Vivemos na distopia (!?)

Defendi, indo contra meus nostálgicos parentes, que, ao contrário do que nosso senso comum parece demonstrar, esta época é o melhor momento para estar vivo. Continuo acreditando na força dos meus argumentos, mas após saber que filósofos e sociólogos de peso concordaram com meus pais e avós, fui forçado a refletir um pouco mais sobre minha posição. Então, veja só: não se pode negar, como argumentei no texto anterior, a imensa criação de riquezas observada atualmente. Uma das causas disto, claro, é a ascensão do pensamento científico: ele ordenou e deu sentido ao mundo, permitindo um maior domínio da humanidade sobre a natureza. Pessoas como eu tendem a ver isto como absolutamente boas, mas esta não é a única visão possível.

Michel Foucault, por exemplo, era meio cético: quando refletiu sobre medicina, em seu livro ”Nascimento da Clínica”, concordava comigo que os medicamentos e tratamentos – riquezas oriundas da ciência – realmente evoluíram e melhoraram a nossa vida, mas… E o relacionamento entre médico e paciente? Ele também evoluiu? Responde ele que, pelo contrário, regrediu. Atualmente, os médicos são especialistas e, assim, observam os enfermos menos como seres humanos e mais como órgãos falidos: então, para certo Dr. Dante, homem que dedicou os últimos dois anos de sua graduação e todas suas viagens a congressos científicos para o estudo do intestino e seus mistérios, o seu paciente, o Sr. Sales, é, ao invés de um homem com aflições e preocupações, uma prisão de ventre e entranhas volumosas. Sendo sincero, o maior interesse do Dr. no Sr. é a merda deste segundo. A ausência dela, em específico.

Tal especialização é uma constante em todos os empregos modernos. Sobre isso, Adam Smith, em seu antológico ”A Riqueza das Nações” foi rápido em apontar a eficiência produtiva deste método, mas também possuiu a sensibilidade de reconhecer o caráter desumanizador que ele possuía, algo que, posteriormente, seria ratificado por Karl Marx (sim, eles concordavam em algo!). E, de fato, como seria possível discordar deles? Mais específico é idêntico a mais limitado e, portanto, mais árduo de se retirar sentido. Meu bisavô era fazendeiro e cuidava de uma infinidade de tarefas em seus terrenos, dividindo seu tempo entre arar a terra com dedicação, observar o gado com atenção, retirar leite e ovos para sua subsistência… Após tudo isso, repousava a noite junto com certeza do propósito de seu trabalho. Meu primo, por outro lado, é analista júnior de seguranças de sistemas paralelos em uma empresa, trabalho este que consiste em… Em… Bom, segundo ele, ”sentar durante oito horas na frente do computador, fazer contas e planilhas sobre os relatórios que meus superiores de segurança realizaram”, labor este que o faz ir deitar em sua cama esperançoso para o salário no final do mês, ao invés de feliz por estar em uma função com algum significado pessoal. Eis o avanço moderno: especialistas, só especialistas! ”Meras engrenagens de uma máquina”.

Ademais, sobre a diminuição da violência, outro ponto apaixonadamente defendido por mim, Foucault via a suposta ”ascensão de humanidade” de forma uma forma mais pessimista: é defendido na obra ”Vigiar e Punir” que os Estados atuais não diminuíram sua brutalidade para com a população, apenas a camuflaram como um mágico ilusionista, preferindo, ao invés de explícitas execuções e enforcamentos, práticas as quais podem causar revolta na população, a cortina de fumaça do sistema penitenciário atual, que é afastado do povo e de seus afetos. Para Michel, nossas cadeias, aparentemente mais humanas  do que o apedrejamento, refletiam ainda a arcaica visão de que a melhor forma de tratar um crime é mera punição, ao invés da tentativa de reinserção e reeducação.

O mesmo pensamento, de camuflar ao invés de resolver, sustenta a ”paz mundial”, também citada por mim: ela, longe de ser realmente pacífica, é uma ”pax armada”, oriunda da proliferação de armas nucleares e da iminência da destruição mútua. Diante disso, vê-se que os indicativos da violência podem ter diminuído, mas as suas causas continuam latentes e sólidas, dilacerando vidas de forma silenciosa e nos ameaçando com a aniquilação total, problemas estes afastados das lentes estatísticas.

Além de riquezas e violência, também comentei no meu texto sobre nossa relação com natureza, ponto este que, dado minhas muitas concessões, acho difícil de pensar contrapontos significativos. Contudo, ainda que realmente estejamos nos entendendo bem com a Mãe Gaia, OUTRO tipo de relação pode ter se deteriorado em decorrência da modernidade: a humana. Zygmunt Bauman, sociólogo polônes, nos convida a refletir sobre como a internet, a magnânima realização capitalista, erodiu nossos laços de amizade. Em suas falas, afirma que a facilidade de se conhecer pessoas e também de excluí-las de nossa vida, característica proporcionada pelo mundo online diminuiu o valor do companheirismo.

Para ilustrar isto, conto para vocês dois casos: em um deles, uma garota me mandou um convite de amizade, comecei a conversar e, após desgostos dela com certas ações minhas, fui excluído , sendo jogado para fora de sua vida abruptamente e impedido de iniciar novas conversas, tudo isso em meros três meses (!); em outro caso, meu avô conheceu um homem em uma quermesse em Guaratinguetá, onde tiveram boas conversas e, a fim de manterem contato, trocaram endereços, ação a qual permitiu, apesar das duas horas de distância, a manutenção de encontros e diálogos, cimentando uma grande amizade cujo valor não foi abalado por pequenas brigas ou descasos. O esforço para conseguir algo é proporcional a motivação para mantê-lo.

Diante disto tudo, não estou mais tão certo na conclusão que este é o melhor dos mundos possíveis. Afirmar isso perante todos os problemas apresentados parece imoral. Talvez seja mais prudente, e também mais humilde, valorizar os benefícios atuais, mas sem deixar de ficar atento para os grandes problemas e os relatos dos antigos sobre o mundo que viveram, conhecimento este que é extremamente valioso, embora frequentemente ignorado. Se os dados objetivos nos afirmam algo, talvez a reflexão sensível aponte por um caminho diferente.

Posso, agora, sem ironia, afirmar minha pequenez: meus pais, meus avós e meu tataravô, bem como todos aqueles anteriores na árvore genealógica, viveram mais que eu e, pois, devem ter alguma razão. Afinal, eu sou apenas um adolescente do século XXI: não tive a oportunidade de cultivar grandes laços e real amor fraterno como os de 68, não me revoltei com a postura imperialista e violenta de meu país em 1914 e 1945 e muito menos travei relações com os intelectuais e artistas completos da Belle Epóque. Por ser superficial em minhas amizades, ausente de revolta e limitado na intelectualidade, sou mediocremente atual.

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