Por que sua vida amorosa é um fracasso

Introdução

A minha vida amorosa, via de regra, é um fracasso retumbante. Tipo, sério. Eu tive alguns relacionamentos abusivos, outros chatos e tomei uma infinidade de foras. Nunca tive um amor  realmente bom. No século XXI, o procedimento comum nessas situações é, bom, compartilhar memes se zoando no Face ou mandar indiretas para os crushes e ex-parceiros no Twitter. Alivia, afinal. Mas, ha! Eu não sou um rapaz contemporâneo comum! Resolvi escrever, com base em outros sites e diversas fontes científicas [veja as referências], o meu próprio artiguinho científico sobre “porque existem relacionamentos bons e ruins?” u_u

Em partes, faço isso porque, primeiramente, é mais produtivo do que apenas reclamar nas redes sociais ou chorar no relento da noite… e, ademais, porque, até onde eu posso avaliar, a maioria das pessoas está no mesmo barco que eu. De verdade, quantos casais que você conhece estão em relacionamentos bons e produtivos? Pois é, poucos. Dá para contar nos dedos. Da mão esquerda. Do Lula. Isto é verdade, pois a norma em se relacionar é a decepção. Como disse o psicanalista americano Eric Fromm : ”É pouco provável que haja outra atividade que comece com tantas expectativas e que, no entanto, fracasse tão regularmente quanto o amor”.

E Isto é algo notável: apesar dos números enormes de pessoas que se frustram e saem machucadas de um relacionamento, todo mundo continua fazendo as mesmas coisas na hora de procurar um parceiro, e, paradoxalmente, esperando resultados diferentes. Em fato, isso é tão forte que estou certo de que muita gente torce o nariz ao ver uma tentativa de esquematizar e racionalizar o amor. Afinal, ”amor é misterioso”. Yeah, right. O fato de se relacionar ser um tema extremamente complexo e, até certo ponto, subjetivo, não impede que a ciência e a filosofia tenham uma ou duas coisas relevantes para contribuir e efetivamente melhorar a vida dos indivíduos. Devemos ser menos submissos à imensidão dos nossos sentimentos se quisermos evitar sermos controlados por eles.

Seguindo isto, e aceitando que você é alguém que teve relacionamentos tão ruins quantos os meus e quer mudar, há duas opções: procurar fazer escolhas mais fundamentadas sobre relacionamentos ou parar de entrar em relacionamentos sérios. A segunda opção é muito rechaçada socialmente. Cria-se rótulos, julga-se a sexualidade e mesmo a sanidade de alguém que opta por uma vida de solteiro. Mas não é nada demais. De fato, já é entendido pela ciência como algo comum. De qualquer forma, como a minha escolha pessoal é continuar me relacionando, o artigo vai versar sobre isso e não como ser um solteiro feliz 😛 (quem sabe um dia eu desista de tentar namorar e faça um artigo do tipo, haha).

Com base nas pesquisas e nas minhas opiniões pessoais, eu acho justo dividir o bom relacionamento em essencialmente duas partes: a natural e a racional. Longe de serem opostas, elas se complementam e são, ambas, essenciais para a manutenção da relação. Durante o artigo, vamos ver cada uma em detalhes. A fim de não ser algo muito cansativo de ler (afinal, é um artigo grande bagarai), eu criei uma historinha e minha amiga Marina Nogueira fez uns desenhos maravilhosos para ilustrá-la. Deem ”Oi” para a nossa protagonista, a Amanda!

