Só odeio uma pessoa

No meu cursinho tem um cara, o Antônio, que eu odeio. E não é um sentimento superficial, odeio na plena definição da palavra. Na verdade, o cara só continua vivo por pressão externa. Se matar/estripar/torturar não fosse crime, além de mal-visto, com certeza já teria aplicado esses infinitivos nele. E olha que eu não sou disso. Curto ”Quebrando Tabu”, sou a favor da não-violência, faço umas doação para orfanatos e frequentei altos workshop budista em Angra dos Reis. Mas, porra, esse Douglas não dá. Ele fala demais. E é tudo arrogância. No cursinho, dia desses, o professor de História perguntou o que D. Pedro I tinha feito em 1822. E lá foi o Douglas gritando ”Independência”. O maluco é incapaz de identificar uma pergunta retórica. E, ainda por cima, depois de confirmar o ”acerto”, fica parecendo um pavão, cheio de vaidade masculina. Também era assim quando perguntava: fazia aquelas perguntar quilométricas, que vão de nada a lugar nenhum e só tomam o tempo do pessoa. Numa dessas, depois dele terminar com um ”………… no que isso influencia, afinal?” mandei um límpido ”Na sua mãe!”. Todo mundo riu do idiota. Ele se desculpou e sentou quietinho.

Na escola também tinha uma garota que eu odiava com intensidade parecida. Era a Aline. Caralho, como eu odiava essa mina. Eu, geralmente, sou simpático, sempre tento iniciar assunto, falar de temas que a pessoa gosta e tal. Essa Aline não me respondia. Ela não falava nada, nunca. Na aula, nunca respondia nenhuma pergunta e anotava feito uma máquina quebrada. Quando eu ia falar com ela, ficava me olhando com cara de lobotomia e, de vez em quando, forçava umas risadas falsas. Alguém comentou comigo que ela era tímida. Pau no cu introspectivo dela. Isso é uma falta de educação sem tamanho. Custa reconhecer a gente como ser humano? No final do ano, mandei uma carta, com assinatura e tudo, para ela, escrito ”você tem cheiro de cu azedo”, só para ver a reação. Fez nada. Pegou a merda do papel e jogou no lixo. Não tinha nada atrás daqueles olhos cinzas. Duvido que era um ser humano aquela porra.

Eu gostaria de dizer que só são essas duas pessoas que eu odeio. Mas eu acabei de lembrar de um arrombado, Vinícius, que toma ônibus comigo na sexta-feira. Odeio muito esse guri. Tipo, eu nem conheço o cara. Acho que estudei com eles uns cinco anos atrás. De qualquer forma, ele toma liberdade para falar comigo das coisas que acredita. E olha que eu gosto de debater política. Mas ele é aquele esquerdopata comum. Fica me falando uma tonelada de termos técnicos progressistas. Só indo do centro até a Praça Kennedy, eu descobri que vivemos em uma sociedade cis, hetero e misanormativa, além de etno, falo e eurocêntrica, e, por fim, homo, bi e transfóbica. Ah, claro: tudo isso é sustentado pela burguesia opressora. E o filho da puta me fala isso mexendo no Iphone mais caro que a minha alma. Fetichista e hipócrita do caralho. Na sexta-feira passada, fui com a camisa ”Bolsomito” e um botton nazista na bolsa e comecei a falar altasso que queria legalizar o estupro, decapitar gays e jogar bomba atômica na Rocinha. Só para deixar o Vinícius putão. Deu certo não. Balançou a cabeça negativamente, me cumprimentou na saída e vazou. Intelectualóide retardado desgraçado.

Tem outra pessoa que é parecida: a Vanessa, minha dentista. Eu amo conversar com médicos, cabeleireiros e tal, mas ela é direitista maluca. Tipo, no ano-passado, ela fez uma campanha no condomínio dela chamada ”não alimente Petista”, para não dar cesta-básica para o porteiro, lixeiro, babá e afins. Era tudo petista sem-vergonha. Porra, que mulher babaca. Odiá-la é questão de obrigação. Principalmente quando ela ficava falando que a gente vive em ditadura socialista. Só se for a xana dela que está no domínio dos trabalhadores. Depois que tirei meu aparelho e só tinha que ir para a revisão, eu faço questão de confirmar que vou e deixar ela vendo navios. A mulher mora em Socorro e tem que rodar uma hora e meia para ir no consultório, só pra chegar e ficar esperando mais duas horas. Mas ela merece, caralho. Eu consigo me masturbar só de pensar nela tomando o caminho de volta às cinco e meia e a BMW ficando presa no trânsito dos carros populares. Que delícia.

Mas, mesmo assim, a vagaba continua remarcando. Nas poucas vezes que fui, comentou que só remarca porque sou o paciente preferido. Perguntou até se eu me incomodava com as posições dela. WTF? É mais ou menos igual ao Vinícius, na verdade. O filho da puta sempre me cumprimenta e, ultimamente, vem curtindo os posts mais-ou-menos direitosos que eu coloco no Face. Veio elogiar, pessoalmente, um post meu em que criticava a Parada Gay. A Aline também curtiu esse post. Mais do que isso, ela me deixou uma mensagem de aniversário fodona no facebook, falando de como gostava de conversar comigo e admirava minha inteligência. Será que possuíram aquela carcaça sem vida? Vai saber. E o Douglas, arrogante FDP, fiquei sabendo que fala bem de mim para todos os amigos. Até fiquei com um garota por causa da propaganda dele. Também fala menos em aula agora.

Mas eu continuo odiando muito todos esses caras. Desejo uma morte dolorosa para todos. Os motivos anteriores podem até ter desaparecido, mas eles eram só pretextos. Eu odeio mesmo eles por apenas um motivo: eles gostam de mim. Caralho, maluco, como alguém pode gostar de mim? Eu sou o filho da puta mais arrogante, indiferente, hipócrita e elitista que conheço. É o que vejo e fujo no espelho. Deve haver algo muito errado com essas pessoas. Matam gatos, tem boneca inflável, se masturbam para a mãe, sei lá. Gente boa não são. Gente boa me odeia na plena definição da palavra.

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