Há crise no Brasil?

Introdução

No Brasil, desde 2014, ano de eleição, tudo se tornou polarizado. No meio de amizades desfeitas, criação de estereótipos e xingamentos, toda discussão se torna improdutiva. Mas eu não desisto ^-^ Procurando sobre a crise econômica atual, deparei-me com uma parcela a negando e outra parcela a pintando como uma grande depressão. Sabendo que a verdade sempre repousa no meio entre dois extremos, decidi procurar alguns dados e dividi-los com os leitores do Maturitatis.

O ideal do artigo é ser mais expositivo do que argumentativo. Isto é, mais colocar os dados que julgo corretos e verdadeiros, indicando as fontes, do que discutir as causas dos mesmos (tarefa, esta, para a qual não me julgo apto). O objetivo, portanto, é fornecer uma base fácil e confiável para não-economistas, como eu, começarem a entender o assunto e a se posicionar de forma mais concreta frente às enxurradas polarizadas de argumentos que encontraremos por Facebook a fora.

Começarei conceituando crise, recessão e depressão, e analisando os dados, a fim de notar se a realidade brasileira se encaixa em qualquer uma dessas. Depois, discutirei alguns argumentos que rondam o tema. Por fim, deixarei explícitas as minhas conclusões.

Espero que seja um artigo tão útil quanto foi demorado de se fazer! :3

 

1 – O que é uma crise econômica?

O primeiro passo para uma discussão sã deste tema é definir os termos base. Sem isso, corremos o risco de discordarmos um do outro, sem, no entanto, estarmos falando da mesma coisa. Assim, o que é uma crise?

Sendo economia uma ciência humana, há discussão de conceitos. Portanto, a depender da escola econômica, as características de uma ”crise” serão diferentes. Ilustrando, um marxista tende a achar que crises econômicas são cíclicas e inerentes à propriedade privada, e, eventualmente, levarão ao final do capitalismo. Um austríaco, por outro lado, coloca as crises como decorrentes da intromissão do governo ou de fatores naturais.  De qualquer forma, tais diferenças resultam mais de como cada escola vê as CAUSAS de uma crise do que do conceito em si. Assim sendo, pode-se prosseguir com relativamente pouca discussão.

Definindo em termos abstratos, uma crise econômica é quando, em relação a uma média histórica e levando em conta aspectos locais, há, de forma abrupta, escassez dos componentes econômicos. Então, solidificando, caracteriza-se uma crise quando, levando em consideração níveis histórica e localmente usuais, o nível de consumo, produção, comércio ou outros serviços está baixo por um período de tempo considerável e ocorreu de forma abrupta.

Em exemplo, na Grécia, temos os seguintes dados: em 2011, o PIB diminuiu em 9,1%, enquanto, nos anos anteriores (2006-2010), o PIB havia variado entre crescer 5,7% e diminuir 5,5%. Claramente, 2011, no sentido de crescimento de PIB, foi um ano diferente. Como este ambiente de queda atípico persistiu (e se expandiu para outros indicativos, como o desemprego), diz-se que a Grécia adentrou em uma crise econômica.

Tendo isto claro, cabem algumas extensões: quando a crise se prolonga (como foi o caso da Grega, que continuou caindo) por dois ou mais períodos (anos, trimestres ou semestres), temos o nome de recessão. Após vários períodos, entramos na chamada depressão econômica, como foi o caso do período pós quebra da bolsa de 29, nos EUA, em que os déficts da economia duraram até o começo da segundo guerra (10 anos, portanto!).

 

2 – O Brasil enfrenta uma crise econômica/recessão?

Seguindo a definição acima, o Brasil está em crise econômica se: seus indicadores econômicos apontam, em relação à média histórica, uma queda abrupta.

Eis o momento em que se entra embate: quais indicadores devemos buscar? Comumente, há um viés político aqui. Naturalmente, mesmo em países com evidentes crises, haverá setores da economia prósperos (basta lembrar, por exemplo, que bancos se dão muito bem com inflação alta), da mesma forma que, em tempos de boom econômico (o inverso da crise), haverá setores degradados.  A desonestidade intelectual existe quando, na escolha dos indicadores, pega-se somente aqueles que atendem ao seu interesse: se advogo que não há crise, por exemplo, exponho somente dados positivos e escondo os negativos.

Desta forma, procurei dados de ambos os tipos. No entanto, como o tema é uma crise nacional, dei preferência a indicadores macro: PIB, desemprego e inflação, por exemplo. Outros dados, como o consumo, que são mais específico e diversos (e que eu não consegui achar) eu separei uma sessão especial. Dito isso, vamos ao que encontrei:

PIB

 

grafico 1

Disponível em http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/pib/defaultcnt.shtm

Sintetizado em : https://pt.wikipedia.org/wiki/Evolução_do_PIB_do_Brasil

Sendo o gráfico claríssimo, nota-se que, de 1995 até 2013, apenas um ano, 2009 (dado a crise nos EUA), o crescimento foi abaixo de 2014. Desta forma, notavelmente, 2014 foi um ano ruim para economia, embora não tenha sido de recessão.

