Aurora entre meus dedos

Só o arranjo de post it`s no espelho da penteadeira rosa cálida e uma criteriosa seleção de rabiscos na janela embaçada do quarto informavam, no relento mudo e invernal, o grande evento. E se olhavam, os dois vidros, e se indagavam, os dois vidros, como nenhum deles, de funções tão divergentes, lhe foram, a Aurora, suficientes.

Quando o pai dela se punha, a irmã mais velha chegava do trabalho e acordava a mãe, que a anoitecia. Feito isso, Aurora enchia o edredom de travesseiros, se penteava em frente ao espelho e, enquanto aparente dormia, pulava pelo caixilho e era presença certa nas baladas da Augusta. Mas, quando a mãe se recolhia, era de Aurora raiar o pai. Chegava assim, nas horas avançadas, escalava por uma árvore no quintal, penetrava pela janela e o acordava. E este, contente que ia com sua filha, a pensava já arrumada para as aulas da faculdade.

Mas naquela manhã de cinzas, das fogueiras de alegria, jogavam sonhos pelos ares. Já não mais noite, nem tão dia. Era um olho de viúva que de largo contrastava com os céus limpos e claros, mesmo a noite, limpa e clara, dos estábulos de Higienópolis. E o espelho amargurado, com seu cerne cimentado, refletindo as nuvens chorosas. E a janela trespassada, hoje, não fora violada, e o retrato que pintava, funesto retrato que pintava, a deixava esmaecida, como tela nunca usada.

Que a paleta antes pedia, entre o fim da noite e o dia, tons de penteadeira, penteadeira clarorrosada, num vestido bailarina. Aurora! Onde está Aurora?

Os amigos comentavam na universidade: Aurora. Aurora. Aurora.

Os vizinhos indagavam nas portas: Aurora? Aurora? Aurora?

A família gritava nas ruas: Aurora! Aurora! Aurora!

Eu suspirava na cama: Aurora… Aurora. Aurora!

Aurora líquida escorrendo entre meus dedos e eu correndo-a de dedos. Não me acorde, doce Aurora, não me acorde. Não me beije no rosto, não me permita vê-la, ou me permita não a ver. Não me toque um grave acorde, nem me toque. Não me acorde, pois quero me lembrar de minha Aurora colorida e cintilante das baladas estroboscópicas. Renego essa Aurora pálida, essa Aurora limpa, essa Aurora clara de Higienópolis. Quero minha Aurora d’antes, Aurora rainha, Aurora devassa, Aurora rosa, Aurora cálida. Aurora cálida, não calada! Que mão é essa que me desperta? E de quem são, unhas rosadas?

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