Mise en Abyme – O Ciclo da Grande Depressão

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Mise en abyme – literalmente, “cenário de abismo” –, também conhecida como efeito Droste, é uma técnica de recursividade – repetição – artística. É o que acontece quando você está entre dois espelhos, originando uma série infinita de reflexos, é uma imagem dentro de si própria. Um dos mais conceituados aplicadores deste efeito é Maurits Cornelis Escher, artista gráfico holandês, famoso por seus quadros Relatividade e Cachoeira, que demonstram eventos fisicamente impossíveis gerando ciclos infinitos.

A combinação destas técnicas no campo das artes visuais gera excelentes resultados, o problema é quando nos percebemos enredados por elas na vida real. Tais recursos consistem, basicamente, em prisões, tal qual Sísifo, que, na mitologia grega, após sua morte, é sentenciado a empurrar montanha acima uma grande pedra de mármore que invariavelmente retorna ao ponto de origem. Fomos postos em um abismo, infinito, um ciclo vicioso.

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Mas que abismo seria esse que nos envolve inevitavelmente? A economia. Estamos absolutamente sujeitos ao interesse do capital, e seu único interesse é o lucro. Sendo assim, intermitentemente, a especulação se torna tão descarada que inicia um recesso econômico violento. É tão pior do que a especulação sobre um bem material, ou uma casa. É tão pior que especular sobre o próprio dinheiro. É a especulação em cima do crédito. Essa é a triste constatação do filme The big short – A grande aposta.

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A direção coube a Adam Mckay, que se recompõe de seus nada notáveis sucessos de bilheteria supostamente cômicos, como Talladega Nights: The Ballad of Ricky Bobby. Os papéis primários foram ocupados por atores caros: Brad Pitt, como sempre, executando uma performance exemplar; Ryan Gosling, dessa vez, sem tirar a camisa; Christian Bale, com a atuação da sua vida, simplesmente, a única vez em que sua inexpressiva cara de bêbado confuso veio a calhar; e Steve Carrel, que também brilhou, afastado do humor pastelão escancarado.

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Enfim, de modo irreverente e bem humorado, porém extremamente conciso e expressivo, The big short proporciona uma breve introdução às ciências econômicas para leigos, embora, por vezes, abusando da linguagem específica. Em seguida, analisa rapidamente a razão que levou a carreira bancária a se tornar tão lucrativa como é, relacionando essa causa à Grande Crise de 1929, nos EUA, que abarcou a economia mundial. Explicita, então, como argumento central, enredo, o modo como esse cenário se repete na crise americana de 2008, por fim, informando que as práticas bancárias permanecem inalteradas, salvo em nomenclatura, de modo que podemos esperar outra grande crise mundial no futuro próximo.

Nesse ritmo, talvez passemos a encarar a História, não como uma sequência de culturas e conflitos, mas como uma sucessão de grandes crises econômicas. Talvez, microcrises, de nível nacional, se tornem um evento cotidiano. Imagine assistir ao telejornal, no ano de 2025, e encontrar as seguintes matérias: Chocolate danoso à saúde? União Europeia assume mais um colapso econômico. Veja o novo look do verão. Estudos recentes comprovam que chocolate é benéfico.

Caso não tenha soado suficientemente enfático, repito: estamos nos encaminhando para uma nova crise econômica de proporções globais! E o fato mais preocupante é que o intervalo entre elas parece estar encolhendo exponencialmente. Entre 1929 e 2008, há um intervalo de quase oito décadas. Entre 2008 e – quem sabe? – 2018, o intervalo é de uma década.

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Ok, nem é tão dramático assim

Não fosse essa temática tão sinistra, talvez comentasse sobre a excelente trilha sonora do filme, comparasse a obra cinematográfica à sua inspiração literária homônima, ou discorresse acerca de sua cruzada contra a desonestidade acadêmica, a formulação de termos técnicos que, com frequência, dificultam o diálogo, em vez de facilitá-lo.

Para encerrar este alarme fúnebre, recapitulo: se não nos tornarmos mais conscientes e responsáveis em relação a nosso ambiente (não, não estou falando só de ecologia) e nossas ações, seremos manipulados por grandes corporações bancárias, subservientes à lógica do capital, ansiando apenas o lucro, em uma série interminável de crises, inflação, suicídios. Cartola disse: “o mundo é um moinho.” Que precisa definição! Sem as complicações do materialismo histórico marxista, o artista estabelece a alegoria perfeita. O mundo é o moinho, nós somos as pás. Revolvemos e giramos, sem, contudo, sair do lugar. Em um mundo como esse, não há espaço para sonhos, esperanças, expectativas, resistência. As ilusões são reduzidas a pó. Mas resistamos, porquanto ainda somos humanos. Nem números, nem índices, nem gráficos, nem tabelas. Respiramos ar, calçamos terra, nem cifras, nem moedas. E não deixem de assistir a The big short.

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