Sons do silêncio

Isaías estava velho, mas conservava o ouvido absoluto que lhe foi tão útil durante toda a sua vida de maestro. Despertado pelo agudo típico da voz feminina jovem, censurou as enfermeiras por cochicharem alto demais. Elas se entreolharam e assentiram educadamente, retirando-se da sala. Isaías ouviu por de trás da porta xingamentos dirigidos a ele. Continuavam cochichando alto, aquelas escandalosas. Progressivamente, a audição absoluta começou a lhe causar problemas. Nos primeiros dias, quando chegara solitário e acometido por formigamentos impróprios e pequenas dores no peito, alegrava-se em ouvir as sinfonias dos recém-nascidos. Era reconfortante considerar o início da estadia daquelas pequenas almas. Quantas imensas alegrias não teriam na vida? Quem sabe uma delas não mudasse o mundo? Pequenos Gandhis e Rosas Luxemburgo. Deliciava-se com o potencial infinito de cada vida humana!

No entanto, com a manutenção da sua permanência, dada a persistência das dores e novos problemas encontrados naquele corpo invaronil de 94 anos, começou a se atentar mais aos sons nefastos que preenchem um hospital. Prendeu-se às cantorias fúnebres dos quartos vizinhos.Numerosas vezes, atento às movimentações, entendia que alguém havia morrido. Era uma orquestra muito bem disciplinada: toda vez que o monitor cardiáco pronunciava, um som contínuo, as enfermeiras, com os sapatos rasteiros esfregando o chão liso, gritavam os socorristas; estes traziam junto as parafernalhas médicas, enchendo o local com sons metálicos; gritava-se imperativos de ação por alguns minutos; silêncio; por fim, um médico apresentava a notícia à família. E este foi o requiém dos homens comuns: para celebrar suas passagens da cama para o caixão, não havia o talentoso Mozart ou um sensível Fauré, apenas a musicalidade insensível dos objetos contemporâneos.

Depois, com a cirurgia para desentupir as safenas já marcada, levou os olhares para o próprio quarto. Das camas ao seu lado, só partiam os graves da dor. Na cama à esquerda, um jovem, de no máximo vinte anos, sofrera um acidente enquanto ajudava o pai a limpar o telhado: desequilibrou-se e, na queda, fraturou algumas vértebras da coluna. Paraplégico, se tivesse sorte. Jamais novamente sentiria no colo o peso de uma pessoa amada, prazer este que tanto coloriu a vida de Isaías na primeira juventude. Acompanhando a dor dele, havia, à direita de Isaías, um homem de meia-idade que, após o airbag se ativar demasiadamente perto de sua face, teve lesões nos olhos. Cegueira total. Privado para sempre de admirar uma grande pintura, como uma paisagem de Caspar David Friedrich, pintor favorito de Isaías, ou de derramar lágrimas após um pôr-do-sol inefável. Agoniou-se com essas situações. Mas certamente os médicos fariam algo para ajudá-lo. Como solistas a iniciar uma ária após uma parte demasiadamente barulhenta de uma ópera, trariam harmonia para a sinfonia daquelas almas tão castigadas.

O último som que lhe perturbou antes da cirurgia foi novamente um cochichar, dessa vez, dos médicos. Comentavam sobre Isaías. Algo sobre fraqueza e chances. Estas muito baixas e aquela muito alta. Perturbaram o maestro. O que seus heróis queriam dizer? Haveria algum problema? Apesar de estar cercado de dor e sofrimento, jamais havia pensado na possibilidade dele próprio sucumbir e morrer. E, agora que considerava isto, convencia-se de que não estava próximo do túmulo. Afinal, se morresse na cirurgia, seria uma morte inesperada, daquelas que nos pegam desavisados. E a Morte na velhice não é assim. A Morte na velhice é escandalosa. Quer nos recompensar por termos evitado todos os infinitos perigos, como um airbag ou uma queda do telhado, que a vida nos apresentou. Para isso,usa nossos ossos quebradiços, nossos escarros necessários, o ranger das dentaduras e nossos balbuciares da demência como instrumentos, a fim de compor a overture que anuncia o coral de sua chegada. E Isaías, mesmo com noventa e quatro anos, não havia ouvido sequer uma nota da introdução da ópera final: sentia-se forte como um touro. Seria muito desfeita da parte Dela.

