O Enem é Comunista?

O exame nacional do ensino médio, ENEM, realizado no último fim de semana, foi chamado de comunista. A prova abordou questões sociais desde o feminismo ao pan-africanismo. E por esse motivo, na cabeça de alguns, ela estaria pegando em armas para a derrubada da burguesia. Mas, lamento informa-los, a prova não é comunista.

A própria existência de uma barreira limitadora para a entrada no ensino superior, o vestibular, e a prova em si, ao abordar esses temas, já fazem do ENEM desmerecedor de ser chamado de comunista. Por que, se para alunos de cursinhos particulares eles podem parecer assustadores, para os de escolas públicas, eles são física quântica. Paulo Freire, Simone de Beauvoir, Weber, Nietzsche. Quantas vezes esses nomes foram falados nas aulas do ensino público?

“Então, pelo menos, o Enem é de esquerda.” É?

Depende. No Brasil, existe uma polarização entre progressismo e conservadorismo que os atrelam a esquerda e direita, respectivamente. Um reflexo disso é a direita chamar a prova de comunista por abordar os temas que abordou, e a esquerda se vangloriar pelos temas discutidos. Na política americana, existem os republicanos e os democratas. Conservadores vs Progressistas. Seria possível chamar qualquer presidente americano de comunista? Lá, nada impede ( talvez a lógica ) alguém ser progressista socialmente e neoliberal economicamente.

No final, podemos concordar que o MEC ( Ministério do Comunis… da Educação ) fez uma prova progressista. E qual o reflexo disso? A revolução está chegando? Só feministas entrarão na faculdade ano que vem? O reflexo disso estará nos cursinhos e na educação.

Não é ser a vanguarda da rebeldia escolar dizer que o ensino num todo, principalmente em instituições particulares, é voltado exclusivamente para o vestibular. Existem cúpulas de professores e diretores que estudam as provas minuciosamente para preparar o ano letivo de seus cursinhos do modo mais adequado, para que no final do ano possam divulgar as suas centenas de classificações no vestibular, e atrair mais alunos/consumidores. O que acontece quando na prova de Humanidades, 1/3 das questões são de Sociologia/Filosofia? Quando se abordam temas sociais e atuais, como movimentos feministas e negros? Quando os reflexos da globalização tem que ser estudados?

Está cada vez mais difícil manter o ensino baseado nas musiquinhas que ajudam a decorar fórmulas. Não que elas sejam ruins, mas estudar um movimento que luta pela emancipação da mulher das garras do patriarcado é um jeito bem mais valioso de se gastar o tempo.

O maior mérito do Enem desse ano está no ano que vem. Teremos uma juventude pensando, debatendo, e principalmente, progredindo. E que esses debates não fiquem restritos à educação particular, que eles se aflorem também pelas escolas públicas, pelos cursinhos populares, pelo Brasil que não é Europa.

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