Beleza clandestina

O sabonete caiu no chão do banheiro. Deslizou para perto da lata de lixo. Mateus suspirou longamente. Considerou chamar os pais. Mas não queria que o vissem nu. Decidiu pegar por si próprio. Desligou o chuveiro. Poderia demorar. Aproximou-se do lixo. Ajoelhou-se, uma coxa de cada vez. Agachou  poucos centímetros até a barriga encostar no chão molhado. Tremeu com o frio. Persistiu, todavia. O cheiro de fezes moles e urina curtida exalava do recipiente. Enojou-se. Desviou o esforço das pernas a fim de levantar o braço e tampar o nariz. Perdeu a força nos membros baixos, os joelhos escorregaram e sua cabeça bateu no lixo. Os papeis sujos cairam em seu corpo. Deu-se por derrotado. Se era necessário concentração tibetana para mover um membro de cada vez, soerguer um corpo de 220kg demandaria um poder sobrenatural. E ele era só um ser humano. Ou melhor, era um gordo.

Gritou pela mãe. Ela veio prontamente, encontrando-o desonrado com merda pela corpo. Espantou-se. Chamou o pai, velho forte. Como guindastes velhos, ergueram-no até que ele conseguiu se apoiar na privada. Ficou mais fácil. Contando com a ajuda do braço gordo de Mateus, conseguiram colocá-lo em pé novamente. Parou justamente na frente do espelho. Junto dos progenitores. Eles eram feios. O pai, careca e roliço. A mãe, enrugada e oleosa. Pareciam tranquilos, no entanto.

Então, subitamente, olhou-se. Assustou-se. Era a primeira vez em anos que tinha uma boa visão de si mesmo. Nos anteriores, conscientemente fugia de qualquer superfície refletora, intentando negar a existência do próprio corpo. Se vivesse em uma torre de marfim, teria sucesso: ver-se-ia como mera cabeça flutuante. Mas ele não vivia. Ninguém vive. Na socialização, o corpo é a principal ferramenta de apresentação e comunicação para o alheio. A alma é acessório. É por expressões, movimentos e posturas que se é visto. E o que se via na flacidez inveterada, na barriga absoluta e rechonchudez universal se não o horror e o fracasso? Escondia-se o nojo pela gordura debaixo de desculpas sobre saúde. ”Faz mal”. Besteira. Se não se liga nem para a própria saúde, porque se ligaria para a alheia? O problema era estético. Mateus era um atentado aos olhos. Sua existência era vergonhosa. Desvia-se o olhar, comenta-se por trás, usa-se como contra-exemplo de virtude, tudo a fim de se silenciosamente excluir da humanidade aquela abominação gorda.

Teve insônia naquela noite, com medo de si mesmo. E na seguinte. E na posterior a esta. Dormiu porcamente durante uma semana. O que poderia fazer para melhorar sua condição? Como poderia ser mais carinhoso com os olhos alheios? Na ansiedade de achar uma solução para o corpo, as reflexões das noites-mal dormidas de Mateus só lhe estragaram também o rosto. Resolveu não sair de casa naquela semana. O universo já tinha poluição visual o suficiente. Apesar desse esforço para poupar a sociedade, ela era incansável. A mãe de Mateus resolveu chamar uma mulher para fazer as unhas dela. Ele olhou do vão da escada, como criança travessa. Moça bonita. Magra, mas com curvas. Morena jambo. Olhos de fubeca. Cabelos negros rebeldes. Linda. Alguém que se nota assim que se entra na sala. Daquelas pessoas que não precisam iniciar assuntos ou ter outras qualidades. Apenas o fato de serem bonitas já lhes garante simpatia, oportunidades e carisma. Sortuda. Como deveria ser ter o corpo como aliado ao invés de grilhão? Enquanto admirava o abismo entre eles, as fubecas pousaram em Mateus. Sacrilégio! Assustou-se e voltou para o quarto.

Deveria estar comentando sobre ele agora. Claro, usaria eufemismos (”forte”, ”grande”, ”gordinho”), mas, no fundo, estava abismada com aquela silhueta mastodôntica. Sua mãe bateu em sua porta. Disse que ela queria conhecê-lo. O quê? Já não bastava para a moça magra se regozijar de sua superioridade corpórea silenciosamente? Era necessário humilhá-lo com palavras e olhares? Qual o problema dela? Não iria. ”Ela disse que vem aqui te conhecer, então.” Mas isso seria pior! O quarto estava uma zona, muito inferior à aparência do próprio Mateus. Optando entre uma das duas felonias, preferiu arrumar o cabelo, passar um colírio e sair. Desceu a escada com a costumeira dificuldade. Postou na grande poltrona, encarando-a.

