita ele o imenso declínio, relativo a épocas passadas, da taxa de homicídios, além de grandioso aumento de nossa empatia moral, dado que um passatempo comum da idade média era assar gatos e que, até a metade do século XVIII, escravidão era vista como natural, juntamente com a subordinação absoluta da mulher aos desejos masculinos. Em comunhão com estas ideia, o canal ”In the nutshell” apresenta outra análise interessante, visando demonstrar que a taxa de guerras também vem diminuindo e, atualmente, é a mais baixa já registrada (sim, apesar dos conflitos na Ucrânia e o Estado Islâmico!) [2]

”Ainda assim! E esse mundo assolado pela pobreza?” retrucará você! Novamente, é impossível negar que, atualmente, como demonstrou Thomas Piketty em seu best-seller de economia (sim, dá para vender livro de economia O_O), a desigualdade de renda está muito grande, algo que é negativo e deve ser superado. No entanto, há também outro modo de olhar para isso: com a ascensão do modo de produção capitalista, a produção de riquezas (e entenda riqueza no termo econômico da coisa: tudo aquilo que possui valor para alguém) aumentou vertiginosamente, de modo que, ainda que mal distribuída, as pessoas pobres hoje possuem mais riquezas que o homem opulento da sociedade feudal [3][4][5][6][7]*Julgar a pobreza atual como sinal de uma época pior é negar a constância da condição miserável na sociedade humana.

”Certo! Mas e a ecologia? O ambiente está sendo devastado!” Neste caso, é difícil argumentar contra isso: há, deveras, devastação ambiental, maior do que passado. Todavia, não devemos ficar surpresos com tal situação, porquanto ela é apenas um desenrolar do encontro de nossa tendência natural com as artimanhas tecnológicas. ”O que? ‘Tendência natural?’ A destruição da natureza é motivada pela ganância do homem capitalista!”, dirá você, romantizando a situação! Como aponta Matt Ridley em seu maravilhoso livro ”As Origens da Virtude”, ”coincidindo com a chegada comprovada da primeira leva de homens à América do Norte, há 11.500 anos atrás, 75% dos gêneros de mamíferos de grande porte [aqueles caçados por nós] – desapareceram. Desapareceram o bisão gigante, o cavalo selvagem…”, ou seja, aliando esta citação com  somos matadores natos, com ou sem modernidades. Sendo otimista, talvez o nascimento de movimentos ecológicos, como o Greenpeace e o WWF, sejam exemplos de como, em termos de relação com o planeta, houve certa evolução.

Enfim, podem ser citados outros exemplos, mas acho que você entendeu aonde quero chegar: em critérios objetivos, há indicadores que o século XXI é melhor do que os anteriores. Mas talvez argumentar em pró desta ideia seja um contrassenso: mais persuasivo que dados e raciocínios, é o senso comum, aquilo que permeia o cotidiano e estriba nossas emoções. Diz ele que tudo vai mal, que este é o pior dos mundos possíveis e que o vindouro é sombrio, fazendo a esperança ser infantil e a melancolia e o pessimismo emoções ”maduras” de se cultivar.

E talvez isto esteja correto: meus pais, meus avós e meu tataravô, bem como todos aqueles anteriores na árvore genealógica, viveram mais que eu e, pois, devem ter alguma razão. Afinal, eu sou apenas um adolescente do século XXI: não lutei contra a ditadura e a moral opressora como os de 1968, não tive a coragem de morrer pelo meu país imperialista como os de 1914 e 1945 e muito menos frequentei salões aristocráticos como os da Belle Époque. Por não ter sido oprimido, morto ou sufocado por aparências, sou mediocremente atual.

* 3, 4 e 5 apresentam artigos que expandem a ideia, enquanto 6 e 7 são notícias sobre o tema. Todos os dados podem ser consultados em http://data.worldbank.org/

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