Março Sangrento

Há exatos trinta dias atrás a situação do país era completamente diferente da atual. No início desse ano a crise política parecia ter sido amenizada após um dezembro tenso, em que o senador ex-petista Delcídio do Amaral foi preso pela Polícia Federal e o vice-presidente Michel Temer deu seus primeiros sinais de insatisfação com Dilma. Passada a turbulência, o governo começou o ano focado na tentativa de dialogar com o Congresso. Dilma, porém, mal sabia o que enfrentaria pela frente.

Devido a delação premiada de Delcídio do Amaral, a Operação Lava Jato alcançou, pela primeira vez, a cúpula petista. O senador citou as mais importantes figuras do partido, Lula e Dilma, além de outros caciques da política brasileira, como Aécio Neves, Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Michel Temer. Para evitar que essa bomba fosse jogada sobre o Planalto, o governo tentou, por intermédio de Aloizio Mercadante, subornar Delcídio com apoio político, jurídico e financeiro. Um tremendo fracasso, já que o senador denunciou à Polícia Federal tal tentativa do governo.

Com as investigações da Lava Jato na cola de Lula, que no início de março foi conduzido coercitivamente a prestar depoimento à Polícia Federal, Dilma o convidou para chefiar o Ministério da Casa Civil, argumentando que ele seria uma peça fundamental para a articulação política do governo. Entretanto, no mesmo dia em que foi anunciada a data da posse de Lula como ministro, o juiz Sérgio Moro vazou uma conversa telefônica do ex-presidente com Dilma em que é possível interpretar que a nomeação de Lula possuía o propósito de evitar uma eventual detenção.

Consequentemente, a crise política se agravou, e muito. O processo de impeachment na Câmara dos Deputados foi retomado e, graças ao Eduardo Cunha, anda mais rápido do que nunca, já que seu cargo lhe permite acelerar ou retardar o desempenho das comissões na Casa. O número de adesão ao impeachment cresceu entre os deputados federais e se torna um imenso obstáculo ao governo, que precisa ter pelo menos 171 votos para barrar o processo. Do outro lado do Congresso, o maior aliado que Dilma teve até então, Renan Calheiros, avaliou que o Senado não conseguirá obstruir o impeachment caso seja aprovado na Câmara.

O governo está vivendo seu pior pesadelo desde o início da instabilidade política, e irá piorar. O PMDB, aliado ao PT desde o primeiro governo de Lula, oficializou hoje o rompimento com o Planalto. A decisão do maior partido do país influencia a outras siglas da base aliada (como o PP, o PSD e o PR) a fazerem o mesmo. Como consequência dessa perda de apoio, torna-se mais árdua a tarefa de conseguir os votos necessários para barrar o impeachment.

Esse mês de março marcou a história da política brasileira. Desde o início do segundo mandato de Dilma nunca se teve tanta certeza de que sua queda se concretizaria. A combinação da conjuntura econômica com a instabilidade política causada pela Operação Lava Jato fez com que o governo aguentasse, com muita dificuldade, toda a pressão durante o ano de 2015. Mas só depois dos acontecimentos ocorridos nessas últimas semanas que a saída de Dilma do poder se tornou uma questão de tempo. 

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