Simone, a moça. Ela o elogiou. Poderia ter falado das olheiras, das bochechas inchadas, da ginecomastia, mas não.o Ela elogiou o nariz e a testa de Mateus. ”Augustos”. Eram partes inglamourosas que ele jamais havia notado. Titubeou frente à excentricidade e à sinceridade do elogio. Sorriu. Raro. Bons assuntos, camaradagem e humor. Na vida de Mateus, relacionar-se com outrem era tão marcado pelo medo e ansiedade que era uma experiência quase transcendental conversar e sentir felicidade. Junto dela, gozava da tranquilidade que só conseguia ao estar consigo mesmo. Trocaram celulares. Sendo difícil para Mateus sair de casa com frequência, passavam grande parte do dia a trocar mensagens no WhatsApp;. Fazia piadas, contava histórias, destilava seus conhecimentos. Era um ser humano. Entre as curvas dela e a gordura dele, usando de mensagens ternas, foi se apertando um sentimento significativo.

Trocavam juras de amor. E de sensualidade. Certo dia, Simone mandou uma foto de lingerie e algumas palavras eróticas. Inesperado. Mateus jamais havia visto um corpo real de mulher. Só pornografia. Deveria continuar aquilo? Talvez. Pediu que tirasse uma sem sutiã. Simone tinha seios lindos, em forma de gota e perfeitamente simétricos. Queria vê-los em totalidade para fins de apreciação estética, tal qual crítico de arte. Ela disse que não. Mateus empalideceu. Teria ele ido muito longe em seu pedido? Não, não era isso.

”Acho meus peitos flácidos. E tenho muita estria também. Sou feia”.

Franziu o cenho. Encontrava-se em uma situação complicada. Por experiência própria, sabia que a autoimagem era uma membrana semipermeável: ignora elogios e absorve críticas. Um complemento, ”mas eles são lindos”, não resolveria em nada o problema. Considerou ignorar. ”Deixa disso” poderia ser uma boa resposta. Afinal, Simone era uma obra-prima. Primeira a ser notada e sempre idolatrada. Os seios realmente eram um problema tão grande assim? Refletiu um pouco mais. Eram, sim. Não é possível julgar o tamanho do sofrimento de outrem, afinal. Se aquilo a incomodava, então não deveria ser ignorado. Só se sente em primeira pessoa.

Ou será que não? Pode-se sofrer em conjunto? Considerando isto, teve uma ideia para ajudá-la. Mas era abusada demais. Sairia da zona de conforto de Mateus. No WhatsApp, sem foto de perfil, sendo apenas uma cabeça flutuante, ele se sentia mais à vontade. A ideia envolveria voltar ao corpo novamente. Ao horror e ao fracasso da barriga, da flacidez e da rechondudez. E isso é algo para ser escondido, não? Não há herói romântico gordo. A beleza do amor não tem estrias.

Foi ao banheiro, perto do lixo. Sem fezes moles ou urina curtida. Hesitou um pouco antes de se olhar no espelho. E se Mateus buscasse uma nova forma de beleza?Quem sabe. Aquela que não visa expor perfeições estéticas, mas dividir defeitos. Aquela auto-consciente sobre as limitações do próprio corpo. Aquela que pinta de vermelho as estrias ao invés de escondê-las. Sim, sim, daria certo. Seria uma beleza incômoda, que alguns tentariam eliminar e outros negar a existência. Mas as perfeições refletidas pelo espelho não são únicas e nem pessoais. Todo ser humano, cedo ou tarde, será um estranho no próprio corpo. A beleza jovem de hoje inevitavelmente transformar-se-á na careca, no corpo roliço, na pele rugosa e no cabelo oleoso de manhã. Todos, em determinado momento, seremos Mateus e precisaremos usar da beleza clandestina. Ela persistirá.

Tirou a camisa e toda a parte debaixo da roupa, em atitude revolucionária. Posicionou o celular na frente do rosto. Apertou. Tirou a foto. Mandou para Simone, com apenas uma legenda e certo de que causaria o impacto desejado.

Se você é feia, também eu sou :’)

Visualizado. Mandou a foto dos seios. Com estrias e mamilos grandes e invertidos. Mateus mandou uma foto da virilha gorda. Ela dos pontos de celulite na bunda. E, assim, entre fotos de genitálias frouxas, gorduras localizadas e flacidez, dividiram amor e beleza clandestinas, transformando a agonia individual de ser imperfeito no alívio coletivo de perceber que todos somos.

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