Sujeito indeterminado

Andava com a ansiedade de um estudante em seu primeiro dia de aula em direção ao metrô. Chequei se havia pego dinheiro, carteirinha da escola e goma de mascar. Tudo certo, aquele seria o dia de superar um medo real existente há alguns meses.
Continuei subindo a ladeira por cerca de 5 minutos, em muitos prováveis 30 segundos estaria em frente a estação. Me olhei rapidamente no reflexo do vidro de uma banca de jornais, ajeitei o boné e continuei meu caminho.
Lá estava ela, sua regata larga realçava os ossos da clavícula proeminente e a cor branca; sua pele alva. Suas pulseiras balançavam enquanto digitava algo distraidamente em seu celular.
“Vamos?” Eu disse e ela confirmou com um aceno de cabeça.
Nos olhamos sem saber como nos cumprimentar em meio a umas 20 pessoas que estavam nas ruas e restaurantes em volta, aproveitando uma tarde de quarta feira do recesso de verão.
Demos um beijo de bochecha.
Descemos as escadas e entramos no vagão novo da linha. Muito frio. Conversávamos nervosamente sobre assuntos da escola, festas e vestibulares.
Estação Brigadeiro – desembarcamos.
Num momento de vontade, peguei em sua mão – que não estava tão suada quanto a minha- e caminhamos até a avenida Paulista.
Logo no primeiro semáforo, atraímos olhares curiosos e sorrisos de canto de lábio por parte de homens gordos de meia idade.
Continuamos nosso trajeto delicioso, e sem rumo tentando aproveitar ao máximo aquela primeira oportunidade tão angustiante de um encontro como amantes. Mais olhares, mais sorrisos de canto de homens gordos e de meia idade.
Decidimos então que assistiríamos a um filme no cinema. Compradas as meia-entradas -mediante a apresentação da carteirinha escolar-, fizemos questão de comprar assentos na última fileira. Já na sala, em meio a algumas carícias observamos um senhor de idade sentar a duas cadeiras de distância de nós. Ignoramos sua presença e, no decorrer dos primeiros
dez minutos de filme, eu e ela trocamos um beijo e percebemos que a atitude do senhor foi se afastar para um lugar bem longe de nós – oito fileiras, especificamente.
O filme decorreu tranquilamente com mais algumas carícias e beijos, como ocorreu com os outros sete casais que estavam na sala. Acabado o filme, fomos comprar presentes de ultima hora para o natal. Uma loja logo me atraiu por suas vitrinas coloridas e seu cheiro de cosmético. Entramos.
Logo, um jovem de, no máximo, 25 anos nos atendeu e perguntou, após sugerir diversos shampoos e sais de banho :
“Vocês duas são irmãs? ”
Nossa reação foi olharmos uma para a outra e rirmos afirmando em uníssono :
“Não! ”
Sabíamos que levaria tempo até que as pessoas começassem a associar, à primeira vista, dois jovens do mesmo sexo como um casal.

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