As análises de um homem racionalista

Gaspar acordou, como todos os dias, cinco e meia da manhã. Realizou exercícios aeróbicos, abdominais e flexões, nesta ordem, por 30 minutos. Diz-se que se ganha duas horas a mais de vida a cada treze abdominais. Seis horas, tomou um banho de quinze minutos, dos quais cinco foram gastos regulando a chave termostática grau por grau, até chegar na temperatura ideal. Seis e quinze, tomou o café-da-manhã, balanceando porções de grãos, frutas e carboidratos no nível que as últimas pesquisas de saúde definiram como ideal. Pontualmente seis e meia, saiu rumo ao ponto de ônibus distante oitocentos e dois passos de sua casa. Seis e quarenta e sete, o ônibus chega, levando-o rumo ao mundo real.

Nele, embora fosse necessário lidar com uma contingência maior do que a do lar, ainda conservava a postura metódica, buscando aplicar fórmulas nas confluências da vida urbana. Chegando ao escritório de contabilidade, cumprimentou a secretária. Nesta pequena interação, lembrou-se dos livros de psicologia analisados: focou os olhos e, com sorriso firme, porém contido, deu um aperto de mão com duas palmas, fatores os quais, segundo o autor de Best-Seller Dale Carnegie, passavam segurança e serenidade; ademais, elogiou, sem prestar real atenção, o novo corte de cabelo da mulher, afinal, Dan Ariely, pesquisador de economia comportamental da universidade de Duke, afirmou ser o elogio a detalhes um dos caminhos mais curtos para ser visto como alguém carismático.

Em sua mesa, analisou se as canetas, calculadora e papéis, tanto os de documento quanto os de anotação, estavam diagramados de forma a permitir uma lacuna central respeitável. Segundo o site de Coaching que lia quinze minutos antes de se recolher ao sono, a produtividade no ambiente do trabalho era diretamente proporcional ao quão limpo ele parecia; assim sendo, era necessário, para uma mesa servir como meio da máxima produtiva, haver pelo menos 1804 centímetros quadrados de espaço central. Com uma régua, mediu os lados da lacuna. Alguns centímetros a menos, Uma das canetas, indecorosa, tampava uma parte essencial da mobília, prejudicando imensamente a concentração de Gaspar e, assim, sua capacidade de fornecer lucro à empresa. Retirou-a dali.

Adentrou um dilema. Que fazer com a caneta? Como melhor alocar aquele recurso? Certamente, deixá-la embaixo da mesa ou jogá-la no lixo não eram as decisões mais sábias. Analisou as histórias lidas sobre empreendedorismo: em todas, o empreendedor, sumidade, transformava uma situação desagradável em oportunidade e, dela, riquezas. Então, dado isso, uma possível saída seria vendê-la para um colega necessitado, superfaturando-a. Com o dinheiro conquistado, poderia investir no tesouro direto. Ao transformar isso em um hábito, retirando de cada caneta uma quantia, poder-se-ia conquistar um belo capital, depois de alguns anos.

Enquanto maquinava os meios e analisava as implicações disto, passou ao lado de seu cubículo a Sheila, seu amor de trabalho. Alta, encorpada, negra à Rita Baiana. Sensual, mas contida. Seu perfume simbolizava um misto da essência da infância e do puteiro suburbano. Da inocência e da sacanagem. Pego no embate entre tais dois mundos, seu fetiche secreto, sentiu um palpitar abaixo do ventre. Esforçou-se para escondê-lo, quando Sheila, inadvertidamente, chamou sua atenção. Pedia uma caneta emprestada. Sem muitas racionalizações, entregou-lhe o instrumento que antes seria usado para financiar um carro, uma casa ou mesmo uma startup. A caneta, agora, apenas preencheria papéis inúteis na mão de uma mulher medíocre.

