Detergente, petelecos e amor

Stephanie, ofegante, corria atrás do gato. O Bolonhesa havia escapado do quarto dela e Steph tinha medo dele cair de cima da laje. Pobre gato! Seria mais uma vítima da gravidade! Stephanie se esforçava para impedir, mas o gato, mais magro e ágil, superava-a com facilidade. Não deu outra: Bolonhesa chegou primeiro na parte superior da casa e se  arremessou, como um suicida na ponte Golden Gate. A menina, ao chegar atrasada e não ver o gato na laje, gritou e começou a chorar, enquanto dirigia o olhar para baixo.

Ao olhar para a calçada, estatelou os olhos. Bolonhesa estava bem. Quer dizer, um pouco sujo e certamente assustado. Mas nem próximo da bola de carne disforme que Stephanie esperava encontrar. Ele, afinal, era um gato e a laje não tinha mais de 6 metros. Achou-se burra. Continuou a a chorar, apenas substituindo a causa das lágrimas: de tristeza para raiva de si mesma. Alertada pela choradeira, a mãe Helena  acordou e foi se certificar de que ninguém estava se machucando. Chegou no momento fatídico e exigiu saber o que acontecera. Steph, chorando, disse que julgou que o Bolonhesa iria se matar e correu para evitar, o gato havia caído, mas estava bem. ”Afinal, é um gato” – disse a mãe, em censura pela ingenuidade da filha.

A menina fechou os olhos, esperando uma punição forte e alguma gritaria. Mas não foi isso que veio não. Helena deu-lhe um sermão terno e um peteleco na testa, com força calculada e carinhosa. Saiu reflexiva a menina. A assimetria entre expectativa e realidade é facilmente explicada: não se deve punir ingenuidade da mesma forma que se faz com maldade. Esta é nociva para outrem e aquela para nós mesmos.

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Stephanie, pequenina, não entendia como o mundo funcionava e, portanto, levou, depois daquele, incontáveis petelecos da mãe Helena. Envergonhava-se pela recorrência, mas agradecia silenciosamente por estar recebendo por meio daquele toque um pedaço da sabedoria materna. Sentia-se evoluindo. Em intervalos regulares, achava justo explicitar essa consideração. Nestes dias, após o almoço, corria para abraçar a mãe, afundando a cabeça no avental branco dela e bradando um sincero ”Eu te amo” e recebendo um simétrico ”Eu também”. Aprendera a associar o cheiro de detergente com o amor que sua mãe lhe dava.

Ao pensar no pai, no entanto, fazia a ligação entre o cheiro de álcool e o medo. Bastava sentir o odor ébrio nos lábios dele para Helena exigir que a filha subisse e se trancasse no quarto. À seguir, alguns gritos e sons rápidos e abafados. Socos. Nestes dias, algumas horas depois da celeuma, a mãe subia para confortá-la. Olho roxo, corpo curvado, gemidos de dor. Contava uma história bíblica para Stephanie e ambas rezavam com ardor, como se o mundo fosse acabar no virar do dia. Despedia-se com um peteleco.

Em noites do gênero, a qualidade do sono de Steph dependia de qual história era contada. Se fosse a de Jonas, engolido pela baleia, dormia bem: achava fascinante que alguém pudesse sobreviver a algo tão absurdo quanto um estômago de uma baleia. Há algum obstáculo para uma pessoa assim? Idem para a de Davi e Golias: ele, pequeno como ela, venceu um gigante! Sentia-se representada e motivada  por aquele herói.  No entanto, se a história fosse qualquer uma envolvendo Adão, não pregava o olho a noite toda. Stephanie achava inconsolável o fato de Adão ser o primeiro homem. Quem dava petelecos na testa dele? Não tinha mãe, o coitado! Teve de aprender tudo sozinho sob a tutela de um Deus falador e agressivo! Deveria ter cheiro de álcool, também.

Acho que Deus ficou ofendido com essa comparação. Em um final de tarde de domingo, Helena sentiu dores muito fortes no intestino. Indecorosamente, defecou sangue e vomitou. Teve de ir sozinha ao hospital, pois seu marido estava no bar. Foi diagnosticada com câncer no cólon. Já havia se iniciado a metástase. Ela estava se consumindo. Não havia muito o que fazer.  Três semanas depois do diagnóstico, estava na UTI. Stephanie foi visitá-la, sem entender muito bem o que estava ocorrendo. Era só dor de barriga, não? Não. Helena estava sem forças para explicar as causas, mas fez a garota prometer que aguentaria as consequências. Um mês depois, quando a dor passou do aceitável pelo corpo humano e a melancolia monopolizou a alma, foi  embalsamada em morfina e morreu em tranquilidade.

