Uma vez (re)conheci

Ando pelas ruas e passo indiferente aos outros. Desconheço todos ao passo que também me desconhecem. Barulho, trânsito, vermelho! Paro. Espero, verde, sigo… Um dia como qualquer outro, vejo tudo e nada… Até que olho em seus olhos, a feição é familiar, porém transformada pelo tempo está muito distinta daquela que uma vez conheci. Somente seu olhar faria com que me lembrasse… Pedro! – sai involuntariamente e contenho o impulso de desviar, olho para trás e meu pressentimento está correto. Ele procura pela voz, mas, sem me reconhecer, segue seu caminho. Sinto por alguns segundos uma felicidade nostálgica, pois ali me deparei com um amigo que tanto me marcara. Mas, em seguida, ao lembrar que de minha vida já não fazia mais parte, o breve encontro torna-me triste.

Pedro. Com ele me sentia correspondida, compreendida como nunca e para nós nada mudaria esse sentimento. Esperava que, onde quer que eu estivesse, pudesse procurá-lo e receber dele a sensação de conforto. Foi assim o início de nossa amizade, tento lembrar e por mais que me esforce, não vem a minha mente a imagem de como nos conhecemos, a primeira imagem que tive dele. Talvez seja porque muitos aniversários se passaram e minha habilidade de recordar não seja tão boa quanto espero, ou será que o primeiro contato tenha sido absolutamente genuíno e espontâneo ao ponto de não ter dado singela importância àquilo que mais tarde marcaria minha vida? Acredito que sim… crescemos juntos, mudando a cada ano, aprendendo e passando por situações desconhecidas sempre tendo no outro a segurança de que nada nos afetaria, que éramos mais.

Conheci Pedro por volta dos 4 anos quando entramos na mesma escola e como crianças, aproveitamos daquela fase o que já se espera… Brincávamos, no jardim, de catar coquinhos, passávamos todos os dias juntos, tomando o lanche, desenhando e compartilhando histórias. Os anos passaram e não percebemos uma diferença relevante entre fazer, 7, 8, ou 9 anos porque por mais que nossa ingenuidade fosse corrompida e nossas crenças em Papai Noel e Fada do Dente destruídas, ainda não tínhamos preocupações com o que faríamos de nossas vidas ou a preocupação com o amanhã, esta simplesmente não existia… Tínhamos, de fato, sonhos de viajar para diferentes lugares, vontade de passear com a família, de ver nossos amigos, de ir para a aula de futsal, de comer doces, de dançar na festa junina… Entre essas vontades e ocupações, havia eu e Pedro, éramos tão amigos que nossas famílias se conheciam, já havíamos viajados juntos e depois das briguinhas de cada dia, sempre “retomávamos” nossa amizade com um cumprimento secreto – junto de muito alívio. Não poderia imaginar um cotidiano sem ele, quando ele não ia à escola, o tempo passava lentamente e assim que chegava a minha casa ligava para ele a fim de saber o que acontecera.

Durante anos foram assim e habituei-me ao fato de que ele sempre estaria ali pra mim, mas foi no meu aniversário de 10 anos que soube da grande notícia: filha, vamos nos mudar! Aquilo soou como nada pra mim, apenas mudaria de cidade, consequentemente de escola, mas Pedro continuaria ali junto de mim. Eu era muito pequena para assimilar todas as consequências que uma mudança de apenas 30 km poderia provocar, inocente demais para saber que, distância e tempo poderiam enfraquecer qualquer laço. A mudança ocorreu rapidamente, assim como minha adaptação. Dizer adeus aos antigos amigos não foi simples, saber que continuariam juntos, seguindo suas vidas igualmente, sem mim, deixou-me claramente abatida. Por outro lado, consegui formar novos amigos e me incluir num contexto diferente de forma pacifica, não havia o porquê de gerar conflitos com meus pais ou amigos, sabia que dali em diante aquela era minha realidade e aceitá-la era a única opção. Os dias seguintes traziam sempre o inesperado, algumas primeiras vezes vieram, mas dessa vez Pedro não estava presente. Buscamos soluções para a distância: conversávamos um com o outro uma vez por dia, depois, uma vez por semana, por mês, ano… até nos tornarmos desconhecidos. Nosso afastamento foi gradual e imperceptível, depois que não tínhamos mais a convivência, o assunto pelo telefone tornou-se escasso, esforços das duas partes não foram suficiente para nos manter unidos, e de repente, sem mais ninguém se importar, não tivemos mais contato. A separação não foi triste, porque não houve briga, não houve um ponto final ou algo que estabelecesse um fim definitivo, adiamos nossa amizade, cientes de que não esqueceríamos o que vivemos anteriormente.

Pelos anos seguintes, por algumas vezes pensei o que Pedro deve estar fazendo agora ou o quanto mudou? Noites nostálgicas faziam-me reler bilhetes dele que guardava comigo e lembrar as tantas coisas que passamos juntos, rever fotos nossas com fantasias, dos aniversários comemorados juntos e até em diários antigos seu nome estava marcado. Num desses dias, encontrei o telefone de sua avó, carregada de tantas memórias liguei sem hesitar, a mesma voz que eu ouvia frequentemente atendeu e depois de uma breve conversa, passou o telefone para Pedro, nos deliciamos conversando sobre quanto tempo passara e sobre coisas normais de escola e família. A fim de restabelecer contato, trocamos o numero de celular para mais tarde conversarmos pelo Whatsapp, tal como o adicionei nas redes sociais A semana rendeu momentos de entusiasmo e felicidade, mas como o esperado, não durou muito.

O Pedro que havia conhecido, do qual tinha tantas lembranças, não é mais o de hoje, seus gostos, sua personalidade e demais características acompanharam o tempo, diferente de mim, que presa ao passado, não aceitei as mudanças pela quais passamos e ainda teríamos de passar. O conhecimento agregado, as histórias de quem conheceu e as experiências que vivenciou formaram quem ele é agora, mas por quem eu, não sinto mais reciprocidade, intimidade e amor. Sei que marcamos o inicio da historia um do outro, que eu contribui de muitas formas para o Pedro de hoje, que ele me amou assim como eu o amei, só que não o amo mais. Sinto-me confortada porque o que vivemos foi sincero, ademais, sinto me lisonjeada por ter sido parte de sua “fase” mais pura, carrego nossa historia no peito, mantenho velado o carinho que tenho por ele e me conformo ao saber que ele também.

De amizades como essa ou de qualquer outro relacionamento que eu, Pedro e você tenhamos, sabemos: permitir-se mudar é imprescindível; que os fins são inevitáveis e que ao chegar neles, devemos preservar as lições que dali tiramos e guardar a veracidade de nossos sentimentos para as próximas relações. Por fim, repito: guardo Pedro em meu peito, saber que isso é mútuo, basta.

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