Você é um puta arrogante

Sim, você é. Talvez, por medo de ser julgado, não expresse isso de forma contínua ou clara, mas, no fundinho, acha-se mais virtuoso que a maioria das pessoas. Neste íntimo, vê as pessoas como menores do que você: enquanto você é geralmente bom, elas são babacas e hipócritas o tempo todo; você tem um gosto musical divino, já elas ouvem coisas tão bestas; você tem sentimentos tão profundos sobre o mundo, enquanto elas são tão rasas e bobas. Na sua arrogância, está tão certo de sua superioridade que, quando procura um amor, visa encontrar alguém… Exatamente igual a você! Ó, ser virtuoso!

Interiorize-se um pouco e verá que arrogância tem um efeito dúbio: se ela o envaidece, capacitando-o a apontar dedos para o alheio, também o deixa inseguro sobre a própria imagem. Você sabe que, assim como tu julgas outros, será atacado e humilhado no momento em que suas imperfeições forem mostradas. O medo da maldade alheia vem de presenciar a perversidade própria.

Eu sou vítima desses efeitos: também sou um puta arrogante. Isto começou a se intensificar em minha vida no momento em que me tornei ateu. Ora, se até Deus eu poderia refutar, por que diabos eu deveria abaixar a cabeça para alguém? Submissão é coisa de cristão, não de ateu racionalista, como eu era. Ou assim pensava. Após dois anos afastado do cristianismo, decidi ter um olhar mais secular para ele: isto é, apreciei a Bíblia, não como palavra divina, mas como uma peça artística com capacidade ensinar virtudes e verdades morais, da mesma forma que nós lemos Clarice Lispector e Marcel Proust para apaziguar nossas mentes.

Com esta óptica, encontrei a história de Jó. Você sabe: o cara que, por causa de um pacto entre Deus e o diabo, perdeu a família, a fortuna e a saúde, para, depois que Deus aceitou a prova de fé dele, receber tudo em dobro. É uma história que demonstra como o Deus cristão é um cara aleatório: se ele sabe de tudo – e portanto sabia que Jó era um homem de fé – por que diabos testar e massacrar o homem? WTF. No entanto, desta aleatoriedade, há uma grande moral: assim como os prazeres e as dores de Jó, a nossa existência e muitos de nossos virtudes e vícios dependem menos de nós do que de condições aleatórias.

Veja: você acha que ter boas notas é um mérito seu? De certa forma, é mesmo. Mas, de outra, não: você provavelmente é da classe média, possuindo uma casa confortável, uma família que lhe sustenta e uma escola com professores e água encanada. Você não batalhou por nada disso. Aliás, indo mais profundo, só consideramos ”boas notas” um motivo de orgulho por estarmos em certo sistema de educação, em uma certa sociedade, em um certo contexto político, em um certo período histórico. Sabe o que vai significar um ”10,0” em História no caso do Brasil cair em guerra civil e começar a valorizar o estereótipo militar? Porra nenhuma. O significado de virtude e as condições para ela nos circunscrevem em totalidade, por fim.

Esta perspectiva, de ver a existência como menos pessoal, ataca os dois efeitos da arrogância: ao menos no meu caso, foi capaz de limitar a vaidade, pois permitiu o entendimento de que as diferenças entre eu e os outros não são intrínsecas a ambos, mas mera questão de sorte e azar. Julgar duramente uma falha alheia é como criticar o homem do Tempo em decorrência da chuva no fim de semana:culpabilizamos o agente errado. Além disso, o estresse de ser julgado pelo alheio, oriundo de nossa própria postura intolerante, aplainou-se. Pude me tornar mais sereno, pois percebi que muitas de minhas falhas também não são apenas demérito meu, relacionando-se também com as condições em que vivo, as quais escapam ao meu controle

Como ser humano medíocre que sou, não consigo evitar ser arrogante em alguns momentos. Sei que você também é assim. Mas, agora, ao contrário de antes, já temos o remédio: vislumbrar a insignificância de nossa personalidade e vontade frente às decisões impessoais e aleatórias do universo. Com isso, espero que saibamos ser mais empáticos com aqueles não agraciados com nossa sorte: fofocas, supostos gosto musical ruim e mediocridade emocional não são totalmente culpa deles. Afinal, se me permite a arrogância de findar o texto com uma metáfora, todos somos meros Jós a ser obliterado por um onipotente Deus.

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