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Ela é uma guria que está cansada de ter relacionamentos ruins feito os meus e decidiu servir de cobaia para as ideias que eu defendo no artigo. Ao longo dele, ela vai nos dizer os garotos por quem está apaixonada e nós vamos, sob a luz da ciência e da filosofia, analisar os motivos disso. Depois, vamos decidir qual deles é o melhor e, quem sabe? podemos achar um bom companheiro para essa moça ^-^

Vamos lá, portanto ❤

Natural

A parte natural do relacionamento é a atração sentida pelo parceiro. Já deve ter acontecido contigo de se sentir loucamente atraído por alguém. Tipo, muito. Você nem conhece a pessoa, mas aquele corpo perverso, aquela voz crocante e o cabelo insinuante o fazem querer estar ao lado dela, beijando seu pescoço, esfregando-a e a amando. É assim comigo, ao menos. No meu caso, acontece com uma frequência alarmante: basta eu ver uma pele lívida e um cabelo negro para eu me apaixonar perdidamente e nos imaginar nus dividindo o leito em uma noite nos Alpes Suíços, com apenas o calor de nossas paixões como proteção contra o frio. Pois é, complicado.

Mas não é culpa minha. Atraímo-nos da mesma maneira que respiramos: natural e involuntariamente. Sobre o tema, Arthur Schopenhauer, filósofo alemão, é muito duro. O filósofo seria intolerante para com racionalizações sobre atração e a forma com que nos aproximamos de alguém: se Pedro afirmasse que gosta de estar com Joana porque “ela é uma boa amiga”, Schopenhauer certamente o estapearia. Para ele, a razão para nos sentirmos atraídos por alguém, bem como a nossa necessidade de possuir parceiros, não tem um motivo mais profundo do que o impulso biológico de perpetuar a espécie, seja por reprodução ou por criação de laços sociais.

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A atração, que ele chamava de ”impulso da vida”, é só uma forma de a natureza nos atrair para o sexo. João conversa com Teresa, pois, inconscientemente, vê nela uma boa mãe para seus filhos. Da mesma forma que o homossexual Carlos socializa com André, pois, sem saber, julga-o uma companhia relevante para sua sobrevivência.

Quase dois séculos depois, esta ideia foi refinada e reforçado pelo biólogo – e ateu do mal – Richard Dawkins, quando formulou a ideia do ”Gene egoísta”, tese central de seu famoso livro de mesmo nome. Nesta, todas as decisões comportamentais de um indivíduo são guiadas pelo único propósito de passar suas características genéticas adiante, segundo o mecanismo da evolução natural.  Perceba que é exatamente o que Schopenhauer disse, apenas trocando o cabalístico ”impulso da vida” pelo mais científico ”transmissão de informação genética”. Dawkins, ecoando Arthur, resume tudo em uma fria e forte frase: ”O organismo é apenas uma máquina de sobrevivência construída e usada pelos genes”. João gosta de Tereza porque ela o ajudará a passar os genes para frente. E só.

Afirmar isso, sem dúvida, contraria a visão racionalizada e elevada que temos de nós mesmos. Mas é a verdade. Cito dois argumentos para sustentar que Dawkins e Schopenhauer estão corretos. Primeiramente, há um padrão de beleza universal em todas as culturas. Pera, não me espanque. Não estou dizendo que absolutamente cabelo liso é melhor que crespo ou uma pele melhor que outra. O ”padrão universal” é mais sutil. De acordo com as pesquisas, temos que: mulheres, independente da cultura, são mais atraentes se possuem uma proporção entre a circunferência da cintura e do quadril perto de 0,7 e o volume dos seios superior ao da barriga; já os homens despertam desejo sexual se possuem uma cintura estreita, um tórax em forma de V e ombros largos. Repare que todos esses padrões se relacionam com atitudes de sobrevivência e reprodução: um quadril menor que a cintura ajuda no trabalho de parto, bem como um seio volumoso denota grande produção hormonal e, assim, maturidade sexual; no caso dos homens, os aspectos indicam força e virilidade, vital para a proteção da prole. Ou seja, deveras, sentimo-nos atraídos porque queremos passar nossos genes, conforme Dawkins ^_^ Esse argumento é muito bem expandido pelo vídeo do doutor em Biologia Paulo Miranda (o Pirulla, véi!).

