Amor de ônibus

Era uma tarde de quarta-feira monótona e Lia estava no ponto de ônibus como todos os outros dias, no entanto, impaciente devido ao atraso incomum de 20 minutos, que a faria perder alguns minutos de aula na faculdade. Assim que o ônibus chega, ela entra e senta ao lado da janela, os bancos são logo preenchidos por desconhecidos e o motorista está prestes a seguir quando… Espera! – alguém grita do lado de fora. A porta é aberta novamente e o responsável pelo grito passa pela catraca e senta-se um pouco mais a frente de Lia. A menina pousa os olhos sobre ele, o qual, sem suspeitas de que é observado, age naturalmente e põe os seus fones de ouvido. Ela analisa-o detalhadamente: jovem, alto, cabelos pretos, olhos castanhos, pele do rosto lisa, alargador, tatuagem no antebraço e algo inexprimível que a faz suspirar como nunca antes. Lia perde-se nos traços de seu corpo, atenta desde ao par de tênis já desgastado até a nuca convidativa. Arrepia-se. Subitamente se desperta do deslumbre e percebe que já passara do ponto, desce logo no próximo. Sai extasiada… Malditos 20 minutos!!

No dia seguinte a garota sente-se tentada a vê-lo novamente, mas valeria perder os vinte minutos de aula? Sim! Tomada pela emoção ela espera por ele e sua decisão é tida como certa quando o vê de novo. Desta vez quando entram, o ônibus fica mais cheio e os dois estão de pé, lado a lado. Ela por vezes olha para ele como se fosse uma declaração a ser mantida em segredo, suas mãos ficam atraídas pelas dele, seus olhos percorrem todos os lugares, pequenas dobras, pelos no braço e uma pinta no rosto. Não era fã de pintas, mas esta era exceção, esta agregava mais charme ainda a ele e com o medo de ser pega, por várias vezes ela desviava o olhar, ele nem imaginaria… Uma freada brusca traz a ela o que desejava desde o dia anterior: tocar nele. Seus braços se encostaram e aquilo foi como um choque para ela, mas ao se recompor a distância foi restabelecida. Ainda que quisesse mais, não poderia, não deveria.  Estavam lado a lado, tanto que Lia podia identificar o som do Megadeth tocando em seus fones, mas ainda estavam longe. Sua vontade ali era abraçá-lo e beijá-lo, não obstante sua consciência não permitiria tal loucura. Suas fantasias são interrompidas com a chegada de seu destino e ela parte para longe dele.

Já é sexta feira e os pensamentos sobre ele só aumentavam. Jamais havia passado por algo igual, diferente da menina racional e pura,  enxergava-se fora de controle, suas emoções precisavam ser expostas e uma ansiedade nunca vista florescia em si… Outra vez abriu mão dos vinte minutos e esperou…. Ele chega e senta-se ao lado dela, suas pupilas dilatam, pois nada melhor poderia acontecer! Durante o trajeto ele olha para ela, envergonhado, olhares curtos, mas que significam muito… Todavia, Lia não obtém coragem o suficiente para soltar uma palavra, ou seria o seu lado racional se manifestando? Seja qual for, ela parte cabisbaixa, mas antes oferece um sorriso de lado e ele retribui com um sorriso sutil. Isto é o bastante para que tenha certeza da reciprocidade e para um último esforço na próxima semana.

O fim de semana demora a passar, são dois dias que a corroem, os ponteiros do relógio tornam-se mais lentos, inversos à ansiedade que toma conta de si. Afinal qual seria o nome dele? O que gosta de fazer, lugares a que gosta de ir? Perguntas das quais Lia esperava, um dia, obter resposta… Finalmente se fez segunda-feira, estava mais frio que os outros dias e Lia ansiava pelo momento da chegada do garoto. Transcorridos os 20 minutos, estava angustiada, o que acontecera para que não chegasse no horário de sempre? Esperou mais 10 minutos e ele não veio, não pôde evitar a sensação de desconsolo… Jurava que os vinte minutos de atraso lá na primeira vez não foram por nada, o desconsolo transformou-se em arrependimento… Arrependeu-se de não ter feito algo a mais, trocado uma palavra e sido mais corajosa, mas a quem queria enganar? No que resultaria tudo isso… Suas expectativas foram despedaçadas e o frio das ruas projetou-se para suas emoções.

Melhor assim, o sofrimento de Lia foi devastador, contudo, repentino. No dia seguinte voltaria ao horário normal sem hesitar. Mal sabia ela que o rapaz, de nome Fred, havia se atrasado 20 minutos naquela segunda-feira, o dia em que avistaria uma garota desconhecida, pela qual atrasaria repetitiva e propositalmente os mesmos 20 minutos.

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