A automatização e seu efeito sobre nós

Diante de um cenário em que a produção e sua consequente acumulação de riquezas são gradativamente mais valorizadas, estimam-se os comportamentos em massa em detrimento da singularidade. Deste modo, preza-se pela automatização das ações mesmo que isso signifique agir repetitiva e inconscientemente.

Percebi claramente tal condição há algumas semanas: ao comprar um novo celular e ser obrigada a aprender os atalhos e ferramentas do estágio zero, incomodei-me com o fato do botão do volume encontrar-se do lado esquerdo, enquanto que, no antigo, era do lado direito. Intrigante. Por estar acostumada a uma característica, não via a necessidade de entendê-la, apenas decorei, mas ao me deparar com uma situação contrária, senti um desconforto.

Similar a essa situação, no filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, Amelie possui a característica de interferir na vida de outras pessoas e resolver seus problemas – porém teme resolver seus próprios. Há uma cena marcante na qual ela resolve dar uma lição ao dono da mercearia local Collignon, pois o mesmo é antipático e vive humilhando seu assistente Lucien. Ciente de que aquele possui uma vida monótona, Amelie entre na casa dele:

(para quem não entende francês, não se preocupe, os diálogos não são essenciais)

Após a sabotagem, é comprovado que Collignon vive entorpecido e por isso não percebe, tendo como exemplo, quando seu despertador toca muito mais cedo, às 4 horas da madrugada, levantando-se mesmo assim para ir trabalhar. Constata o ocorrido apenas quando se depara com a rua escura e vazia.

Tal automatização se faz presente, no entanto sutil, em nossas vidas. Uma vez que olhamos mais para o outro, é, de fato, mais difícil de notar hábitos viciosos próprios. Ainda que pareça imperceptível, o comportamento é internalizado através de influências externas, e, por mais simples que as ações sejam, buscamos simplificá-las ao máximo, muitas vezes irracionalmente, a ponto de preterir esforços físicos e mentais.

Por tantas vezes fazemos atividades sem mais nos darmos conta, pois a repetição converte-as em costumes, e o que uma vez era racional – como abrir uma porta – passa a ser inconsciente, e, quando é preciso mudar, torna-se difícil a adaptação.

Uma circunstância banal como a do celular pode ser mais nociva do que parece, pois, ao ser projetada para ideais, é responsável pela intolerância, violência e alienação. Além disso, estimula-nos a preferir uma zona de conforto a buscar inovações, defender ideais estabelecidos (como o machismo) a não lutar pela renovação (como o feminismo).

Automatizar os nossos comportamentos, na atualidade, é inevitável, embora ela nos impeça de encontrar caminhos ainda não trilhados e oportunidades ainda não exploradas. Porém, por fim, aquele que por vezes consegue escapar desse fluxo para dar seus próprios passos, desvia de anseios superficiais e recusa um futuro genérico.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: