Ninfomaníaca

Vou admitir, já, sem delongas, que, assim como a maioria, fui ver esse filme com um proposito: cenas picantes. Não, eu não pensei na protagonista que possui uma doença muito complexa, ou em um estudo social, fui crua e nua ver o melhor filme feminista que já vi. Tanto o volume um quanto o dois preservam seu proposito, que é falar sobre a doença, não como um fetiche machista, mas como algo sério. Já aviso, logo nesse primeiro paragrafo, que existem vários spoilers rolando (na verdade, quase o filme todo tá aqui), então minha dica para o leitor é ir despreparado para o filme, sentir os choques e, depois, sim, ler essa análise.

Antes de tudo, vamos dar nome aos bois:

Stellan Skarsgard (Seligman): O esquerdomacho

Shia LaBeouf (Jerome): O Senhor Male Tears

Charlotte Gainsbourg (Joe): Nossa musa inspiradora

Christian Slater (Pai de Joe): Herói da musa

Jamie Bell (K): Sado morde e não assopra

O resto do elenco não sera importante para minha análise, ou não possui um peso tão significativo no filme.

O filme começa com Seligman achando Joe no beco onde mora. Machucada e desacordada, ele a leva para sua casa. Durante os dois filmes, irá acolher e ouvir nossa protagonista contando a historia de sua vida. Várias observações importantes podem ser feitas em cima de Seligman. Virgem e acima de seus 50 anos, Seligman, apesar de lobo, veste a roupa de carneiro e proclama ser o melhor ouvinte/juiz para quem Joe poderia contar suas historias. Além de ser um homem extremamente culto que ilustra em vários momentos observações inteligentes e eruditas, ele realmente traz um conforto para Joe, tirando o peso da existência por alguns momentos.

Joe começa pela sua infância, quando esta descobre um grande segredo: seu clitóris. Qualquer machista já veria Joe na sua infância/adolescência como uma ninfomaníaca, mas, para estes meus queridos, eu digo que, assim como Joe, muitas garotas descobrem sua sexualidade sem querer, quando crianças, seja em brincadeiras cotidianas ou em intenções inocentes mais diretas por saberem que ‘’tal lugar dá prazer’’. Até o fim de sua adolescência, Joe é mostrada como uma garota diferente da maioria, pois assume suas descobertas sexuais sem sentir vergonha delas. Esta já mostra o menor sentimentalismo perante o sexo quando perde sua virgindade (com Jerome), ou quando funda um clube segredo de garotas que transam pelo prazer, negando todo e qualquer laço amoroso. Até este ponto, coisas como clubes secretos ou nenhum sentimentalismo pelo sexo é normal, afinal é um momento de descobertas. O clube traz a importante observação de que a necessidade de amar também é uma imposição, e nem todos estão dispostos a aceitá-la. Nas chamadas Marchas das vadias, que tanto alarde causam nos juízos masculinos, esta violência é combatida com um tiro de escopeta: ‘’o corpo é meu’’. Por “meu”, entende-se que a mulher pode ou não aceitar um ou mais parceiros, e, inclusive, nenhum se quiser.

O traço essencial de uma ninfomaníaca é ‘’exigir mais de cada por do sol’’, sem se prender em sentimentos socialmente construídos de sexo. Até então, a vida de Joe parece muito boa e confortável, não nos sentimos culpados em nos excitarmos nas cenas de sexo, e até romantizamos a personagem. Mas (tudo tem um “mas”), nos dois filmes, esse nosso pequeno eu que adora transformar tudo em um grande conto feliz é cortado e quebrado pela dura realidade de se ser uma ninfomaníaca. Joe não escolhe quando sente vontade de transar, ela simplesmente sente, quase toda hora. Então, o destino traz um sentimento estranho e até pecaminoso, o amor. Após sua adolescência, Joe cria sentimentos por Jerome, homem com o qual tem um filho. No entanto, Jerome não consegue satisfazer todo desejo sexual da protagonista, dando a sugestão de que ela precisava distribuir aquilo tudo, começando, então, a sair com homens aleatórios.

Outro ponto importante do filme sobre uma ninfomaníaca: ninfomaníacas podem amar, e podem, de verdade, mas sexo e amor são coisas que pela eternidade ficaram separadas. A necessidade de Joe com sexo é como um viciado com drogas, ela sente colapsos de abstinência e, muitas vezes, mesmo quando sua vagina sangra ou quando seu clitóris perde a sensibilidade, ela tenta, desesperadamente, ter um orgasmo. Jerome não a compreende e a culpa por coisas inúteis do dia a dia, inclusive por uma irresponsabilidade com o filho, sendo que Jerome sempre está viajando e nunca passa tempo com ele. Chega ao ponto onde Joe, em sua exigência, apela para o sadomasoquismo, com o Senhor K. Muitas vezes, larga seu filho sozinho em casa para ir às suas aventuras sexuais, e, em uma dessas vezes, Jerome chega em casa, descobre, e Joe nunca mais vê Jerome ou seu filho.

Muitas pessoas simpatizam com Jerome, tendo dó do tal que só sofre na mão de Joe. O sentimentalismo não faz parte de seu ser, e apesar de amar Jerome, uma característica forte em uma ninfomaníaca é o egoísmo natural, quase parte de seu caráter. Em vários momentos em que qualquer ser humano pararia e analisaria a situação, Joe pisa no acelerador de sua natureza, já que a doença não depende da consciência ou vontade própria. Os únicos momentos em que vemos Joe mostrando afeto desvinculado do sexo é com seu pai (herói de sua infância que nunca julgou Joe e a ensinou o valor das pequenas coisas). Apesar da morte deste ser arrasadora, a tristeza é profunda e pequena, pois, no corpo de Joe, os sentimentos não tem espaço.

O filme chama atenção para até que ponto somos apenas instinto, e até que ponto somos consciência. Qual é o limite do que queremos e do que não podemos optar? A personalidade da protagonista se mistura inúmeras vezes com sua natureza incontrolável, fazendo-nos questionar até que ponto somos o que somos.

E, então, os últimos momentos do segundo filme desenlaçam as mil perguntas. Seligman, após deixar Joe dormir um pouco, se aproveita dela, quase que a estuprando enquanto dormia. Joe levanta, assustada com o ocorrido, e Seligman diz: “Mas você já fez com tantos!” E, então, nossa musa atira em Seligman, correndo para longe do corpo e de tudo aquilo.

O fato de Joe ser uma ninfomaníaca não significa que ela vá transar com qualquer homem. Seligman se aproveitou de Joe em seu momento de maior fraqueza, mostrando que toda sua bagagem cultural não superaria seus desejos carnais. Esta cena mostra o quanto todos em nossa sociedade estão doentes com o sexo, e o quanto o mundo ainda é masculinizado, pois, como Seligman diz, esta historia teria o menor valor se tivesse sido contada por um homem. Joe é uma pioneira esmagada pelo mundo e subjugada sem nunca sessar sua personalidade. Afinal, acima de tudo, Joe é o que ela é, uma ninfomaníaca.

MEA VULVA, MEA MAXIMA VULVA!

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