O segundo argumento é mais genérico, embora mais ilustrativo. Ele consiste em pensar que, como é muito evidente, há no ser humano uma natureza essencialmente animal. E para que serve o sexo no mundo animal se não, justamente, para reprodução e criação de laços sociais? O melhor exemplo disso é a agitada vida sexual dos macacos Bonobos: machos transam com machos para demonstrar status, fêmeas com fêmeas para demonstrar amizade, machos com fêmeas para ter prazer, fazem orgias para diminuir o estresse, enfim, uns amores. E, notavelmente, junto com o chimpanzé, os bonobos são os primatas mais próximos, geneticamente, dos seres humanos. Somente 1% de diferença no DNA! Embaixo das calças e dos cabelos arrumados, somos apenas macacos tarados, pois bem.

E a Amanda também é uma u_u Ela está à procura de um namorado, e, a partir de agora, vai nos dizer seus pretendes. Os primeiros são alguns conhecidos da Faculdade, os quais despertam o interesse dela em decorrência das características físicas pronunciadas que possuem. Eis o Raimundo Bundabonita e o Nando Anaconda 😀

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Mas, claro, eles não são os únicos pretendentes da Amanda, pois, além do sexo, há outros motivos para desejarmos alguém. A motivação sexual só nos leva a concluir sobre a atração física. E seria leviano afirmar que essa é a única forma de atração entre seres humanos. Como em toda espécie, há peculiaridades na forma em que se dá a aproximação entre indivíduos. Na nossa, isso advém da complexa psicologia humana. ^-^

Comumente, gostamos de imaginar que nossa atração psicológica por alguém advém das virtudes da pessoa: senso de justiça, honestidade, humildade, etc. Contudo, ainda que essas características possam eventualmente nos atrair, a psicologia cognitiva demonstra uma série de motivos muito menos glamorosos e sem sentido para nos atrairmos por alguém.

Por exemplo, segundo pesquisas, nossa atração por alguém costuma aumentar quando notamos uma atitude agradável em alguém, antes, tóxico. Da mesma forma, nossa atração diminui quando alguém, antes, agradável comete uma atitude tóxica.  É o chamado ”Gain effect”. Por exemplo: se alguém nos trata extremamente mal, mas, em um momento, dá-nos um presente, tendemos a nos sentir atraídos por essa pessoa; por outro lado, se outrem que sempre dá presentes, por ventura, se esquece disso em um dia, criamos sentimentos negativos para com tal pessoa. Racionalmente pensando, isso não faz sentido algum. Claramente, é preferível estar perto de uma pessoa que nos trata bem com frequência e, eventualmente, dá mancadas do que de alguém habitualmente cuzão e, às vezes, gente boa! Mas, lembre-se: não há nada de racional na atração.

Veja nossa amiga Amanda: o vizinho dela, o João, via de regra, é extremamente cuzão com ela. Não dá bom dia, faz comentários rudes e, uma vez, até roubou o jornal dela! Mas, por outro lado, em alguns momentos, elogia-a, curte suas fotos e fala de maneira fofa. Não deu outra, Amanda gamou e agora tem três pretendentes!

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Outra ilustração da nossa atração psicológica irracional é aquilo conhecido como familiaridade”. Em suma, gostamos do que estamos acostumados. As pesquisas sobre o tema só vão até a aparência e ideologia, mas não é difícil deduzir que isto também ocorra com elementos mais abstratos, como o tipo de tratamento que gostaríamos de receber. E, aqui, a história fica meio sombria. Durante nossa vida, uma parte significativa de nossos relacionamentos não foi permeada com felicidade, mas, sim, com indiferença, raiva, abusos e outros sentimentos mais baixos. É o que conhecemos e estamos acostumados. Portanto, de forma inconsciente, é o que acabamos nos atraindo por. Alguma parte escondida de nossa alma é atraída para o sofrimento, como uma palha de ferro para um ímã.

No caso de Amanda, toda pessoa com quem ela se relacionou gostava de humilhá-la em público e a fazer submissa. Ela está tão acostumada com esta situação que praticamente se sente em casa quando encontra um cara claramente dominador. É o caso do Zildo, chefe dela, que sempre a assedia. Ela compreende a malevolência dele, mas, como uma suicida, não consegue evitar se apaixonar. É uma mera marionete nas mãos do seu subconsciente.

