Meu Pornô na sua Chanchada

Marcia Metinimim estava só de avental naquela tarde solarosa e quente da Bahia. Sabe que faz bem pro corpo ficar assim, exposto? Não por coincidência que a pele fica visível. Que contraste daquela morena com o avental ensopado de lavar a louça do almoço. Não fugiu de comentar. Estou toda molhadinha. E sentiu saudades do ex-namorado, Robertinho. Mas o Robertinho que se foda, é mais bonito falar da Marcia.

Dando no rádio as notícias das onze. Propaganda. Propaganda. Preso. Morto. Fugitivo. Propaganda. Subiu pro quarto e sua bunda rebolava bonito em cada degrau. Cogitava já um banho pra tirar aquele suor do corpo que a fazia brilhar. Até o diretor mandou cortar e regravar. Puta, que espetáculo! Era um tal de água que saia do chuveiro e corria brilhante e transparente em rios pelo seu contorno ensaboado. O que é isso? É o novo sabão de coco da Venda da Glória? Sim! E lhe deixa um cadinho mais gaieira por mais de dois sol do uso. Saiu do banheiro pingando. Secou-se.

E quem caralhos é você? perguntou, observando o estranho que se abrigava nas sombras de seu closet. Era Reginaldo Botanocet, a raposa de rapina do sertão da Bahia. O inimigo público número um. Com sua incomparável fibra de altivez, já assaltara mais de cinco agências bancárias, cada uma, mais de cinco vezes. Depois, depositava o dinheiro novamente em suas contas nessas mesmas agências. Vivia de juros, numa soberba sem fim de luxúria. E sua virilidade era da fama dos botecos e dos puteiros de Salvador. O cabelo engomado, o jeans rasgado e a regata de pano batido eram suas marcas registradas.

E o moço veio cá se esconder de polícia? Sabe que na cama minha é bem mais escondido. E tira esses panos teus que é de não dar pinta pros farda. Reginaldo Botanocet, o falcão da estepe, no meu armário. E o senhor vem cá comigo que é de boa intenção?

Claro que venho, sim. Não sou mau ladrão, não, nem quero só te comer. Sou ladrão que preza a família e a população, essa gente bonita da Bahia. Nem todo pornô chanchada é assim de fazer piada. Agora, sou respeitoso, mas sou garanhão. E, já que tô aqui, é de fazer um servicinho na senhora.

 

A                                                                                                                               I

AB                                                                                                                     XI

ABA                                                                                                     AXI

ABAC                                                                               CAXI

ABACA                                                    ACAXI

ABACAX                   BACAXI

ABACAXI

 

E o senhor te apetece um café?

Só se no cuador for mais forte.

Então eu te preparo uma xícara, então.

Mão! Digo, não. Opa, olha essa mão boba se metendo onde não é chamada.

Ah, mas ela é chamada, sim, moço. Chamada e muito. Chamada das chamas da minha fogueira. Que é centelha, nem puta nem santa, apenas pentelha.

Mas que muito me encanta. Agora traz essa Sorocaba aqui, que eu vou mostrar o meu Fernando. Vamos fazer uma voçoroca nessa sua barroca.

O homem sentou na cama e a mulher, no colo do homem. Era um tal de sobe e desce que eu não desejo pra nenhum colchão de mola. Mas sem tirar a brilhantina do cabelo, nem despentear o bigode, que todo cabra macho tem seu mote. Era a cama grudada no chão e o chão caindo no teto, eram as roupas pelo tapete que ditavam o errado e o certo. E as portas estouraram abertas.

Baixou lá seu polícia e os delegados e tudo que é mal alcovitado. Baixaram dançarinas do 51 flores, da esquina de baixo. E o puteiro já estava armado. Os guardas não resistiram a essa laia de moças, não. Algemaram todas pelo punho num corrimão. Começou o espetáculo da Rua Coronel Ortega do Pinto Flácido. E que alvoroço! Sem nem introduzir as garotas, começou a apresentação.

Era uma fila de moinhos de pás de pernas, girando e girando, sem a menor pretensão. Uma roda de samba se ajuntou na porta e tocaram com o sax do Jazz Galão. Aprazível, formidável! Veio gente até da Consolação. Rua das Pedrinhas, Osvaldo da Hora, Paraguari, Rua da Glória. Santa Maria, Santa Luiza, todas as santas e todas as outras. Afrânio Peixoto, Dr. Almeida, Carlos Gomes, todos doutoros e cavalheiros. Direta Cruzeiro, Rua do Curió, Periperi todo na travessa do gal. Paumole.

Entre médicos e advogados, pais de santo e padres rogados, cafetões, damas da noite, juízes, brancos, pretos, pobres, ricos, pardos e jornaleiros, corriam as crianças e cantavam. Ih! Olha a cabeleira do Zezé! Será que ele é? Será que ele é? E a noite cantava! Batucada no meu morro, que Oxum, oxalá, não quisera me amostrá! Ei, ô, carnavá, que é bom demais de se levar. Ei, ô, carnavá… Tinha uma mulata que dizia que era filha, que dizia que era amada, que dizia que era flor. Flor, ô, flô, vem fazer calor no meu cobertô!

Sabe do que falta num forrobodó baiano? São as madres do Convento do Salvador! Olha aí a Madre Cesariana! Cabô a festa. Acabou? Acabou nada, sim, senhor! Que a burlese tá só começando. Olha as madres importando um frevo recifense! Bota essa canela pra rezar! Sobe uns oitenta dedos essa bata! Agora, sim. CARALHO! É o Tim maia! Só não vale botar as cobrar pra brigar e colar velcro, o resto vale tu… ih, foi… mas que se foda! Eu só quero amar.

Robertinho veio visitar a Marcia. Quem? A Marcia, lembra? No epicentro da putaria, estavam Reginaldo, Marcia, suor e saliva. Robertinho, acabou entre nós. Já tava chato há um tempo e… já tava chato há um tempo e você… isso! Isso! Isso! Vai, mais forte! Ah! Ah! Ah! Estóra essa buceta, falcão! Eu vou gozar! Opa, goza aí em paz, Marcia, não queremos te atrapalhar. Vamos olhar pro Robertinho Caradicu um pouco.

É de se imaginar que o espírito estava quebrado. Ledo engano. Robertinho tava é de olho na Preta Flor, a stripper mais concorrida da cidade. Colou a vista naqueles peitos esvoaçantes e nos cachos que balançavam e no pau da fina Flor. Opa, mas tem coisa? Tem, oxi! claro que tem. Robertinho tava era doido e não queria era nem saber. Tirou Preto Flor de canto e foi com ele fazer jardinagem.

Marcia já era toda maquiada de porra. Era hora da saideira, todo mundo naquele abraço. Robertinho levando aço. Freira virgem que nem Maria, porém Maria Madalena. Não saiu médico sem sífilis ou gonorreia, nem padre que não jurasse pagar pensão. Mãe com pai e pai com filha. E a filha? Deu pra toda a família. Deu pro tio, deu pro avô, deu pro irmão e deu pro primo, deu até pros vizinhos. E a mãe deu pro pescador, pro padeiro, pra polícia, pras amigas, pro marceneiro, pro poeta, pra parteira, pra professora, pro padeiro, pro pedreiro, pra arquiteta, pro carteiro, pro cachorro e pro jumento. E Robertinho levando aço.

Ai, Falcão, essa sua pistola tá mais pra um canhão!

Gata, mãos ao alto, isso é um assalto. Abre a porta do cofre que hoje é dia de depósito.

Puxa o meu cabelo! Me chama de santa, me chama de insana, me chama de puta. No fim, todas dão no mesmo lugar. Me espanca, me cospe e me chupa! E depois me beija.

É pra já, tchutchuca. E depois a gente cai na estrada. Mãos ao alto, isso é o asfalto! Mas antes temos que encher o tanque.

Então enche, enche tudo, Falcão! Enche até a boca. Me faz gritar até ficar rouca, me faz gozar feito uma louca!

Que obra de arte, gozadas à parte. Que horror dessa vida esta deturpada metade. Que horror, e que graciosidade! Graça da qual a outra metade se evade. Mas a cidade alta sempre deu uma fugida pra cidade baixa. O 51 flores não abre pra pobre, não é caridade, nem trabalha com moça mulher, maior de idade. Mas era tudo belo e simples quando ainda era só na rua da baixada. O problema foi quando virou chanchada. O problema foi quando o cinema botou o lixo na boca, quando a Boca do Lixo já deu à Luz nossa miséria verdade. No fundo do mato-virgem, nasceu a pornochanchada.

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