PELA LUZ DOS OLHOS TEUS

A cidade brilha! Em menos de um século e meio de lâmpada elétrica, a luz nos dominou. Há luz nos postes, nas calçadas, nas vitrines, nas casas. Criou-se luz portátil e até os carros trazem um brilho no olhar! Mas se perdeu a luz dos olhos encarnados, no ritmo caótico e apressado das ruas da cidade.

Garoa do meu São Paulo, – Timbre triste de martírios – Um negro vem vindo, é branco! Só bem perto fica negro, passa e torna a ficar branco. Meu São Paulo da garoa, – Londres das neblinas finas – um pobre vem vindo, é rico! Só bem perto fica pobre, passa e torna a ficar rico. Garoa do meu São Paulo, costureira de malditos, que, na danação prevista, envergonham lançar vista de meus olhos, tão bonitos.

Nas calçadas de São Paulo, das São Paulos de todo o mundo, dos São Paulos de todo mundo, passam mil indiferentes, sui generis iguais. Todos dando farol baixo, tentando não pisar na merda, nem cair nos buracos. E se os olho bem profundo, sentem medo. Envergonham-se de sua maldição, sua danação, temem que, ao olhá-los, venha a vê-los. Vê-los, não à luz da lua, mas a dia aberto. Pois quando a luz de dois olhos com a de outros dois se cruza, há, então, conhecimento.

Quando a luz dos olhos teus refuta os olhos meus, dá até vontade de parar. E de pensar porquê de tanto medo. Sei bem porquê de tanto medo. É o porco pedestre na calçada, é o porco do asfalto e suas buzinadas. Sei bem porquê de tanto medo. É da arma em minha cintura, da faca no meu bolso, elas, que não estão lá, mas bem poderiam estar. Sei bem o porquê de tanto medo. É de constatar no olhar uma nova dominação que te empurre pros subúrbios, que te roube luz e água, que te falte educação, que te fane liberdade, que te restrinja a autonomia, que não te veja cidadão.

Esse medo ponderado que não é menos fatal. Modo que já nem sei olhos cerrados ou nenhum, nem bem, nem mal. Sei mais desses teus medos do que desses teus olhos rasos. Não espanta dos olhos que há de se exclusivarem ao celular.

Só se pode temer o que é relevante, porém o medo não é relevante. Não se pode temer seus medos. Não há medo. Não há prisão.

Proponho um pacto, um de se selar no olhar. Não desviemos essas luzes, não nos oprimamos por medo, não apaguemos essas luzes, esses faróis que nos guiam mutuamente no mar urbano. Não me quero à deriva, não te quero perder de tudo, nem de longe, nem  de vista. Olhos de todo o mundo, uni-vos! sem mais la-ra-ra-ra.

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