Vestibular, Usain Bolt e a meritocracia

“Se você quer algo na vida, é só batalhar muito duro que um dia você conseguirá. tudo só depende de você!”. A maioria de nós já ouviu de alguém estas palavras ou até mesmo já disse para outra pessoa esta tão encorajadora frase. Evidente, pois nos dias de hoje se valoriza e muito a meritocracia (sistema socio-político que considera o mérito a principal razão para se obter algo). Sendo assim, se você quer passar no vestibular é só estudar muito que você consegue. Apesar de parecer (ou até mesmo estar) certa, está frase não conta toda a verdade: você também precisa que os outros falhem.
Vamos voltar a ideia do vestibular para facilitar essa compreensão: a faculdade de psicologia da USP disponibiliza, todo ano, 70 vagas para serem concorridas no vestibular da universidade (a FUVEST). E no ano de 2015, 3400 alunos se inscreveram na FUVEST querendo entrar neste curso, ou seja, muito mais alunos queriam entram no curso de psicologia do que próprio curso poderia comportar. Até ai tudo bem, é normal isso ocorrer. Dessa maneira, fez-se o vestibular e os 70 melhores entraram na faculdade. Óbvio, mérito deles, eles estudaram mais, fizeram valer a máxima da meritocracia.
Mas agora, e se em 2016 os aproximadamente 3400 alunos que vão concorrer para uma vaga em psicologia fizessem valer essa máxima? E se todos esses vestibulandos tirassem a melhor nota possível (logo, iguais) na FUVEST? Esse cenário é tão improvável que pouco se pensa nele. Mas se ele ocorresse (todos os alunos com o mesmo mérito), a USP teria de fazer alguma espécie de sorteio ou algo do tipo para poder selecionar quem ocuparia as 70 vagas.
Mesmo que isso nunca ocorra, percebe-se com esse exemplo que para que alguém consiga algo na vida, outro alguém tem que estar perdendo isso. Para que você consiga aquela promoção ou até mesmo ganhe aquele concurso desejado, alguém tem que perdê-lo.
E em casos de disputas muito ferrenhas, outros fatores são tão importantes quanto o mérito para determinar quem ganha, fatores esses que podem ser injustos ou frutos do acaso. Mês passado Usain Bolt ganhou uma corrida de 100 metros livre na qual ele disputou até o último centésimo de segundo com um de seus rivais. E um dos motivos que o sagrou vitorioso foi o fato dele ser maior que o oponente, desta maneira, quando eles projetaram seus corpos para frente para poder ganhar alguns centímetros, ele que se saiu melhor e ganhou medalha de ouro. Evidente que saber usar seu corpo para se beneficiar nessa corrida foi seu próprio mérito, mas o que deu a Bolt uma altura elevada foi a meritocracia ou alguma seleção genética a qual ele não controla?
Portanto, a máxima da meritocracia não é 100% válida. Mesmo que seja fundamental que você corra atrás de seus sonhos e persista neles, para que você se saia um “vencedor”, é necessário que muitos outros fracassem (mesmo tendo tantos méritos quanto você, ou as vezes até mais), e é necessário também que outros fatores o beneficiem para que isso ocorra, como sorte, oportunidade e até mesmo riqueza. Ou você acha que para ser o grande engenheiro que sempre desejou, não precisa de pessoas que façam tarefas “bobas” para você (como cozinhar ou limpar seu quarto) para que assim, você consiga ficar mais tempo estudando e dedicando-se ao seu sonho achando que tudo na vida depende de você?

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