Caso 2015 também seja abaixo da média, ter-se-á uma recessão. No momento em que escrevo este artiguinho, não há uma publicação oficial do Banco Central sobre o PIB brasileiro. No entanto, há, do próprio banco e de outras fontes, algumas previsões: segundo analistas do Mercado Financeiro, a retração será de 2,9%; para o FMI (Fundo Monetário Internacional), a queda será de 3%; da perspectiva do Governo federal,  teremos 2,8%; por fim, o próprio Banco Central prevê um recesso de 2,7%.

Com órgãos diferentes apostando em redução de pelo menos 2,7%, e sendo a pior redução desde 95 (início do Plano real) apenas 0,1%, pode-se dizer, com certa segurança, que o Brasil, em questão de PIB, inseriu-se em uma crise econômica e, além disso, recessão.

 

Desemprego

A taxa de desemprego no Brasil é calculada pela divisão da população desocupada pela população economicamente ativa, sendo divulgada mensalmente pelo IBGE. Na fonte, há um link para todos os valores desde março de 2002 até novembro de 2015*. Deixarei um gráfico comparativo desde janeiro de 2013 até novembro 2015:

grafico 2

Disponível em

http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/trabalhoerendimento/pme_nova/defaulttab_hist.shtm

https://pt.wikipedia.org/wiki/Taxa_de_desemprego_no_Brasil

 

Nota-se o seguinte: em comparação com 2013, o ano de 2014 – ano de retração do PIB e início da suposta crise – teve índices de desemprego, salvo em novembro e dezembro, sempre menores. Apenas por isso, não se poderia concluir haver uma crise, no que se refere a empregos.

Contudo, em 2015, parece haver uma anormalidade: quase todos os meses possuem taxa de desemprego maior do que nos dois anos anteriores. Ademais, com exceção de novembro, a taxa cresce ou se mantêm de mês para mês, algo diferente dos anos anteriores, em que a tendência era diminuir.  Ademais, outubro de 2015 abrigou a maior taxa de desemprego (7,9%) desde Agosto de 2009 (em que ela foi de 8,1%). Vê-se, portanto, o pior cenário em seis anos.

Então, tendo visto os dados de 2015, pode-se dizer haver uma crise em relação ao desemprego. Contudo, como isto não ocorreu em 2014, uma recessão – dois períodos de resultados negativos – não pode ser concluída, ao menos, levando em conta apenas o desemprego. Só se poderá afirmar isto se 2016 também for um ano com taxa de desemprego maior do que o esperado. Como, literalmente, estamos na primeira semana do ano, preferi não usar as previsões para prosseguir o raciocínio.

 

Inflação

A definição de inflação é: o aumento generalizado e persistente dos preços. Para medi-la, realiza-se a coleta de preços de diversos nichos econômicos: construção civil, cesta básica, commodities, etc. Sendo assim, para avaliar se a inflação de um país está ou não sob controle, é importante pegar o índice mais expansivo possível. No Brasil, geralmente, isto é feito pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao  Consumidor Amplo) e pelo INPC  (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), divulgados pelo IBGE:  neles, calcula-se os preços finais efetivamente cobrados do consumidor e, assim, o custo de vida médio das famílias brasileiras (o IPCA contempla famílias que ganham entre 1 e 40 salários mínimos, enquanto o INPC o faz com aquelas que ganham entre 1 e 8).

Para isso, escolhe-se uma cesta de produtos – amostra do consumo da parcela da população em questão – e se analisa a alta dos preços neles. Desta forma, se em um mês um produto custava 100 reais e, no posterior, 105, a inflação foi de 5% (o preço cresceu 5%).

O IBGE possui, em seu site, uma série histórica, desde 89, do IPCA. Dado que ele é o índice usado pelo governo para fazer suas metas, usá-lo-ei como base para discutir a inflação. Colocarei aqui, no entanto, um gráfico comparando, apenas, os anos de 2013, 2014 e 2015, como feito no caso do desemprego. A fim de confirmar outras considerações feitas ao longo do texto, favor consultar a tabela:

grafico 3

E, anualmente, não considerando dezembro de 2015, temos:

grafico 4

Assim, analisando estes gráficos e o resto da tabela do IBGE , nota-se que: até 2014, ainda que a inflação venha aumentando desde 2012, ela se manteve sob controle, ascendendo em pequenas porcentagens. Em 2015, no entanto, ela decola de forma não vista desde a passagem de 2001 para 2002. Ademais, mesmo sem considerar o mês de dezembro, já é maior inflação acumulada desde 2002 (quando ela foi de 12,53%).

Então, a conclusão parece ser parecida com a do desemprego: enquanto 2014 não foi um ano tão ruim, 2015 degringolou, indicando crise. Todavia, novamente, não se pode falar em recessão sem esperar os resultados de 2016.