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Citei apenas duas formas de atração psicológica, mas, claro, há numerosas. Alain de Botton, filósofo austríaco, aponta essas e mais algumas outras formas de irracionalidades atrativas no fabuloso vídeo ”Why you Will Marry the Wrong Person”.

O leitor atento identificará quantos de seus conhecidos (e talvez até si próprio) entraram e persistiram em relacionamentos motivados meramente por esses fatores inconscientes que Schopenhauer, a psicologia e Alain de Botton nos apresentaram. Certamente, consegue pensar no primo que casou focando no sexo e, agora, com o tempo levando embora o tesão, tem de viver de amantes ou enclausurado em um casamento tedioso; sem dúvida, lembra da amiga que namorou um cara causador de tristeza e ansiedade, mas que, de vez em quando, era carinhoso e prometia mudar, fazendo-a aceitá-lo uma vez mais, e, assim, permanecendo no relacionamento abusivo por mais alguns anos; também nunca esquecerá do irmão que, ao longo dos anos, teve apenas namoradas frias e desequilibradas. A atração é uma genocida vil, condenando milhões de vidas à tristeza silenciosa.

Não obstante, e de forma trágica, ela é necessária. Qualquer um que já tentou manter um relacionamento sem se sentir atraído pelo parceiro sabe o inferno forçado que é. Ele pode ser o suprassumo da humanidade – feliz, respeitoso, confiável, carinhoso, inteligente, produtivo, atencioso… – se nossas sexualidade e psicologia malucas não o aprovarem, não importa o resto: se tentarmos um namoro sem atração, seremos sufocado pelas horas que não passam, pelas conversas agridoces e pelos sorrisos amarelos. Fracassaremos, por fim. O mais sábio é deixar essas pessoas, íntegras, mas sem gosto, no campo do ”legal, mas não serve”. Não é sua culpa, não é culpa do pretendente e, via de regra, de ninguém. Não é algo pessoal, mas, sim, fruto da seleção natural e de nossa psicologia desorientada.

Assim, não devemos negar e nem abraçar inconsequentemente a atração, mas usar dela sabiamente. Como? Na minha visão, usá-la apenas como o primeiro filtro para bons relacionamentos. Explico: a fim de entender se alguém é ou não um bom candidato, a primeira coisa para se notar é se há atração por ele.

Não? Sai fora. Não devemos forçar a atração por alguém, entrando em um relacionamento sem ela ter brotado de forma natural – não importando o quão boa a pessoa parece. A Amanda foi esperta e, apesar de achar ele um fofo e notavelmente inteligente, rejeitou o Bruno Bonzinho, conhecido da academia, alegando incompatibilidade sexual e psicológica.

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Há atração? Okay, vamos agora refletir. Tão ruim quanto tomar a atração como desnecessária é tomá-la como suficiente para iniciar um relacionamento. Ela, pelo contrário, é só o primeiro passo. Sabendo que há tesão, devemos analisar, de forma racional, as características da pessoa  e como elas se adaptam aos critérios de relacionamento que a ciência e nós mesmos ditamos como valiosos.

Esta análise é a parte ”racional” e constitui o segundo filtro para um bom relacionamento, como veremos na segunda parte do artigo. Será que Amanda escolherá Nando, Zildo, João ou Raimundo? o_o

Racional

A racionalização consiste em definir quais são as características importantes para você, bem como analisar aquelas universalmente relevantes em um relacionamento, e analisar se a pessoa desejada as possui em um nível aceitável. Caso não as tenha, devemos nos esforçar para não iniciar um convívio aprofundado com ela, sob pena de cair na futilidade já demonstrada de estar inserido em um convívio com base apenas na atração irracional. Ou, caso optarmos por iniciar um relacionamento mesmo assim, alterar a pessoa (ou, se for o caso, nós mesmos) até ela se tornar alguém melhor. Sim, alterar aquilo que você ama.

