A Nona Cruzada

Chegou aquela época do ano em que não se veicula mais tantas notícias de atentados terroristas como de costume. O que acontece então? O público para de se importar. Contingentes populacionais massivos priorizam sumariamente a compra dos ovos de Páscoa ou do bacalhau. E, então, como fica a indústria do terror?

Mas existe uma “indústria do terror”? Sim, existe. Ela se manifesta de diversas formas. É ela que prioriza os crimes nos noticiários, assim como é ela que transforma gangues de rua com uma causa em ameaças internacionais. E o que essa indústria produz? Bem, são as manchetes recorrentes de violência que te fazem querer colocar câmeras de segurança, cercas eletrificadas, insufilm nos vidros do carro, cadeados maiores em portões maiores de muros maiores para carros maiores com armas maiores. São as notícias de degolamentos, explosões de monumentos, homens bomba e afins que diminuem sua resistência a medidas extremamente violentas e desnecessárias.

Essa indústria existe porque, no fim, a opinião pública é o que importa. Você pode salvar todos os gatos presos em árvores no mundo e ser odiado. Você pode bombardear um povoado durante um mês, matando dezenas de crianças todos os dias, e, ainda assim, ser amado. Porque, às vezes, a violência pode parecer um mal necessário, enquanto outras características, como a diplomacia e o respeito à vida e aos Direitos Humanos podem parecer irrelevantes. Tudo se resume em uma palavra: propaganda.

Todos sabemos que propaganda é a alma do negócio, porém, ela vai muito além do outdoor com bolos confeitados e garotas de biquíni em cima da padaria do Manoel. Um dos melhores meios de propagação massivos é o cinema, que permite transmitir uma mensagem a centenas de milhões de pessoas no mundo, e são elas que pagam para assistir ao comercial.

Um filme recente que chama a atenção no quesito “propaganda” é Invasão a Londres – London Has Fallen. Em uma cena emblemática do trailer, o presidente dos Estados Unidos afirma não querer “morrer para servir de propaganda (terrorista)”. Isso é extremamente irônico vindo de um filme, como seu antecessor – Invasão à Casa Branca –, unicamente voltado para a propaganda antiterrorista.

Mas o que seria esse “antiterrorismo”? De fato, não tem nada a ver com terror em si. O antiterrorismo propagado pelo filme é, antes, um enaltecimento cego e escancarado do, já exacerbado, patriotismo norte-americano. Novamente, como virou praxe no cinema estadunidense, o Presidente está em perigo graças a um ataque terrorista e apenas um homem pode protegê-lo.

No meio desse caos, políticos americanos ressaltam que os EUA defenderão a paz, manterão a ordem e salvarão a galáxia. O ideal de liberdade é amplamente antagonizado pelos terroristas, que, sem nenhum motivo aparente, procuram impor sua visão de mundo. Acho que cabe, portanto, outra pergunta. Quem são os terroristas?

Não se especifica tal informação. Ora, parece vital saber quem são os tais terroristas para além de “um bando de orientais mal encarados”. Não há preocupação em restringir esse grupo, fomentando preconceitos raciais e étnicos. Diga-se de passagem, parece um conceito arraigado da cultura norte-americana o de que as ameaças são todas externas.

No filme Batman versus Superman: A Origem da Justiça, a ideia clara para quem assiste é a de que o errado é o estrangeiro, o alienígena, conceito que é, posteriormente, desconstruído. Na série de quadrinhos e filmes X-Men, são os estranhos que sofrem preconceito terrível por parte da norma. O colorido da bandeira do patriotismo esconde um mal intrínseco: xenofobia. No entanto, retornando a Gerard Butler, Morgan Freeman, Aaron Eckhart e outros nomes caros, surge uma questão: quem paga a conta e por que o faz?

Esse filme, de produção americana, necessitaria de interesses privados bem específicos. Os investidores deveriam apresentar ímpetos de construir um muro em torno dos Estados Unidos e realmente depreciar imigrantes, ter tendências xenófobas e racistas, alimentar um ideal patriótico extremista, procurar apoio para conseguir algum tipo de poder, além de ser alguém extremamente rico. Qualquer semelhança com pessoas vivas, mas que parecem mortas, é mera coincidência.

Entretanto, vamos deixar de lado as implicações e causas. Foquemos na simples estupidez desse patriotismo gritante. No filme, cinco grandes líderes mundiais são mortos, mas sem nenhuma festa, porque os terroristas procuram, na verdade, somente o presidente americano. Uma das maiores cidades não-americanas é deixada de joelhos. O único capaz de salvar o mundo (porque, no caso, uma ameaça aos EUA é interpretada como uma ameaça a todo o mundo) é um soldado americano, que pode ser descrito como “americano padrão”.

As premissas dessa ufania desmedida presente no filme são ululantemente incoerentes, mas gostaria de ilustrá-las. Qualquer método de extermínio de vilões está justificado porque esses terroristas do Oriente Médio tem habilidades quase sobrenaturais, sem ser, contudo, páreo para os magnânimos Estados Unidos da América. Parece que, nesse caso, o terrorista só é realmente terrível nos momentos de maior conveniência para as vítimas. O Coringa só aparece quando o Batman precisa trabalhar.

A propaganda é evidente aqui. Poderiam mudar o título do filme para “como justificar bombardeios que matam centenas de inocentes na Síria e no Iraque”. Em nome da paz, promovem medidas totalitárias. Acabam com a privacidade e com os escrúpulos. A legitimidade é apenas burocracia inútil. Qual o problema de explodir algumas centenas de famílias enquanto elas jantam desde que peguemos os caras maus, não é mesmo? São apenas árabes, cidadãos de segunda, terceira ou quarta categoria. São sujos e feios, morenos e barbados, todos eles.

Foi exatamente essa a mentalidade que deixou os Estados Unidos desprevenidos para uma ameaça interna, que veio a explodir duas torres idênticas em Manhattan. Foi exatamente essa a mentalidade que levou os europeus a comprarem guerra com o oriente, e, consequentemente, receberem o troco. Foi exatamente essa mentalidade que levou ao maior genocídio do século XX. Porque terrorismo é ótimo quando não estoura no nosso quintal.

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