Do Acaso e Do Talvez

Gabriela é uma publicitária. Ela fez um comercial pra uma marca de carros e, nesse comercial, o personagem que aparece dirigindo o carro é de um desenho animado dos anos 90, que ela gostava muito. O conselho da marca gostou do comercial e o veiculou na TV.

Gabriel esqueceu que não tinha sobra do almoço e está colocando uma roupa por cima do pijama para ir comprar comida. O elevador já estava em seu andar e ele prestes a sair, quando ouviu na TV a voz do dublador do personagem daquela série que ele adorava quando criança. Ele assistiu de longe, por exatos 15 segundos, e saiu em busca da janta com um sorriso no rosto.

Já era tarde, o único restaurante que não servia comida japonesa aberto a essa hora ficava a quatro quadras de distância. Gabriel viu o sinal verde e seguiu reto pelo último cruzamento o separando de um delicioso balde de frango com queijo. Um carro vindo paralelo a ele acerta seu carro e o mata.

O texto não é sobre Gabriel. Sobre o quê é? Já vamos chegar lá.

O efeito borboleta ( A teoria, não o filme ) tem como princípio que o simples bater das asas de uma borboleta poderia alterar o curso da natureza, fazendo com que chova no Japão, ou que um furacão atinja a costa leste americana. Contextualizando, Gabriela pode ter sido a borboleta que matou Gabriel. Ou o comercial. Ou não ter sobrado nada do almoço. Ou aquela área da cidade ser um bairro oriental e só ter comida japonesa. Tudo é o bater de asas que molda, a partir do caos, o mundo.

Se Gabriela não tivesse desistido da faculdade de moda e feito publicidade, o comercial não teria sido feito, e Gabriel não teria se atrasado para sair, e por alguns segundos teria escapado do acidente. Se o desenho dos anos 90 jamais tivesse sido exibido, o comercial não teria sido feito, mas talvez Gabriel não tivesse ficado em casa quando criança para vê-lo ao invés de ir em um acampamento, e talvez nesse acampamento ele tivesse se afogado no lago.

Onde quero chegar com isso? Em lugar algum. Eu só me pego pensando nisso às vezes. Isso não nos torna especiais ou únicos, somente frutos do acaso. E é interessante pensar nisso, porque talvez a mulher que teria descoberto a cura do câncer teve a matrícula na faculdade negada por ter atrasado um dia a data de inscrição por que foi viajar com o namorado. Ou se Steve Jobs não tivesse conseguido superar a falência inicial da Apple, qual marca de aparelhos caros veríamos as pessoas ostentando por ai? Qual seria a maior banda do século XX se os Beatles não conseguissem novamente uma chance numa distribuidora? Como seria o mundo sem os avanços que Nikola Tesla proporcionou? Qual texto sem sentido você estaria lendo se não fosse eu?

Obviamente que a maioria dos atos da maioria das pessoas não é decisivo no futuro da humanidade. E talvez, se eles acabam gerando uma reação em cadeia e, essa reação, resultar na morte de uma pessoa, nem essa pessoa, nem todos os seus descendentes seriam pessoas marcantes no mundo. Mas algumas pessoas são. Algumas pessoas poderiam ter sido. Tudo que poderia ter sido não foi. E tudo que aconteceu formou tudo o que é. Tivesse eu mais dignidade, talvez não acabasse sempre meus textos com esses tipos de frase.

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