 

3 – Adendos e opiniões

Hóteis lotados

Comumente, a fim de se argumentar que não há uma crise, cita-se que houve alta de consumo e procura em alguns setores. De fato, isto é real: no final de ano, vários hóteis, em diferentes regiões, ficaram lotados. O mesmo, dizem, ocorre com outras áreas, demonstrando não haver crise.

Da minha visão, este raciocínio é  falacioso por três motivos:

  • Frente ao fato de indicadores macro fornecidos pelo governo (PIB, inflação e desemprego) colaborarem para a tese da crise econômica no ano passado (2015), o bom andamento de alguns setores pontuais não é evidência grande  o suficiente para afirmar não haver crise. Na década de 80, reconhecidamente a ”Década perdida” da economia brasileira, a indústria de bens de consumo apresentou aumento de 1,1%, o que realmente não é argumento para negar os problemas da época. Em analogia, a camisa de couro não pegar fogo não invalida o fato de ainda haver um incêndio.
  • Mesmo havendo crise, ainda pode haver razões para esses setores crescerem. De fato, no caso dos hotéis, pode-se apontar que o aumento na procura pode advir da alta do dólar: há um grande incentivo para estrangeiros entrarem no país, bem como para a população brasileira preterir as viagens internacionais em favor do turismo interno.

Ademais, ao se apontar alta no consumo de outros setores, faz-se necessário considerar um conceito econômico: o de bens inferiores. Nestes, o consumo tende aumentar quando a renda da população cai, da mesma forma que diminuem quando ela aumenta. É bem intuitivo, em fato: vamos imaginar que, no meu padrão de consumo, eu goste de comprar filé-mignon. Caso a minha renda rebaixe consideravelmente, terei que, para continuar comendo carne, comprar embutidos, que são as carnes mais baratas possíveis, como a salsicha. Desta forma, a salsicha ganharia mais um consumidor. Neste exemplo, o embutido ”salsicha” é o ”bem inferior”, que terá maior consumo conforme a crise avança. Portanto, alguns setores podem estar avançando justamente porque a crise EXISTE, e não poque ela não existe. Cabe notar se este não é o caso de certos produtos, como entretenimento (Netflix aumentou as assinaturas, recentemente).

 

  • Quem a crise realmente está afetando? Indicar setores pontuais crescendo pode apenas indicar que, para a população que consome aqueles produtos, não houve significativa mudança no atual estado da crise. Realmente, qual classe social frequenta hotéis à beira da praia? Seria interessante avaliar a renda de tais hóspedes, bem como a nacionalidade, dado o primeiro motivo. Desta perspectiva, negar a crise pode, ironicamente, ser uma atitude levemente elitista. Em exemplo, os bancos lucraram imensamente em 2015, porque seu produto, o crédito, é extremamente valorizado em épocas de crise.

 

Mídia manipuladora

Em alguns casos, apesar de não negar que 2015 foi um ano de crise, alguns notam que a grande mídia tende a piorá-la, a fim de aumentar a pressão no governo. De fato, é uma possibilidade: como vimos, 2014, em termos de desemprego e inflação, não foi um ano extremamente atípico, tendo, o problema econômico, ocorrido apenas em 2015. Caso a mídia use tais problemas para apontar uma ”recessão”, termo inadequado, ela, realmente, estaria manipulando informações, com alguma intenção escusa.

Ademais, vale dizer que também seria má-fé da mídia propagandear a crise como ”a maior de todos os tempos”, bem como os índices dela como ”piores da história”. Analisando as tabelas, vê-se que, na década de 80 e mesmo 90, o desemprego chegava a dois dígitos constantemente, bem como a inflação (esta, a inacreditáveis quatro dígitos). E o próprio PIB, apesar do não crescimento de forma significativa em 2014 e a regressão de 2015, ainda continua com grande magnitude.

grafico 5

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Evolução_do_PIB_do_Brasil

Por fim, também caracterizaria manipulação apenas mostrar os dados negativos de 2015, sem levar em conta os aumentos de consumo pontuais aqui demonstrados.

Em minhas pesquisas, achei um bom exemplo do terceiro caso no texto de Pablo Villaça. No final deste, há um vídeo ironizando a expressão ”apesar da crise” que é, deveras, muito constante em todos os jornais que pesquisei, demonstrando certa atitude tendenciosa.

Não vi exemplos, no entanto, do primeiro e do segundo casos de manipulação, embora eu esteja muito aberto para que leitores linkem nos comentários algo referente a isso ou apresentem e argumentem sobre outras formas de manipulação.

 

 

4 – Conclusão

Na minha opinião:

I – Em relação a PIB, o biênio 2014/2015 caracterizou-se por  uma recessão econômica.

II – Em relação ao desemprego e a inflação, 2015 foi um ano de crise. O biênio 2014/2015 não foi de recessão, todavia.

III – A crise é a pior desde o começo do século XXI. Não obstante, não é nem perto da de 1980, ou mesmo dos primeiros anos de 1990.

IV – O fato de setores pontuais terem crescido não é argumento para negar a crise ou diminuir sua relevância.

V – A mídia, embora se demonstre tendenciosa, não manipula os dados.

E é isso.

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