Ou seria ele que estaria iludido? Não havia presenciado tantas mortes para ser tão categórico sobre as cortesias Dela. Talvez Ela sempre adentrasse de supetão. De fato, mesmo nenhum de nós possuindo as próximas horas garantidas, qual o homem contemporâneo que acorda de manhã se imaginando morto antes do crepúsculo? Mesmo aqueles seriamente moribundos, agonizando na cama, ainda possuem esperança que a medicina os salvará. Isso, a ciência médica! Frente aos jargões técnicos, aos jalecos pomposos e às estatísticas, que tudo controlam e definem, toda morte é inesperada! Imersos na ilusão de sermos curados, ficamos surdos para os acordes fúnebres! Consciente agora da falibilidade de seus heróis, sabia da impossibilidade de ouvir a ária médica. Eles estavam mudos. Desentupiu os ouvidos, intentando ouvir os sons realmente importantes. Ah, lá estava! O estralar dos ossos , o silêncio da perna incapacitada de aguentar o resto do corpo, o fechar dos olhos quase cegos. Percebia tudo. A overture havia se iniciado. Apreciando-a, olhou com resignação para seus colegas de quarto. Tão imerso em notar a miséria alheia, havia se esquecido da própria. Se o cego e o paraplégico tiveram os dons dos sentidos retirados em extraordinários acidentes , Isaías o teve pela banalidade dos anos. Seja em segundos ou em décadas, o tempo invariavelmente triunfa, injustificando, com sua eternidade, nossos efêmeros prazeres e realizações. Não há médico que saneie o desfilar dos anos.

Após cada dedução de um axioma da vida, a música aumentava em grandeza. A Morte se aproximava, sedenta por levar uma alma tão elevada para repousar ao seu lado. Adentrou o quarto a Inevitável. Isaías a esperava com dignidade, sem choros de súplica ou de alegria. Entendera, nos seus últimos momentos, que já, há muito, ultrapassara o tempo médio nesta terra.  Dava-se por satisfeito. Ela, admirando-o, concordou, apenas assoprando um adendo gentil em seu ouvido, citando Sêneca: ”Viveis quanto séculos quiserdes, nem por isso Eu serei menos eterna.” Encerrando a frase, tocou, Ela, o monitor cardiáco. Som contínuo. Findou-se a overture. O réquiem dos homens comuns havia se iniciado. Enquanto as enfermeiras ainda gritavam aos socorristas, Isaías ouviu, como em seus primeiros dias no hospital, um chorar de um bebê. Nova vida sendo partada do definhamento da velha. Principiou um sorriso frente às possibilidades do recém-nascido, mas a Morte o olhou com censura, cobrando diligência. O maestro fechou os lábios. Como um homem submisso a sua meretriz, compreendeu o que Ela intentava passar. Tentou pronunciar. Muito fraco. A Inevitável o pegou ternamente pela mão e, mais uma vez, suspirou sabedoria: ”A primeira hora de vida é uma hora menos que tereis para viver”. Progressivamente, suas ferramentes foram lhe deixando: tato, olfato, paladar, memórias… Tudo evaporou para se juntar ao Nada. Menos o ouvido absoluto. Este, quintessência, persistiu, heroicamente, recusando-se a desaparecer e buscando avidamente um novo som para apreciar. Nada encontrou. Percebeu ali não haver mais nenhum réquiem, ária ou overture. Entendeu a morte. Ei-la: o silêncio contínuo, eterno e indefinível.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: