Divertidamente e a tristeza

Neste inverno, tivemos filmes que muito prometiam: Exterminador do Futuro, Minions e Jurassic World, por exemplo. Correndo um pouco na periferia, havia o Divertidamente (Inside Out, no título original), da Pixar. É um pouco estranho dizer que um estúdio produtor de obras-primas preenchedoras de nossas infâncias como Toy Story, Wall-E e Nemo fez um filme que ”corria por fora”, mas vale lembrar a ”depressão” da Pixar após os medianos ”Universidade Monstro” e ”Valente” e o tenebroso e marketeiro ”Carros 2”.

Imerso neste contexto de dúvidas, Divertidamente se mostrou um filme deliciosamente bem executado, acabando por ser sucesso de público e crítica (98% no Rotten Tomatoes!). Para tais feitos, podem ser citados muitas causas, passando do cenário vivo e animação magnífica para a trilha sonora tocante e as cenas inteligentes de humor, mas gostaria de focar em um deles: a mensagem principal do filme.

Começo expondo algo consensual: o filme trata da importância da tristeza para a formação humana. Vemos, nos primeiros momentos, um conflito entre a personagem Alegria, cujo pensamento se foca em promover felicidade em tempo integral para a Riley, e a Tristeza, personagem que acaba por sabotar os objetivos da alegria e, assim, parece ser a principal antagonista. Em fala da própria Alegria, após explicar as funções de todos os outros sentimentos, ”A Tristeza… Bom, eu não sei o que ela faz. Já vi se dava para me livrar dela, mas não é possível”. Com o passar do filme, no entanto, Alegria acaba por entender a tal função misteriosa da Tristeza.

Neste sentido, a primeira cena digna de nota é quando Bing Bong (”meu amigo pra brincar…” <3) perdeu seu foguete movido a música e, naturalmente, acaba por se entristecer. Alegria tenta, conforme sempre o faz, motivá-lo com bobeiras e brincadeiras, falhando miseravelmente no processo. Tristeza, então, aproxima-se do amigo imaginário e o escuta, dando espaço para ele se expressar sobre seu sofrimento e, além disso, reconhecendo a gravidade do problema. Bing Bong, pois, sente-se revigorado e continua a jornada com ambas as personagens.

O implícito na cena é a verdade defendida pelo filósofo, romancista e poeta espanhol Miguel de Unamuno: somente após enfrentar algum sofrimento podemos amar e entender verdadeiramente aqueles que sofrem. Em suma, estar triste nos aproxima e permite laços mais fortes com outros seres humanos. O companheiro de dor, que sofre conosco e nos vê em farrapos, é o mais íntimo, profundo e importante amigo possível. Sem a tristeza, estamos incapacitados de ter este tipo de relação.

Outra parte essencial para a trama é o momento em que Alegria, agora presa no Vale do Esquecimento, observa uma das memórias mais felizes de Riley, em que a menina se vê ovacionada por companheiros e família após um jogo de hockey, e, para sua surpresa, vê um período triste antes de todo aquele estado jubiloso, no qual a garota se martirizava por ter perdido o lance decisivo da final. Percebendo que Riley só foi celebrada pelos amigos quando estes perceberam o consterno dela, Alegria conclui que aquele momento de imensa felicidade só ocorreu porque, primeiramente, Riley havia ficado amargurada!

Oh, não poderia ser mais claro! O Sofredor, quando se vê em situações alegres, atribui um extremo valor para elas, aproveitando e se deliciando integralmente com os bons momentos vitais, não importando a pequenez deles. Uma boa ilustração disto é o documentário ”Touched by Auschwitz”, que, dentre outros temas, narra como progrediu a vida dos judeus e ciganos presos no campo de concentração nazista: mesmo com heterogeneidade de detalhes, eleva-se como congruente entre os depoimentos a visão de que os horrores da guerra permitiram o parto de uma nova visão sobre o mundo, na qual predominavam a valorização da bondade humana, dos laços familiares e da própria liberdade. O melhor da vida se tira das pedras, como diz o filósofo Luis Felipe Pondé.

Por fim, há no filme o momento em que Riley, após desistir de sua fuga e retornar para casa, reencontra seus pais e, pela primeira vez na trama, expõe seus sentimentos sobre a mudança, acabando por chorar em soluços após bradar sua saudade de Minnesota e, por fim, ser confortada pela família. Tudo isto ocorre em decorrência da Tristeza tomar o controle da consciência da menina.

E é a chave de ouro do filme: o estar triste permite sermos sinceros com nós mesmos. Estar atento e dizer nossas lamúrias é a melhor forma de conhecer o que nos incomoda e, assim, fazer algo produtivo sobre. Por outro lado, camuflar o sentimento, fingindo estar feliz ou buscando distrações prazerosas, pode gerar ações imprudentes e perigosas (como uma fuga de casa), cujas consequências nos desviam dos nossos desejos efetivos. Este é o mesmo conselho do filósofo Sócrates para a busca pela felicidade: conhece-te a ti mesmo. E qual é a melhor forma? Converse seus demônios, ora pois!

O espectador atento, que nota o desenvolvimento e evolução da história, certamente realizará paralelos com a própria vida e, assim, se emocionará. O verdadeiro trunfo do filme é passar, com personagens fofinhos e cores chamativas, filosofias profundas e significativas para a existência de qualquer ser humano. É melhor que a soma de todos os livros de autoajuda já feitos, for sure!

Então, fica a dica: não coloque sua Tristeza em um círculo. Se excluirmos ela de nossa vida, estamos, porquanto nos afastamos da empatia, da valorização da alegria e o do autoconhecimento, separando-nos de uma parte essencial de nós mesmos. 🙂

Obrigado, Pixar, por esta grandiosa lição!

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