Eclipse

Dia 27 de Setembro de 2015. Haverá um eclipse lunar total. O entendimento das causas do mesmo envolve conhecimentos de astronomia como perigeu, elipses, penumbras e reflexões, dentre outros. Muito difícil (ou pouco interessante) para alguns. Nas mentes desses iletrados científicos, o eclipse persiste como o evento fantástico e misterioso que o foi para os humanos primitivos. Nestes casos, a ciência não progrediu o conhecimento humano, não roubou a cena dos deuses. Permanece, ao contrário, no mesmo patamar que eles: o da incompreensão.

Observando a progressão do eclipse com estes olhos ignorantes e fascinados, estão meus avós. Animam-se em repetir as informações ouvidas na TV, afirmando, sem saber o motivo, que: ”a lua ficará vermelha às 23:30”. Errado: será, em fato, às 23:47. Corrijo-os. Ignoram-me. Continuam a discutir sobre as possíveis consequências (”será que causa tsunami?”) e chutar horários errados para o apogeu. Convidam-me para sentar em uma cadeira e esperar até o tal horário fatídico. Eu não estou muito interessado. Não vejo muito pompa em eclipses ou eventos do gênero. Afinal, é algo totalmente previsível. Entediante.

Sou, no entanto, vencido pela insistência. Arrumo-me na cadeirinha de metal frio e passo admirar fleumaticamente o céu. Vovô acende um cigarro Marlboro e joga fumaça em direção à lua, que está quase um quarto encoberta. E Tosse. E tosse mais uma vez. E outra. Pulmão ruim. Negro como a parte da lua eclipsada. Já vovó me abraça por trás, apertando-me na altura dos ombros. Suas mãos caem em minhas saboneteiras. Deixo de olhar a lua e passo a olhar suas mãos. As rugas e manchas se destacam. Faziam da pele quase tão heterogênea e acidentada quanto a superfície da própria lua. A única diferença é que, se esta foi castigada por meteoros, aquela o foi pela idade. Meus avós são velhos.
”Ouvi dizer que só voltará a acontecer daqui a 33 anos!”, diz um deles. Travo. Informação correta. Projeto-me trinta e três anos no futuro, observando o próximo eclipse. Vejo-me sozinho. Não há cheiro de Marlboro e nem há peso nas saboneteiras. Meus avós estão mortos. De fato, em algum momento entre hoje e daqui a trinta e três anos, falecerão de causas naturais ou acidentes. Talvez uma doença cardiovascular (elas levam um terço de nós) ou câncer (apostaria nisto para meu avô, assim como para 1/4 de nós todos), ou mesmo, embora menos provável, demência (4,3% de nós) ou um acidente de carro (7%). No entanto, assim como os conhecimentos de astronomia para eles, as causas não são relevantes para mim. O que vale é o resultado: daqui em diante, suas vidas são menores que o período de um eclipse. É algo totalmente previsível. Angustiante.

Meu coração aperta. Desejo poder resolver isso. Rezar para o racionalismo de meu Descartes ou para a ciência de meu Newton. Mas, sei, elas nada resolverão: a ciência é fria e instrumental. As atemporais angústias humanas, ao contrário, são intensas e fechadas em si mesmas. Impenetráveis. Não há ninguém que me conforte sobre a morte, pois não conheço nenhum imortal. Pessoas gentis, com seus discursos bonitos e grande carinho, também se tornarão inexistentes. Serão, em seus ternos de madeira, meras nostalgias de uma época melhor.

Envergonho-me. Tantas formas terrenas de aprender sobre a vida e eu só consegui ao olhar para os astros. Nada mal se a lua fosse simpática, mas sua arrogância é notável: colocando-nos, do alto de sua eternidade estática, em perspectiva, faz questão de nos lembrar de nossa contingência e mortalidade, expondo a pequenez de nossas ambições e de nós próprios frente ao grande esquema das coisas. Estranha nossos esforços para postergar a inevitável e natural morte. É indiferente ao nosso desaparecimento. O universo existiu e continuará a fazê-lo independente de nós. Para a lua, tudo é o que é. Nada muda e nada importa.

Quero me afastar desta realidade. Imergir-me em minhas subjetividades, nas quais conservo o sentido e a motivação de viver. Abraço meus avós, buscando conforto. Minha angústia se materializa em lágrimas. Escondo-lhas: quero conservar suas inocências em admirar o astro cínico e caçoante. Não quero lhes passar a miséria da autoconsciência. Então, subo as escadas para admirar o eclipse de meu quarto. Há a lua maniqueísta, com uma metade negra. Reflete as antíteses da minha vida. Na vitalidade, sinto o fúnebre. No sublime, sinto a amenidade. Na alegria, sinto a tristeza.

Dia 27 de Setembro de 2015. 23:30. Encobre-se a lua em totalidade. Some a luz. E Junto dela minha esperança.

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