A parte racional do amor, muitas vezes, envolve a criação artificial de alguém digno, como um ourives trabalhando na pedra bruta. Eu sei que você discorda. Acha que ”todo mundo tem erros” e ”quem ama aceita”. De fato, todo mundo tem erros. Todo relacionamento é, em medições absolutas, medíocre. Citando Alain de Botton : “Todo mundo é fundamentalmente errado. Não há um ‘o escolhido.’” No entanto, há erros e erros. Enquanto falar alto em locais públicos é um defeito que pode ser aceito, praticar violência doméstica não é. Se você é uma pessoa disposta a entrar em um relacionamento com alguém que possui defeitos graves, deve estar preparada, sob pena de perder anos e anos com um companheiro tóxico, para, com suor e lágrimas, alterar a pessoa. Ou isso ou saia fora. Apenas não continue com alguém que possui caráter mais desgastado do que chão do calçadão. Só se vive uma única vez, afinal.

Com essas opções em mãos, resta uma pergunta: quais características são relevantes na hora da escolha racional? Como mencionei logo na introdução, a escolha do parceiro mais bem lapidado é profundamente pessoal, de forma que não é minha intenção definir quais características você deve estar procurando na sua racionalização. No entanto, como um homem crente na ciência, gostaria de apontar três noções já bem consolidadas sobre o que um bom relacionamento precisa ter a fim de nos dar uma base para encontrarmos bons parceiros. Naturalmente, você pode fundamentar outras conforme sua experiência pessoal e outros dados. Mas é interessante manter essas três em mentes para evitar relacionamentos que, embora possuam atração, sejam MUITO tóxicos. A fim de fixar as ideias, citarei alguns ”casais modelo” presentes nas artes, que podem nos servir de exemplo para uma característica importante específica ^-^ E, claro, continuarei história de Amanda!

A primeira característica universalmente importante é intimidade. Entenda intimidade, aqui, como a capacidade de dividir situações, confissões e sentimentos. De fato, as pesquisas demonstram dados como: manter a amizade entra o casal, reviver boas memórias, criar novas e participar das conquistas do outro ajudam a manter um relacionamento feliz e produtivo. O motivo é óbvio: conviver com alguém que não permite aproximação é quase idêntico a não ter companheiro nenhum. Desta forma, quando analisamos um pretendente, devemos notar se ele dá margem para entrarmos em sua vida e tem interesse em participar da nossa.

Na literatura, um relacionamento extremamente íntimo é o criado entre Tomas e Tereza, um dos casais protagonistas de A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera. Possuem uma ótima comunicação, sempre expondo o que sentem um ao outro e tomando atitudes ativas para participar da vida um do outro. Em uma cena antológica, Tereza, fotógrafa, tem suas fotos compradas por uma importante editora e Tomas a convida para celebrar em um bar, com dança e cantoria. Ao ver Tereza dançando com um amigo, comunica ciúme. Não guarda para si, mas compartilha com ela, em um pacto de intimidade.

Ademais, a trama do livro se passa, na maior parte, durante a invasão soviética na República Tcheca (Primavera de Praga). Assim, o casal vê diversas facetas um do outro: o medo, a perversão, a alegria, a agonia, o pânico, a felicidade, etc. Tendo visto parte da luz e da escuridão em cada um, compartilham entre si, tanto a dor de pisar em espinhos quanto a serenidade de caminhar entre flores.

Amanda precisa de alguém assim. Todavia, toda essa situação seria impossível de manter com o Raimundo Bundabonita. Infelizmente, ele é muito focado na própria existência, não auxiliando as companheiras nas conquistas delas e nem se importando realmente com o que sentem. Além disso, é acomodado e nunca quer fazer nada diferente. Só mostra uma face de si mesmo. Por fim, não sabe expressar o que sente e nem conta seus segredos. Muito provavelmente, se Amanda o namorasse, o relacionamento naufragaria antes do primeiro ano, após uma noite de silêncios desonfortáveis. É como conversar com uma parede. Ainda que seja uma parede com uma bunda realmente bonita. Menos um pretendente.

