UFANIA

A toda forma de amor, um brinde. Ao amor de um homem por uma mulher, ou por outro homem, ou por um homem E por uma mulher, por si mesmo, por ninguém, de todos por todos, ou por mais nada além (que são todas formas igualmente urticantes ao solteiro recalcado). A amar com crianças e a amar com animais, a amar com seu país e a amar com seus pais. Ah, minha terra, minha terra que tem palmeiras onde canta o sabiá, terra de belas florestas, de belas cidades, de belas bandeiras, de belas cores, com as quais não me importo em absoluto, mas amo. Eu gostaria de ter aquele nacionalismo de pavilhão e de cânticos, nacionalismo de povo e de governo. Mas o meu nacionalismo é burro, é sentimental. Fosse racional, havia inda conversa, mas que diálogo há de irracional?

“Tenho que salvar o o MEU país, a minha bandeira é verde e amarela.” Tenho dificuldade em pensar assim. O MEU país, nada MEU, é bem maior do que um pedaço de pano que o Romero Britto pintou, cheio de gente se abraçando e corações por todo lado, um grande retalho de pedaços estratificados e imiscíveis. É, antes, uma malha de várias linhas que se misturam.

Não é meu o nacionalismo de Bilac, nem o de Gonçalves Dias. O nacionalismo deles é o dos atletas e dos soldados, dos políticos e dos padres. É um nacionalismo que exalta a vitória, e o fluxo orientado. É uma ideologia em sua concepção mais crítica. É muito melhor do que o meu, ou, ao menos, muito mais divertido. No deles se pode comemorar, se torce no gol e na guerra, se enaltece o voto e a prece. No deles há toda forma de choro pelos que ficam e pelos que vão (me refiro a vida, não a depilação), toda forma de fé no país em que se disputa e no país pelo qual se disputa. E há paixão pelos que já foram.

Entretanto, há algo no meu nacionalismo que se sobrepõe ao deles. O meu nacionalismo não é o da Copa, não é o da Guerra, não é o da Eleição, não é o da Missa; o meu nacionalismo é o do ano inteiro ou o do dia nenhum, é o do tudo ou nada, do sempre ou nunca, como é o amor. Posso dizer que amo meu país ou que nunca o amei. Só o que podem, eles, afirmar é que tiveram um romance adolescente que perdurou o verão.

Qual desses é o melhor definitivo? Não faço ideia, não tenho pretensão de saber. Mas sei qual, para mim, funciona, qual faz funfar o meu ser. Acho que o que descobri – e nada descobri – foi que o nacionalismo é livre e subjetivo. E que nacionalismos são formas de amor (exceto o ultranacionalismo, que é amor-de-ex, é ódio).

 

P.S.: Só que não, não compactuo com a pederastia, a recrimino (homossexuais não devem ser considerados pederastas, pedófilos devem, sim).

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