O gato, como se entendesse e respeitasse o momento, deixou de traquinagens, mas o pai, como se não entendesse e não respeitasse o momento, não deixou de beber. Ficou de luto no bar. Duas noites após a morte de Helena, chegou em casa bêbado, com vontade de brigar. Mas cadê a esposa? Morreu. Mas tinha a filha, ué. Sua herança era a violência doméstica. Exigiu dela um jantar. Stephanie bateu o ovo na frigideira com demasiada força e a gema se espatifou pelo chão. Pronto, tinha pretexto. Aproximou-se de Stephanie. Ela fechou os olhos. No íntimo, esperava um peteleco e novamente um sermão terno. Mas não foi isso que veio não. Ouviu um ”Menina burra do caralho” e recebeu um soco na cara. O pai de Steph igualava ingenuidade e maldade.

A recorrência do acontecimento foi exaurindo as forças de Stephanie. Agora, sua vida se definia por álcool, porradas e medo.  Após mais uma noite de socos e hematomas,  Steph subiu ao seu quarto, apreciando o gosto férrico do sangue. Começava a achar que Bolonhesa tinha razão em pular da laje. Talvez ela devesse fazer o mesmo. Mas sem cair de pé. É, seria uma boa ideia. Não queria continuar nessa vida de Adão. Não tinha a força para ser o Primeiro homem e nem para conviver com um Deus opressor.  Antes de ser expulsa do Éden, sairia honradamente, com as próprias pernas.

Enquanto maquinava os detalhes de sua ida, foi tomada por um sentimento excêntrico, que percorreu seu corpo feito uma carinhosa brisa, arrepiando-lhe os pelos do braço e a preenchendo com serenidade ímpar. Sua mente se esvaziou de qualquer consideração, como se prestasse continência àquela sensação transcendental. Alguns sentidos  se expandiram: o cheiro de álcool se extremou, impregnando-se em cada célula olfativa e dilacerando a mucosa do nariz; pele duplicou sua sensibilidade, evidenciando a dor de cada soco e expandindo os hematomas. Ainda em contraditória serenidade, contemplou a extremação de seu sofrimento vital. Era miserável e sem forças.

Contudo, de forma progressiva e contínua, as sensações foram se transmutando qualitativamente. O odor etílico foi enfraquecendo, tal qual  se estivesse se distanciando. Na mesma proporção que se extinguia, dava lugar a um aroma suave, convidativo e harmonioso, o qual cicatrizava a narina . Era detergente! O quarto inteiro se compôs do cheiro da pia da cozinha, da louça sendo lavada, do… Avental de Helena. A leveza de alma que Stephanie sentia naquele momento não poderia ter outra fonte se não sua mãe. Ela, à despeito de qualquer barreira entre um plano e outro, estava ali. Para Stephanie, era intuitivo e inquestionável.

Estava ali para levá-la, não? Havia aprovado seu plano se suicídio e a conduziria até a laje. No instante que concluiu isso, sentiu a dor dos socos paternos desaparecendo, em suavidade, até serem imperceptíveis. Era o sinal final! Sua mãe retirara o sofrimento para demonstrar como é a vida no pós-morte! Fechou os olhos. Finalmente tudo acabaria e… Ei, espera. Abriu-os novamente, em surpresa.

Sentira algo na testa. Um peteleco. Com a força calculada e carinhosa que só mãe Helena poderia aplicar.

Era a mensagem final. Stephanie estava sendo, uma vez mais, ingênua. O suicídio não era a solução, porque ela não era o Primeiro Homem. Nós não somos. As pessoas que nos deixam só o fazem em corpo. A influência que aplicaram em nossas vidas e no mundo persiste. O detergente, os petelecos e o amor de Helena serão partes indeléveis de Stephanie. Todo ser humano é um memorial ambulante.

Voltou ao mundo real. A serenidade ímpar foi substituída por choros escandalosos. Não de raiva ou de tristeza, mas de emoção e convicção. Não mais se suicidaria. Não era Adão. Era Jonas e Davi. Sairia da Baleia e derrotaria Golias. Agradeceu. Baixinho, bradou um sincero ”eu te amo” e recebeu um simétrico ”Eu também”.

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