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Uma segunda característica importante é a igualdade. É também extremamente bem demonstrado que é necessário haver um equilíbrio em quem dita as regras no relacionamento. Se apenas um dos lados tende a definir onde jantar, o que assistir e onde investir o dinheiro da família, há uma chance muito grande de a pessoa ”comandada” se tornar submissa e dependente do parceiro. Ela deixará de buscar intensamente os próprios interesses, sempre se perguntando se o companheiro totalitário os aprovará. Esquecerá, por fim, de si mesma, deixando de ser um indivíduo. Eric Fromm, ele mais uma vez, descreve tal relacionamento de idolatria como: ”Ele é tudo, eu não sou nada, salvo na medida em que sou parte dele”.

Sem ser um indivíduo, ou seja, ter interesses e força de vontade, é impossível criar um relacionamento relevante. Para além disso, é impossível sair do relacionamento sem um trauma grande: perde-se uma parte muito relevante de si, afinal. Torna-se uma histeria. Deve-se avaliar, portanto, se nosso possível companheiro nos concede a palavra e, além disso, também diz suas vontades e intenções.

Um casal que incorpora bem o conceito de igualdade é o de Titanic: Jack e Rose. Na trama, Rose padece de ansiedade e tristeza por estar inserida em um contexto em que não é ouvida e nem consegue se relacionar com alguém de forma profunda, incluindo seu noivo, o babaca do Carl. Jack, por outro lado, tem a sensibilidade de ouvi-la e buscar ajudá-la em todos os aspectos da vida dela, ao mesmo tempo que não se submete a Rose por ela ser de uma classe social maior. É uma relação de igualdade, por fim. A cena final, em que Rose decide viver e busca o apito, simboliza isso: Jack a viu como um indivíduo com vida própria independente. Ela não vai morrer porque ele o fez. ^_^

Muito bonito, de fato. Pena que o Zildo Abusivo não é assim. Muito longe de Jack Dawson, ele gosta de fazer tortura psicológica quando não consegue o que quer, dita o que a namorada deve ou não fazer e não a deixa sair com nenhum amigo. É o tipo de pessoa que limita nossas perspectivas, colocando nossa existência em função da permissão dela. Caso Amanda o namorasse, teria de abandonar todos os seus colegas e adequar seus afazeres à vida de Zildo. Não vale pena. Nossa felicidade é muito extensa para ser limitada por outrem.

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Por fim ,tem-se a necessidade de haver good vibes. O cientista do relacionamento John Gottman cunhou o termo ”Golden Ratio” para relacionamentos: ”casais que possuem uma taxa de menos de cinco interações positivas para cada negativa estão destinados ao divórcio”. Ou seja, é interessante evitar manter contato prolongado com aquelas pessoas que, na maioria das vezes, realizam comentários negativos, colocam-nos em situações desconfortáveis ou não nos motivam de nenhuma forma.

O contrário disso, naturalmente, é o companheiro que nos motiva e incentiva, com mais palavras tenras do que acusações e julgamentos, além de possuir um humor apurado. Possuindo isto, a rotina do casal torna-se agradável, com cada integrante do relacionamento vendo o outro como um alívio e como um companheiro no enfrentamento das mil frustrações da vida humana. All the reality is pointless, but us.

Todos esses elementos estão muito bem representados no casal Alvie Singer e Annie Hall, da coméda romântica ganhadora do oscar ”Annie Hall”, de Woody Allen. Em situações notavelmente negativas, conseguem levar tudo com leveza e humor: após Annie gritar que havia uma aranha gigante no banheiro, Alvie a rechaça, afirmando que ”mata aranhas desde os trinta anos”, apenas para, segundos mais tarde, concordar com Annie e ir buscar uma raquete maior; da mesma forma, uma lagosta viva na panela se transforma em uma grande perseguição e diversão na cozinha. A agonia vital é menor para os bons amantes.