Chocou-se. O que havia acontecido ali? Aquilo foi totalmente idiota e inconsequente. Foi motivado puramente pelo desejo irracional de adentrar em um relacionamento com ela. Ou, indo mais direto ao ponto, de entrar nela. Analisando o pós-acontecimento, não entendia como emprestar-lhe uma caneta poderia levar a qualquer tipo de empreitada sexual. Mais do que isso, não via como transar com aquela mulher pudesse levar a qualquer felicidade perene. Trocara o futuro pelo momento, como um besta primal. E não era algo pontual. Analisou sua vida e viu o amor surgir como o elemento emocional destruidor e divergente. As dores, decepções e perdas geradas a partir dele em muito superavam os benefícios dados (e quais seriam esses? Beijos apaixonados? Faz-me rir!). Vil amor! Grande e nefasto truque este de se fantasiar de sentimento virtuoso com o mero fim de infernizar os homens e de lhes retirar a racionalidade.

Mas Gaspar não era enganado. Não era a bunda de Sheila que ele admirava, era, no máximo, o quadril largo, indicador de boa parteira. Não eram os seios, mas sim era a capacidade de amamentar. Não se ama alguém na definição da palavra. Apenas se sente atração emocional por outrem pois se vê nas características sexuais dele indicativos de bons genes e comportamento. O amor é uma desculpa moldada pela evolução natural para perpetuar nossa espécie, uma cortina de eufemismos para evitar a agonia existencial. No fundo, como dois cachorros a cheirarem o próprio cu, é apenas o gutural sexo.

E o quão maravilhosamente esta epifania soou nos neurônios de Gaspar. Afinal, analisava, privar-se do amor é uma tarefa árdua: ele é abstrato e etéreo. É inquilino do coração, motivador de metáforas e dono da alma. Na sua inefabilidade, protege-se das empreitadas e cortes. O sexo, seu mestre, ao contrário, é mais explícito. É, como uma ciência exata, indiscutível e sólido. Habita, tal qual ogro sujo em um pântano, ou entre pernas, em uma região peluda, suja e suada. Com endereço carnal definido, era fácil de ser atacado. Pois bem, que assim seja.

No horário de saída pertinente, ele estava eufórico. No caminho para casa, analisava que Jamais choraria por Sheilas, envergonharia-se por seu corpo ou se preocuparia com higiene íntima. Sentia pena de todos aqueles outros passageiros bem depilados e cheirosos. Escravos da própria substância. Nunca mais o seria. Sentiu-se genial, como um matemático portador de um novo e único conhecimento. Por que nunca ninguém pensou naquilo antes?

Em casa, tirou do armário a Tupperware dada de presente no natal passado. Sentiu certa pena de usá-la para um fim tão distinto do intencionado por sua mãe ao lhe dá-la. Todavia, era justificado, analisou. Preencheu-a totalmente com gelo e lá mergulhou o pau e as bolas. Quando os cubículos estavam a derreter, teve a competência de trocá-los por outros novos. Continuou neste ciclo até que todos os sólidos da geladeira se findaram. Suas partes estavam dormentes, embora não em totalidade. O pênis e os testículos, pequeninos, pareciam dois guris educados e introspectivos, a espera de novas ordens. Admirou suas serenidades.

Abriu o armário do banheiro e localizou a navalha. Para checar o corte, fez antes a barba, como em um ritual. Instrumento perfeito. Segurou uma bolinha entre os dois dedões. Analisou-a. Colocou a navalha na divisão do saco escrotal. Cortou, de forma rápida. Sangue e dor. Mas comportados, sem excessos. A dor de amar com certeza era maior. Retomou o fôlego. Olhou a restante. Coitadinha. Desde o início acostumada à companhia de sua siamesa, via-se sozinha. A navalha, em movimento cacto, a poupou das agonias da solidão. Foi-se. Dor maior. O corpo parecia estar a se rebelar contra aquela ignomínia. Contudo, Gaspar o tinha sob controle. Pela primeira vez, sua mente estava sã, autoconsciente, inébria dos nefastos hormônios. Último remanescente da época da autocracia do corpo, seu pênis agonizava, clamando misericórdia. Não a concedeu. Corte transversal. Caiu em desalento no sangue do chão do banheiro. Desta vez, a dor se torna insuportável. Sente ter retirado uma parte da própria substância. Lateja. Mas não contemporiza. Sente orgulho de si.

Terminaram-se as análises. Gaspar suspirou em uma alegre agonia. Agora, eunuco e mutilado, incapaz de intuição, sentimento, erros e agonias, periférico à própria existência humana, era o autêntico e verdadeiro homem racionalista.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: