Interno eterno

Isso! Quinhentos likes! Pudera! Gabriela fez o protocolar: foto no espelho da academia, decote generoso no centro da imagem, olhos verdes abertos e expostos, sorriso despropositado e bronzeado se relevando por inocentes marcas de biquini. Como chave de ouro, por fim, para não haver overdose carnal, uma frase solta de um intelectual não lido – ”Devemos visar não os bem materiais, mas a beleza espiritual” – servia de legenda para a imagem fotografada com a câmera do Iphone 6.

Em êxtase, passou a próxima uma hora e meia curtindo e respondendo os comentários. Espremiam-se em um desvio padrão, fluindo do elogio cortês até o vulgar e grosseiro. Aos primeiros, respondia invariavelmente com um ”obrigado <3” e, aos segundos, digitava um ”haha para”, em uma advertência contida. Em fato, apreciava estas pessoas, homens e mulheres, mais assanhados. Buscava cultivá-los e sempre os marcava em suas fotos. Atraíam mais audiência. Comumente, alguém explicitar os desejos sexuais com um ”gostosa do caralho”, rompendo com a educação, chamava a atenção de todos, seja por indignação com a rudeza ou por inveja da coragem de não camuflar as reais intenções em hipocrisia educada.

Em determinado  dia, um desses homens rudes, mas corajosos, após um novo comentário sexual em uma foto, chamou-a no chat, pedindo, em tom imperativo, seu celular. Gabriela hesitou por momentos. Foi checar o perfil dele em busca de informações relevantes. Ele tinha mais de mil e quinhentos amigos! Era popular, bonito e pegador! Podia ajudá-la a ganhar mais likes e seguidores no Instagram! Passou o número do WhatsApp, para conversarem.

Lá, o lugar privado mais público, trocaram mensagens. Falou que ela era muito gostosa. Mas precisava mostrar mais. Mostrar tudo, na verdade. Ia ajudar as fotos dela a ganharem mais likes. Falar para os amigos dele a seguirem. Perfeito! Nesta troca de favores, contrato informal do cotidiano, visualizou-se uma foto dos seios. Queria a buceta. Gabriela nunca havia feito isso. Todavia, após se certificar da depilação, contemporizou. Pernas abertas no banheiro de casa. Apareceu uma escova de cabelo no fundo. Pediu vídeo. Ela se masturbava, né? Era só trocar o dedo pela escova. Parecia sensato. Mandou. Gabriela estava tensa. Não gozou. Nem perto. Terminou nos sete minutos porque notou a bateria do Iphone nos dez por cento. Ele gostou. Pararam de trocar mensagens.

Dia seguinte, o WhatsApp, o chat do Face e as SMS (!) explodiram. Depois de ler algumas dezenas de mensagens, entendeu o ocorrido. O homem corajoso, mas rude, expôs o vídeo da escova em um famoso site pornográfico. ”Novinha enfia escova inteira no xotão”. Milhares de visualizações. Centenas de comentários na foto mais recente. Xingamentos, estupefações, indignações e elogios. Estes, agora, invariavelmente rudes. No imaginário dos amigos virtuais, ela não mais precisava ser seduzida, pois o prêmio, sexo, já era garantido. Bastava pedir. Gabriela, para todas intenções e fins, passou ao status de vagabunda. Desde a infância, fora criada para abominar aquilo. Deveria ter aprendido a interiorizar o amor-próprio e a percepção da efemeridade daquela fama. Mas os números brilhavam mais. Dezenas, centenas e milhares. Quem se importava com ”interior”?! O mundo se constrói em cima do sexo e se movimenta pelo dínamo de futilidade. Alicerces de pênis e rodas de likes. Todo o resto é sublimação.

Fez daquela situação uma catapulta, então. Na primeira semana, a popularidade, como a de um meme non-sense, manteve-se constante e alta. Contudo, sendo o mundo virtual como é, a partir do oitavo dia era notável uma decaída. Menos likes do que no período pré-nude, inclusive. Foi desta forma, pois outras garotas, com olhos tão verdes, corpos tão bronzeados, Iphones tão dourados e vaginas tão depiladas quanto a dela se expunham quase diariamente na internet, soerguidas pela convergência entre seus pueris desejo por atenção e a anciã malícia daqueles guiados pela volúpia. Apenas mais um pequeno tremor em um vastíssimo terremoto, Gabriela era medíocre. No entanto, vislumbrada com a fama e incapaz de aceitar o anonimato, a menina maquinou formas de continuar a se projetar. Twitcams eram menos comuns que fotos. Não precisaria se expor como no vídeo da escova: apenas a possibilidade dela mostrar algo ao vivo já daria audiência. Ela era de menor. O proibido e o imoral são os melhores afrodisíacos.

Visualizações razoáveis. Chegou a um milhar quando ela tirou o sutiã. Todos incentivavam. Em poucos lugares se via tantos seres humanos dispostos a motivar outrem. Pareciam pais em um evento esportivo dos filhos. Troca-se apenas o carinho por luxúria e o abraço fraterno por uma punheta suja. Tais seres paternos foram, porém, perdendo o interesse frente a hesitação dela em tirar a parte de baixo. Ela não tinha se depilado bem, coitada. Quatrocentos. Duzentos. Cem. Cinquenta. Exponencialmente, também, crescia o estresse dela. O fracasso da mediocridade, fantasma do natal passado, aproximava-se. Seria esquecida. Gota solitária no mar bravo. Imperdoável!

Desesperada, desceu de supetão as escadas. Voou a mão para a gaveta de facas. A de carne, a maior. Deitou-se na cama. Seria outra nova experiência. Disseram que alivia. É uma troca aceitável: poupa-se a alma da dor psicológica ao infligir ao corpo a física. Nem precisaria ser profundo. Horizontal, para não morrer. Do antebraço até o pulso. Como perder a virgindade, começou-se devagar e com amor. Com a progressão, rápido e áspero. A última, no pulso, foi funda ao ponto de dar vertigem. Tonta, viu algo notável: o notebook estava ligado, com a Webcam, indiferente, olhando-a. Explosiva, ao contrário, era a Twitcam. Dez mil visualizações e ascendendo. Comentários com intensidades ímpares. Seus autores eram pequenos Marqueses de Sade. Poetas sádicos que rimavam sincronicamente as díspares palavras ”gozar” e ”morrer”.
”porra, que tesão do krl”

”continua, corta o outro!”

”seu corpo é seu palacio! parabens, eu te admiru muito”

”seu peito fica lindo manchado de sangue”

Que felicidade! Vinte e cinco mil visualizações! E se cortasse o outro? Mais rápido e mais fundo? Iria para mais de cem mil! Mas o corpo excruciante não seguia a mente motivada. Exigia desmaio.. Gabriela, de costas para câmera, com o líquido rubro no abdômen e seios, permaneceu em letargia por meia hora. Com o resto de força, virou-se para a webcam. Menos comentários. Muitos julgaram ela morta e saíram. Menos de dez mil. Não! Não! Volte a subir!

Esforçou-se para pegar a faca de carne. Passou-a no braço esquerdo. Sem sucesso. Chorou ao ver o contador no cinco mil. Não havia mais força para cortes. Pintara o outro braço com mais de dez deles. Agora, isto era inviável. Mas, e se… Fizesse apenas um? Isto! Chave de ouro, como as frases daqueles intelectuais não lidos! Fazer-se-ia necessário a concentração.  Fechou os olhos. Colocou a mente no comando do corpo.
Após minutos, levantou-se. Usou parte da força para abaixar a calcinha até a metade das coxas. Dez mil. Segurou o instrumento metálico com as duas mãos, em posição de clemência. Doze mil. Mergulhou-a vigorosamente, feito martelo em prego, na parte esquerda barriga perfeitamente chapada. Vinte mil. Serenamente, deslizou-a por entre as entranhas. Trinta mil. Sentia o intestino e seu preenchimento sendo cortado e desmantelado. Caiu. Cinquenta mil.

Um internauta, enquanto se masturbava, notou algo estranho: comumente, nesses casos, o intestino sai da fenda aberta e se esfacela no chão. No caso de Gabriela, no entanto, só se via o sangue, o qual escorria languidamente até a virilha, misturando-se com os pelos pubianos descoloridos, em uma cacofonia de cores mórbidas. Era como se aquele corpo, ausente de entranhas visíveis, sustentasse-se com base no Vácuo, preenchesse-se com Vazio e se justificasse pelo Nada.

Mas, francamente, não importava. Em seu último suspiro, Gabriela viu o contador chegar a cem mil. Era uma estrela. Todos curtiriam e comentariam suas fotos, seguiriam-na no Instagram e seriam amigos dela no Facebook. Haviam visto, afinal, sua essência, seu interior. Lembrariam e gostariam dela, eternamente.

Gabriela chegara ao Nirvana: eternalizou-se e se interiorizou.

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