Namorar o João Cuzão, por outro lado, só pioraria tal agonia. Em qualquer situação que dá errado, ele gosta de xingar os outros de burros e ignorantes. Além disso, seu humor só existe quando é para rir da aparência da namorada (aprecia muito a palavra ”gorda”). Por fim, é extremamente agressivo em tudo que faz. Não pede um copo d’água com ”Por favor, gostaria de água”, mas com ”Me dá essa porra logo, caralho”. Sua vida é uma ofensa constante a suas companheiras. Se Amanda o namorasse, certamente estaria depressiva em alguns meses.

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Assim, o único que passou pelo segundo filtro, o da razão, foi Nando Anaconda! Ele consegue gerar intimidade, promove igualdade e tem good vibes. E, além disso, é bem dotado! Note aqui que no Nando Anaconda temos a união do irracional e natural – o pênis – e o racional e refletido – as características. Certamente, como vimos no início, ele terá ainda algumas falhas notáveis: talvez seja péssimo no sexo oral, ou seja muito apegado à mãe. Todavia, dentre as opções oferecidas pelas circunstâncias, ele certamente foi a melhor escolha possível ^-^  Amanda pode dormir com a convicção de que está dividindo seus dias com alguém valioso (isto é, se ele, após passar pelo mesmo processo dos dois filtros, julgou Amanda como sendo a melhor opção, haha).

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Conclusão:

Como se vê, depois de mais de dez páginas, não há uma fórmula definitiva para escolher um bom relacionamento. A psicologia é, por excelência, uma ciência humana, afinal. No entanto, creio, o artigo apresentou algumas diretrizes muito interessantes para se interiorizar enquanto buscamos algo bom. Nomeadamente:

  • O amor pode e deve ser analisado;
  • a atração é irracional;
  • atração é necessária, porém não suficiente;
  • a razão é necessária, mas não suficiente;
  • pode-se e se deve alterar certas características de nossos amados;
  • o melhor amor ainda assim é medíocre.

A fim de sumarizar as ideias principais, preparei esse gráfico mui bonito e com muitas cores vivas:

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Portanto, da próxima vez que pensar em transformar um relacionamento em algo mais sério, tente se manter no azul :33 Com as ideias desse artiguinho, aceite sua natureza irracional, contorne-a e, enfim, selecione. Talvez isso evite que sejamos mais um componente do infinito mar de decepções amorosas. ^-^ Eu estou na luta, for sure.

(Hey. Alguém aí tem uma atração irracional por mim e racionalmente me julga bem lapidado? ❤ Deixe-me saber :3)


Adendos e referências artísticas e científicas:

Toda parte ”Racional” do Artigo e o estilo de apresentar a história da Amanda foi baseada no maravilhoso post ”How to pick your life partner” do site ameriano ”Wait But Why”, que eu recomendo imensamente que vocês acessem. Meu único trabalho, na parte ”Racional”, em fato, foi de colocar algumas fontes nas informações que eles apresentam, além de encontrar alguns exemplos artísticos legais para ilustrar o que eles queriam dizer, além de criar uma história envolvente (?) para apresentar as ideias.

Todos os desenhos foram feitos pela minha estupenda amiga e artista digital mui talentosa Marina Nogueira ❤ Ela possui uma página virtual de qualidade elevadíssima e que merece uma visita o mais rápido possível u_u

Sendo assim, meu real trabalho foi pesquisar sobre as causas da atração e compilar isso de forma resumida e acessível. Para me auxiliar nisso, deixo aqui sumarizada todas as referências que usei, para o caso de alguém querer saber mais sobre:

Livros:

Arte de Amar – Eric Fromm

As origens da virtude – Matt Riddley

O gene Egoísta – Richard Dawkins

A insustentável leveza do Ser – Milan Kundera.

 

Canais do Youtube:

School of Life – Alain de Botton.

Canal do Pirulla – Pirulla.

 

Filmes:

Titanic – James Cameron

Annie Hall – Woody Allen

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